A Banqueira do Povo

Exibição:
12/04/1993 – 08/10/1993 (RTP 1)

Número de capítulos:
130

Uma produção:
Máquina dos Sonhos

Novela de:
Walter Avancini
Patrícia Melo

A partir de uma ideia de:
Walter Arruda

Guião:
Patrícia Melo
Walter Avancini

Escrito por:
Carlos Alberto Ratton
Cláudio MacDowell
Duca Rachid
Maurício Arruda

Diálogo final:
João Aldeia
Leonor Xavier

Pesquisa de época:
José Gabriel Viegas
Clara Rocha

Temas musicais e arranjos:
Guto Franco

Direção de produção:
Luiz Carlos Taborda

Produção:
Walter Arruda
Paulo Trancoso

Realização:
Walter Avancini
Maurício Farias
Lizanias Azevedo
Álvaro Fugulin

Direção geral:
Walter Avancini

Elenco:
Alexandra Lencastre – Isabel
António Évora – Duarte
Bara Muñoz – Cláudia
Carlos Santos – Manuel Simões
Carmen Dolores – Tininha
Curado Ribeiro – Coimbra
Deborah Aizim – Francisca
Diogo Infante – Álvaro
Eunice Muñoz – Dona Benta
Guigui Grilo – Margarida
Jacinto Ramos – Afonsinho
João Cabral – Rodrigo
João d’Ávila – Ricardo Gonçalves
João Lagarto – Augusto
João Perry – Horácio
Joaquim Rosa – Mestre Pedro
José António Pires – Carlos Eduardo Gomes
José Eduardo – Inspetor Maia
Júlia Correia Lagos – Rosário
Lídia Franco – Teresa
Miguel Hurst – António Gomes
Paulo Matos – Eduardo Faria
Paulo Pinto – Eusébio
Raul Solnado – Guimarães
Rogério Samora – Jerónimo
Rosa Castro André – Filipa Rodrigues
São José Lapa – Leonor
Sofia Alves – Lena
Sofia de Portugal – Rita
Sofia Matinhos – Adelaide
Suzana Borges – Maria do Carmo
Vítor Rocha – Alexandre
Zé Renato Solnado – Joaquim

Participações especiais:
Alexandre Melo – juiz
António Cara d’Anjo – médico de Cláudia
Asdrúbal Teles – reformado
Benjamim Falcão – Joaquim Santos
Carlos César – Dr. Paulo Martins
Carlos Dias – entrevistado
Carlos Pimenta – técnico do Banco de Portugal
Carlos Rodrigues – médico IML
Heitor Lourenço – representante de aluguer de automóveis
Igor Sampaio – juiz
Jorge de Sousa Costa – Padre Alberto
Jorge Gonçalves – Jaime Dinis
José Gomes – Luís Carlos
Laura Urbano – Rosa
Lia Gama – reclusa
Luís Pavão – Dr. Vasco Sequeira
Luís Vicente – técnico do Banco de Portugal
Luís Zagalo – Mouzinho de Castro
Luísa Barbosa – Etelvina
Luísa Freitas – Dra. Ana Maria Ribeiro
Manuela Cassola
Maria d’Aires – jornalista
Maria Dulce – Emília
Maria Simões – atriz de revista
Mário Redondo – ator de revista
Marques d’Arede – médico
Óscar Branco – barman
Paula Pedregal – Telma

A protagonista do enredo é Dona Benta (Eunice Muñoz), uma senhora idosa que aceita depósitos de dinheiro remunerados com um belo juro de 10% ao mês. A sua empatia, bem como a possibilidade de se arrecadarem bons proventos com este esquema, levam-na a ser conhecida por “banqueira do povo”, e ao seu estabelecimento acorrem fregueses de todo o país, bem como de todos os estratos etários e sociais.

Para a auxiliar nessa atividade que, à data, ainda não se encontrava regulamentada pela lei, ela conta com a colaboração do enteado, Horácio (João Perry), dos afilhados Álvaro (Diogo Infante) e Isabel (Alexandra Lencastre), e ainda com a amizade de Guimarães (Raul Solnado). Outra pessoa muito próxima de Dona Benta é Afonsinho (Jacinto Ramos), que atualmente sofre de cancro e vem a falecer no decorrer da trama. Deste grupo, Horácio e Isabel são os que menos merecem a confiança de Dona Benta. A sua ambição e, principalmente, os interesses de capitalistas muito poderosos irão ditar a queda da banqueira do povo a curto prazo.

Com efeito, estamos numa altura em que o Estado detinha o monopólio da banca, mercê da nacionalização levada a cabo após o 25 de Abril. Contudo, Coimbra (Curado Ribeiro) e Gonçalves (João d’Ávila) pretendem reverter tal situação e reivindicar a privatização da atividade bancária, chamando a atenção da opinião pública para o perigo de este tipo de negócios cair em mãos de pessoas mal preparadas.

Gonçalves, o grande vilão da trama, é casado com Leonor (São José Lapa) e tem uma filha, Rita (Sofia de Portugal), que filma o próprio suicídio, deixando registadas as razões que a levaram a cometer esse ato terrível. Na verdade, Rita teve um filho com Álvaro, que lhe foi tirado pelo próprio pai, e tem sido coagida desde então a permanecer em Londres. Leonor, no início, alia-se a Álvaro com o intuito de recuperar a criança e desmascarar Gonçalves, mas a partir do momento em que o neto é encontrado, decide reivindicar a sua guarda.

Entretanto, a popularidade de Dona Benta atinge o auge, mas as notícias difundidas pela imprensa semeiam a desconfiança das massas em relação à sua pessoa e os clientes começam a retirar o dinheiro do estabelecimento. Uma vez que os juros eram pagos pelos depósitos mais recentes, com estes levantamentos a banqueira fica sem fundos para devolver grande parte dos montantes confiados à sua guarda, o que a leva a ser acusada da prática do crime de burla agravada.

Dona Benta vê ruir o seu negócio e fica na miséria, enquanto Horácio e Isabel vão deitando a mão ao que podem. Ao mesmo tempo, Gonçalves é encurralado por Leonor, que o assassina com um tiro à queima-roupa. Acaba aqui o percurso de vingança da esposa do empresário que, logo a seguir, confessa o seu crime e abdica da guarda do neto em favor de Álvaro.

Por fim, Dona Benta é condenada a vários anos de prisão efetiva e cumpre grande parte da pena numa penitenciária, até ingressar num lar onde passa os últimos anos. Poucas pessoas assistem ao seu funeral. Entre elas, encontra-se o fiel Guimarães. Revoltado, ele tenta convencer os presentes de que o percurso de Dona Benta se deveu a uma conspiração motivada por interesses de grupos económicos muito poderosos, mas não há quem leve a sério a sua versão desta história.

Dona Benta (Eunice Muñoz)
É uma mulher honesta e generosa, muito popular no bairro da Ajuda, em Lisboa. Oferece juros de 10% ao mês a quem lhe concede “empréstimos”. Vai assistir à transformação do seu negócio artesanal num de maior dimensão, sobre o qual perde o controlo, vindo a ser condenada a dez anos de prisão.

Álvaro (Diogo Infante)
Afilhado da banqueira, é idealista e carente, e tem uma ligação extremamente forte com a irmã, Isabel, que o protege e domina completamente. Teve uma relação com Rita, da qual nasceu um filho cuja existência desconhece.

Isabel (Alexandra Lencastre)
É uma mulher prática, objetiva, criada como filha mimada da banqueira desde a morte dos pais. Cedo se apercebe que a sua sensualidade é uma arma poderosa para dominar os homens. Intitula-se como herdeira da “madrinha” e procura apoderar-se dos negócios desta.

Jerónimo (Rogério Samora)
Marginal que vive de pequenos golpes e negócios escusos. Tem um relacionamento clandestino com Isabel, que usa para fazer chantagem com ela, a troco de dinheiro.

Horácio (João Perry)
Herdeiro de uma grande propriedade em Moçambique deixada pelo pai, ex-companheiro da banqueira. Vive traumatizado pela guerra colonial, que o deixa sexualmente impotente. Nutre um sentimento de vingança contra Dona Benta, a quem desvia dinheiro para negócios paralelos. Despreza a mulher, Teresa, a quem culpa pela sua impotência.

Teresa (Lídia Franco)
Mulher de Horácio, é o protótipo da boa mãe e esposa. Por vezes, acredita que o problema do marido é orgânico. Da sua relação com Horácio nasceu Lena.

Lena (Sofia Alves)
Tem 17 anos e é filha de Horácio e Teresa. Trabalha com o pai na Hoterbe e o seu grande sonho é ser artista. É doce e meiga, mas enfrenta o pai repressivo quando este descobre o seu envolvimento com o teatro.

António (Miguel Hurst)
Jovem advogado de origem moçambicana. Por indicação de Guimarães, vai trabalhar na Hoterbe e lá conhece Lena, por quem se apaixona.

Carlos (José António Pires)
Irmão mais novo de António. Tem talento para a música, mas perde-se no mundo da droga.

Faria (Paulo Matos)
Advogado de Dona Benta, é um homem esperto, sem escrúpulos e sem dinheiro. Para poder alimentar um padrão elevado, passa a vida a dar golpes na banqueira.

Francisca (Deborah Aizim)
É uma jovem brasileira, bonita e sensual, nascida em berço-de-ouro. Casada com Faria, que conheceu numa praia brasileira, é bailarina e acaba por se tornar uma das principais estrelas da revista de Guimarães.

Gonçalves (João d’Ávila)
Antigo banqueiro e ex-Secretário de Estado das Finanças, é casado com Leonor e pai de Rita. Foi o grande responsável pela separação da filha e de Álvaro.

Leonor (São José Lapa)
Esposa de Gonçalves. Após a morte da filha, apercebe-se do péssimo caráter do marido, que a interna numa clínica psiquiátrica, por forma a garantir o seu silêncio sobre coisas que o comprometem.

Rita (Sofia de Portugal)
Filha de Gonçalves e Leonor. Teve um romance com Álvaro, do qual nasceu uma criança. No desespero causado pela perseguição do pai, suicida-se. (participação especial no primeiro capítulo)

Filipa (Rosa Castro André)
Jovem misteriosa, apresenta-se como amiga de Rita a Álvaro, com quem acaba por se envolver.

Guimarães (Raul Solnado)
Subgerente do hotel Estoril Sol, é um ex-produtor de teatro. Ele descobre o plano de utilizar Dona Benta para outros fins quando está já em curso. Torna-se alcoólico e, embora tente ajudar a banqueira, não o consegue.

Tininha (Carmen Dolores)
Amiga de longa data de Benta e Guimarães, com quem teve um romance na juventude.

Afonsinho (Jacinto Ramos)
Marido de Tininha. Foi o melhor amigo de Guimarães, mas afastaram-se quando Afonsinho se casou com Tininha. Encontra-se gravemente doente, com cancro.

Coimbra (Curado Ribeiro)
É o cérebro do grupo que planeia usar Dona Benta para um escândalo. Relaciona-se facilmente com políticos e altos banqueiros em longas e discretas conversas no hotel Estoril Sol.

Maria do Carmo (Suzana Borges)
Mulher charmosa, é o “sistema de informação” do grupo Shalimar, infiltrando-se nas ações que levarão à bancarrota da banqueira.

Rodrigo Simões (João Cabral)
Agente da Polícia Judiciária, é um dos primeiros a investigar os negócios de Dona Benta. Interessa-se por Isabel. Filho de Manuel.

Maia (José Eduardo)
Superior de Rodrigo na Polícia Judiciária.

Augusto (João Lagarto)
Dono da Imcare, uma empresa de carnes importadas que serve de fachada para negócios de contrabando, nos quais também Horácio está envolvido.

Manuel Simões (Carlos Santos)
Trabalha na empresa de carnes de Augusto, com quem tem permanentes atritos, por ser delegado sindical.

Mestre Pedro (Joaquim Rosa)
Irmão de Manuel, com quem vive e trabalha. É um homem carrancudo.

Rosário (Júlia Correia Lagos)
Segunda mulher de Manuel, com quem tem um filho pequeno. Incomoda-a o facto de ter de partilhar a casa com a família do irmão.

Adelaide (Sofia Matinhos)
Sobrinha de Mestre Pedro e Manuel. Trabalha como empregada em casa da Dona Benta. Só fala em desgraças. Namora, ao mesmo tempo, Eusébio e Joaquim.

Eusébio (Paulo Pinto)
Funcionário de Dona Benta.

Joaquim (Zé Renato Solnado)
Outro funcionário de Dona Benta.

Duarte (António Évora)
Gerente do Hotel Estoril Sol. Antipático e sisudo, está sempre de olho em Guimarães, com quem tem uma certa implicância.

Margarida (Guigui Grilo)
Coreógrafa da revista de Guimarães. A pretexto de dar aulas de ginástica, aproveita o ginásio do hotel para os ensaios do espetáculo.

Cláudia (Bara Muñoz)
Bailarina da revista de Guimarães. Amiga de Filipa.

Alexandre (Vítor Rocha)
Funcionário da Hoterbe. Para se aproximar de Lena, finge ser um rapaz culto e letrado, mas não passa de um bronco.

Rosa (Laura Urbano)
Empregada dos Gonçalves. É assassinada nos primeiros capítulos, quando se prepara para revelar a Álvaro um importante segredo.

Emília (Maria Dulce)
Governanta contratada por Gonçalves para vigiar e controlar Leonor. Parece saída de um filme de terror.

Padre Alberto (Jorge de Sousa Costa)
Padre amigo de Leonor, que tenta pedir o seu auxílio para levar até Álvaro a cassete que comprova o suicídio de Rita.

Mouzinho de Castro (Luís Zagalo)
É um impostor contratado pelo grupo de Gonçalves, Coimbra e Maria do Carmo para tentar passar a perna a Dona Benta, num falso negócio.

Luís Carlos (José Gomes)
Redator do Tal & Qual. Por indicação de Maria do Carmo, torna público o negócio de Dona Benta.

Jaime Dinis (Jorge Gonçalves)
Jornalista que publica o primeiro artigo sobre Dona Benta.

Telma (Paula Pedregal)
A pedido de Jaime, apresenta-se no escritório de Dona Benta como uma nova depositante, procurando obter informações sobre a organização. Apesar de desconfiada, Dona Benta aceita o seu depósito.

Etelvina (Luísa Barbosa)
Camponesa alentejana, vem com um grupo de agricultores depositar as suas economias na Dona Benta. Considera-a “uma santa” e nem quando se dá o colapso perde a confiança nela.

Dr.ª Ana Maria Ribeiro (Luísa Freitas)
Advogada de Álvaro no caso da guarda do seu filho.

Dr. Vasco Sequeira (Luís Pavão)
Advogado da família Gonçalves.

Dr. Paulo Martins (Carlos César)
Assume o caso de Álvaro quando é necessário tomar uma postura mais agressiva para enfrentar Gonçalves e Leonor.

Juiz 1 (Igor Sampaio)
Julga o caso da guarda de André.

José Vieira
Lavrador a quem Gonçalves entregou André para criar.

Técnico 1 (Luís Vicente)
Um dos técnicos do Banco de Portugal que sujeitam Dona Benta a um longo interrogatório sobre as suas atividades.

Técnico 2 (Carlos Pimenta)
Outro técnico do Banco de Portugal.

Juiz 2 (Alexandre Melo)
Dá ordem de prisão a Dona Benta.

Reclusa (Lia Gama)
Companheira de Dona Benta na prisão. A sua mãe fora depositante da banqueira.

Sendo a primeira novela portuguesa assumidamente baseada em factos reais, A Banqueira do Povo transpôs para este formato o percurso de uma das personalidades que mais tinta fez correr nos anos 80. Trata-se de Dona Branca, justamente conhecida como a banqueira do povo, que aceitava depósitos de dinheiro em troca de um juro mensal de 10%.

Dona Branca

Tal como aconteceu na vida real, na novela acompanhámos o crescimento da popularidade desta senhora idosa e respeitável, que ganhou a confiança de milhares de clientes, a ponto de acorrerem pessoas de todo o país para lhe entregarem poupanças, suas e alheias.

Dona Benta

No site RTP Arquivos, podemos ver um exemplo disso, com o desabafo desesperado de uma senhora que levava ao estabelecimento de Dona Branca elevadas quantias pertencentes a pessoas oriundas de várias cidades do norte de Portugal.

De igual modo, a novela também retratou o declínio de Dona Branca, aqui chamada de Dona Benta, quando ela deixa de conseguir controlar as entregas de dinheiro em face dos levantamentos solicitados pelos seus clientes.

O embrião do negócio de Dona Branca surgiu ainda na sua adolescência, quando ganhava a vida a guardar dinheiro das varinas, recebendo no final do dia uma pequena compensação. Com o tempo, acumulou o suficiente para emprestar às varinas, com juros, dinheiro para irem à lota comprar peixe.

Mais tarde, o negócio dos depósitos e empréstimos ganhou outra dimensão. Não dando conta do recado sozinha, devido à sua idade avançada e ao crescimento desmedido da atividade, Dona Branca passou a contar com uma panóplia de colaboradores, que recebiam os depósitos, assinavam recibos e pagavam juros. O negócio atingiu proporções inimagináveis, havendo vários angariadores aos quais Dona Branca pagava uma comissão de 2%.

Num relatório da Polícia Judiciária, publicado em 08/10/1984, lia-se: “O dinheiro entra e sai, cresce e diminui o monte no final do dia, a contagem do que resta pura e simplesmente, tanto quanto se sabe, não existe. O que se faz é encher sacos de plástico com dinheiro e levá-los dali para fora. Em suma: a ‘bagunçada’ é total”.

A primeira notícia a respeito da banqueira surgiu em março de 1983 no jornal Tal & Qual, que, a partir daí, não só lhe dedicou inúmeras reportagens como lançou um número especial sobre o fenómeno Dona Branca, contando como tinha sido toda a sua história até à essa altura. Para os seus clientes tudo parecia um milagre, pois o dinheiro não só era devolvido como acompanhado dos juros prometidos.

Apesar da repercussão destas reportagens, o negócio continuou um pouco na penumbra, sem que ninguém confirmasse a sua existência. A própria Dona Branca raramente se dava a mostrar.

Ainda assim, o negócio ia de vento em popa. Vários nomes conhecidos eram clientes de Dona Branca – supõe-se que Ribeirinho, Henrique Santana e Camilo de Oliveira tenham sido alguns deles. Até mesmo funcionários de instituições bancárias desviavam o dinheiro que recebiam dos depositantes, colocando-o a render na banqueira.

A popularidade da velha senhora não parava de crescer. Dona Branca em pessoa chegou a telefonar para o programa A Festa Continua, apresentado por Júlio Isidro, para comprar um valiosíssimo quadro, surpreendendo toda a audiência da RTP ao identificar-se.

Porém, a banqueira não agradava a toda a gente, a começar pelo ministro das Finanças, Ernâni Lopes, que fez declarações muito polémicas, designadamente afirmando que o negócio em causa era uma burla cujos resultados seriam desastrosos. Afirma-se que, em consequência disso, as pessoas começaram a levantar o dinheiro, precipitando a ruína de dona Branca.

Mas, se lermos os jornais da altura, percebemos que até julho de 1984 havia muita gente a confiar no esquema e a entregar-lhe o seu dinheiro, ou seja, nada demovia os seus clientes fiéis, que só tarde demais perceberam que não existiam condições para recuperarem os montantes entregues à banqueira.

Vendo-se desprovida de dinheiro, Dona Branca encerrou os diversos escritórios que tinha em Lisboa durante o verão, refugiando-se na Vivenda Monte Regalo, na Costa da Caparica, e anunciando a reabertura para setembro.

E, com efeito, na data prometida (17/09/1984), havia filas de depositantes à porta do seu principal estabelecimento na cidade de Lisboa – situado na Av. Rio de Janeiro –, insatisfeitos por ainda não terem reavido os resultados do seu investimento. Dona Branca pagou alguns juros, mas não reembolsou qualquer depósito. Cerca de uma semana e meia depois, o escritório fechou novamente. Era inequívoco o colapso da organização.

Concentração de depositantes à porta do escritório de D. Branca

Incapaz de dar solução ao problema, Dona Branca acabou por ser presa, acusada dos crimes de burla agravada e emissão de cheques sem cobertura.

Desesperados e procurando, a qualquer custo, reaver o seu dinheiro, ainda que pudessem perder parte dele, alguns depositantes publicaram anúncios nos jornais, tentando vender os recibos de Dona Branca a preço de saldo.

Entre final de 1984 e início de 1988, pouco se falou do caso, apesar de, esporadicamente, surgir a publicação de alguns artigos. Cite-se, a título de exemplo, a libertação de Dona Branca a 25/07/1986, data limite para a prisão preventiva, à qual foi dada muito pouca relevância. Entretanto, o Ministério Público recorreu e a “banqueira” regressou à prisão 40 dias depois, a 04/09/1986.

O julgamento teve início do dia 17/02/1988, prolongando-se até 07/02/1990, data de leitura da sentença. Ao todo, foram julgados 69 arguidos, 39 deles à revelia.

Dona Branca no início do julgamento

O tribunal condenou Dona Branca a uma pena de prisão efetiva de dez anos. Devido ao seu débil estado de saúde e ao facto de já ter cumprido grande parte da pena – ao todo, estivera presa durante quatro anos e dois meses, tendo sido solta a 30/08/1988 –, permaneceu em liberdade condicional.

Viria a falecer no dia 03/04/1992, numa clínica para toxicodependentes, situada na Rua Gomes Freire, n.º 140 (prédio atualmente devoluto), onde passou os seus últimos anos de vida.

Em 1990, o Tal & Qual publicara algumas fotos tiradas na clínica, dando conta de uma Dona Branca praticamente moribunda.

Apesar da grande popularidade de que gozou durante décadas, ao seu enterro apenas compareceram, segundo consta, cinco pessoas de identidade incerta.

A imprensa noticiava também que uma boa parte do dinheiro desapareceu sem que dona Branca tivesse visto um tostão. Podemos, por conseguinte, confirmar que os seus colaboradores se apropriaram de uma boa parte dos montantes desaparecidos, facto que foi muito bem aproveitado para a novela, como podemos ver através do carácter de Isabel (Alexandra Lencastre), que no final da história abandona a madrinha, levando parte da sua fortuna.

Isabel terá sido inspirada em Lola (apelido de Maria Eulália de Melo Gomes Pereira), o principal braço-direito de Dona Branca, que, quando o escândalo rebentou, fugiu para o estrangeiro levanto consigo uma avultada quantia. Terá sido detida em Hamburgo, em 1985, mas, por questões burocráticas, foi libertada, sabendo-se que se mudou para Londres. O mandado de captura internacional em seu nome esteve em vigor até 2000.

Foram poucas as fotos de Dona Branca publicadas na imprensa. Talvez a mais conhecida seja esta, na qual, em segundo plano, aparece precisamente Lola.

Já Horácio, personagem de João Perry, era baseado em Ernesto Cordeiro, enteado de Dona Branca e também um dos seus principais colaboradores.

O programa Ponto e Vírgula, a estrear no outono de 1984, previa um quadro semanal dedicado à Dona Branca, protagonizado por Ivone Silva, que encaixou perfeitamente na personagem. Todavia, com a prisão da banqueira a 8 de outubro, o quadro foi suspenso, acabando por ir ao ar apenas aquele que ficou inserido no primeiro episódio.

Nesse ano, foram lançados dois livros sobre a “banqueira”:

– D. Branca – Vida e Obra, de Silvino V. Neto, uma espécie de apologia à banqueira.

– D. Branca – A Banqueira do Povo, de Ricardo da Silva, uma visão crítica do que sobre ela se publicara na imprensa.

Dona Branca foi também inspiração para um single lançado por Luís Arriaga no verão de 1984.

A Banqueira do Povo foi a primeira novela dos consagrados Eunice Muñoz e Raul Solnado. Curiosamente, Raul Solnado escrevera uma crónica na altura do escândalo financeiro, propondo a ascenção de Dona Branca a Ministra das Finanças.

Eunice Muñoz teve um desempenho memorável e emocionante, imortalizando a figura da “senhora dez por cento”.

Bara Muñoz, a filha mais nova de Eunice Muñoz, participou na novela como Cláudia, amiga de Filipa e uma das dançarinas da revista de Guimarães.

Também o filho de Raul Solnado, José Renato Solnado, fez parte do elenco, no papel de Joaquim, um dos funcionários de Dona Benta.

Quando A Banqueira do Povo estreou, Suzana Borges estava ainda no ar em Pedra Sobre Pedra, a novela brasileira que a tornou conhecida do grande público. Eram, de certo modo, caricatas as cenas em que a sua personagem, a vilã Maria do Carmo, aparecia a espiar Dona Benta e os que a rodeavam, munida de uma “discreta” máquina de filmar, passando sempre despercebida.

Entre os capítulos 62 e 72, vários atores abandonaram o elenco: Sofia Matinhos, João Lagarto, Júlia Correia Lagos, Carmen Dolores e Jacinto Ramos.

A novela passou um período de alguma “barriga”, com a ação centrada na luta de Álvaro pela posse do filho, mas, a partir do capítulo 100, ganhou novo fôlego, com a derrocada de Dona Benta a dominar o enredo.

Os acontecimentos vividos na época, pelo menos da forma como a imprensa os descreveu, foram reproduzidos com bastante fidelidade.

Tal como acontecera com Dona Branca, também Dona Benta se torna conhecida através de uma reportagem publicada no Tal & Qual – apesar de, alguns capítulos antes, Dona Benta dizer que o jornal ao qual concedeu a entrevista se chama Últimas. A capa mostrada na novela é muito semelhante à de 1983.

Também a prisão de Dona Benta se revestiu de grande realismo, com as gravações a decorrerem na já inativa Cadeia das Mónicas – o estabelecimento funcionou como presídio até 1989 –, onde Dona Branca foi uma das últimas reclusas.

Atualmente, o espaço funciona como galeria de arte e como local de exibição de espetáculos de teatro e de dança.

O sequestro de Horácio também buscou inspiração na realidade. Ernesto Cordeiro tinha sido sequestrado no dia 27/09/1984, por um grupo de depositantes que pretendia reaver o dinheiro confiado a Dona Branca. Porém, na novela, o sequestro deu-se por outros motivos, relacionados com o envolvimento de Horácio na guerra colonial.

Tal como Dona Branca, também Dona Benta era devota do Santo Padre Cruz.

Ironicamente, sendo A Banqueira do Povo inspirada em factos reais, era apresentado com grande destaque, no genérico inicial, um disclaimer que dissociava a obra de qualquer compromisso com a realidade.

Dona Branca residia no n.º 26 da Rua Dr. Almeida Amaral, ao Campo dos Mártires da Pátria, em Arroios.

Na telenovela, a casa de Dona Benta situava-se no bairro da Ajuda, mas as gravações decorreram em Arroios, na Vila Mendonça.

No livro Esta Lisboa (1993), num capítulo em que são abordados os “tesouros escondidos” da capital, Alice Vieira faz referência às vilas de Arroios:

Da mesma altura datam, no mesmo bairro de Arroios, a Vila Luz, a Vila Mendonça e a Vila Almeida – todas elas escondidas do olhar de quem todos os dias por ali passa e pensa que está no coração de uma cidade. Nada mais enganoso: aldeias atrás de aldeias, onde nem sequer chega o barulho dos automóveis e dos autocarros que passam logo em frente.

E, concretamente, sobre a Vila Mendonça:

Também a Vila Mendonça não se descobre com facilidade: um arco no n.º 46 da Rua Cidade da Horta vai levar-nos a ela. Então aí não há que enganar: alguém mandou escrever o nome da vila em grandes letras, na fachada de uma das casas. Como em todas, as habitações voltadas para o pátio comum, as velhas que lavam a roupa nos tanques à porta de casa, plantas verdes em latas e vasos de barro a dar a ilusão de jardim privativo – e um olhar meio franzido diante das máquinas fotográficas que, de vez em quando, lhes roubam a intimidade. Não estão nunca em pose: aquilo não é montra turística ou museu de raridades. Ali é um lugar onde se vive e se trabalhar, como em qualquer outro bairro da cidade.

A legenda da foto da Vila Mendonça faz mesmo referência à novela, tal fora a importância das gravações para tornar conhecido este lugar:

Pelas escadas de ferro da Vila Mendonça, em Arroios, descia Eunice Muñoz na pele da Banqueira do Povo: a telenovela a dar a conhecer uma das aldeias escondidas da cidade.

Se Dona Branca teve vários escritórios espalhados por toda Lisboa, Dona Benta teve apenas dois. O primeiro ficava no rés-do-chão da sua própria casa. Mais tarde, com a expansão do negócio, a Hoterbe, imobiliária da família, passou também a servir de escritório da organização.

Na primeira metade da novela, vários núcleos centravam a sua ação no Hotel Estoril Sol, aqui com o nome de Hotel Shalimar. Este conhecido edifício foi demolido em 2007.

A casa de Gonçalves, tanto nas cenas de exterior como de interior, era o Chalet Biester, localizado na Estrada da Pena, em Sintra.

Uma participação curiosa a assinalar: a de Luísa Freitas, que conhecíamos de Vila Faia (1982), no papel de Joana Marques Vila. Onze anos depois, surgia em A Banqueira do Povo como a Dr.ª Ana Maria, advogada de Álvaro (Diogo Infante). Depois disso, desapareceu novamente dos ecrãs portugueses.

A encomenda inicial da RTP consistia numa telenovela com 100 capítulos de 27 minutos, mas que acabou por se concretizar em 130 capítulos com a duração de 45 minutos.

Não existe qualquer dúvida de que A Banqueira do Povo foi uma das melhores novelas portuguesas alguma vez já realizadas. No entanto, talvez poucos se lembrem de que não teve uma boa audiência e que os resultados ditaram o fim da produtora Máquina de Sonhos, que não suportou um projeto desta envergadura e decretou falência após a produção da telenovela.

Como se pode então explicar o fracasso, tendo em conta que hoje A Banqueira do Povo é lembrada como um dos melhores produtos de ficção da televisão portuguesa? Em primeiro lugar, cumpre recordar que em 1993, com o surgimento das televisões privadas, houve uma proliferação de telenovelas que dispersou a audiência de forma mais ou menos inesperada. De facto, desde as cinco da tarde até às onze da noite, havia sempre uma telenovela no ar, fazendo com que as audiências de um modo geral descessem bastante. Por outro lado, apesar do horário não ser mau, a verdade é que em 1993 o governo instituiu uma hora de Verão completamente diferente do que alguma vez se tinha visto: no último domingo de março, em vez de os relógios se adiantarem uma hora, adiantaram duas. Ou seja, o horário de Verão com uma diferença de duas horas em relação ao horário solar fez com que as pessoas alterassem substancialmente os seus hábitos, uma vez que as sete horas passaram a corresponder às cinco da semana anterior.

Por conseguinte, uma vez que a novela estreou exatamente uma semana depois da mudança da hora, os resultados sentiram-se logo e mantiveram-se reduzidos, comparando com o que seria de esperar, pelo menos durante a época em que se manteve esse horário, que corresponde quase integralmente à exibição da novela.

A hora viria a mudar novamente no outono, não com a reposição do horário solar (de inverno), mas com o horário correspondente ao horário de Verão a que estamos acostumados hoje e que já vigorava até 1992. No entanto, a esta altura a novela já estava no fim e pouco havia a fazer…

Em 1996, Walter Avancini, o realizador, convidou Lídia Franco e Rosa Castro André para atuar na novela brasileira Xica da Silva, da Rede Manchete.

No Jornal da Noite da SIC, a rubrica Perdidos e Achados do dia 09/05/2015 recordou a história da Dona Branca.

Para além dos depoimentos de diversos vizinhos da banqueira, destacaram-se os de Linda Gonçalves, amiga e colaboradora de Dona Branca, e também uma das arguidas no processo, do qual foi absolvida, depois de ter estado detida juntamente com Dona Branca; e de Luiz Carvalho, o fotojornalista que captou a célebre foto de Dona Branca em frente ao seu escritório, no n.º 20 da Rua Abade Faria (local onde foi entrevistado).

Em 2016, o jornalista Pedro Prostes da Fonseca publicou o livro Dona Branca – A Verdadeira História da Banqueira do Povo, em estreita colaboração com Germinal ‘Gi’ Cordeiro, neto de Dona Branca.

Ambos estiveram presentes no programa Queridas Manhãs (SIC) do dia 10/08/2017, para recordar a história da banqueira. Inquirido sobre a sua opinião acerca da telenovela, Gi afirmou ter reconhecido em Dona Benta vários traços da sua avó.

Dona Branca com os netos

No livro, destacam-se as informações cedidas por Elvira Carracão, mãe de Gi Cordeiro e ex-companheira de Ernesto Cordeiro, e de Ernestina Veloso, rececionista na clínica onde Dona Branca viveu os seus últimos dias. Ao autor do livro, Ernestina Veloso revelou que o parecer que atestava a doença de Dona Branca não passava de uma farsa. A “banqueira” gozou de saúde e de plena sanidade mental até ao fim dos seus dias, tendo falecido por falta de socorro durante uma crise de asfixia. A doença não passava de um artifício para poder permanecer em liberdade e longe de qualquer represália.

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A Banqueira do Povo