A Filha da Cornélia

Exibição:
1.ª temporada: 14/02/1994 – 27/06/1994 (RTP 1)
2.ª temporada: 20/09/1994 – 30/12/1994 (RTP 1)

Número de sessões:
35

Autoria:
Raul Solnado
Fialho Gouveia

Apresentação:
Fialho Gouveia

Júri:
Thilo Krasmann (01-20)
Inês Serra Lopes (01-20)
Paulo-Guilherme d’Eça Leal (01-20)
Catarina Portas (01-20)
António Victorino d’Almeida (21-35)
Helena Ramos (21-35)
Carlos Paulo (21-35)
Rita Salema (21-35)

Participação especial:
Raul Solnado

Voz off Cornélia:
Ana Mayer (01-08)
Fernanda Lopes (09-10)
Sandra Buritti (11-16)
Carla Burity (17-35)

Locução:
António Macedo

Direção musical:
Luís Filipe

Produção:
Isabel Fragata
Luís Fialho Rico
José Montalvão

Realização:
Mário Silva (01-22)
Fernanda Cabral (23-35)

A Filha da Cornélia é um concurso que procura descobrir novos talentos, apostando na criatividade dos concorrentes e dos seus convidados.

As duas equipas em despique, compostas por três elementos, submetem-se a diversas provas, nas quais tentam mostrar os seus dotes artísticos.

As provas de texto e de representação são obrigatoriamente executadas por elementos da equipa. As outras provas – canto, música, imitação e dança – podem ser realizadas tanto pela equipa como pelos seus convidados.

Para além dos desafios de cariz artístico, está presente o ingrediente comum a quase todos os concursos: a cultura geral, através de um questionário sobre dois temas (de oito possíveis), escolhidos por cada uma das equipas.

As provas – com exceção do questionário, naturalmente – são pontuadas de 0 a 20 por um júri composto por quatro elementos.

Cada prova ganha é premiada com 100 contos (ou 50 contos para cada equipa, em caso de empate).

A equipa vencedora da sessão, isto é, a que obtiver maior número de pontos no somatório de todas as provas, recebe mil contos, para além do dinheiro já amealhado.

Em cada programa, o Cinema Europa recebe a visita da filha da Cornélia, acompanhada do seu padrinho, Joaquim Barbela (Raul Solnado).

Esta Cornélia, que é filha da mãe
Tem tudo o que mãe teve
E mais o que tem

Esta Cornélia só nos vem lembrar
Como é bom ser-se vaca
Sem nunca se avacalhar

Decorridos 17 anos de um dos maiores êxitos da televisão portuguesa – o concurso A Visita da Cornélia, exibido em 1977 –, procurava-se, com algumas adaptações, repetir o sucesso recorrendo à mesma fórmula.

Ambos os concursos tinham a sua autoria repartida entre Fialho Gouveia e Raul Solnado. Nesta reedição, o papel de apresentador ficou à responsabilidade do primeiro.

A seleção dos candidatos era feita com base em cassetes que estes enviavam, com uma prévia do que se propunham fazer nas provas de canto, música e imitação.

Raul Solnado, apresentador em 1977, passou a assegurar um sketch a meio do programa, no qual contracenava com a filha da Cornélia. O comediante confessou-se muito emocionado, “porque a Cornélia representou um momento da minha vida muito importante, em que num período compacto de tempo aconteceram muitas coisas”.

A primeira sessão contou com uma introdução de duração superior a dez minutos, onde foi evocada a primeira Cornélia. Na plateia, para além de Raul Solnado, estavam presentes: Maria João Seixas e Raul Calado, os dois jurados que ainda se encontravam vivos; Luiz Andrade, realizador; José Manuel Rodrigues, assistente; e os concorrentes Vasco Raimundo (vencedor), Lucilina e Vítor Sobreiro, José Fanha, Tareka, Tozé Martinho, Hugo Maia de Loureiro, Rui Guedes, Concha e Pitum Keil do Amaral.

Existia uma diferença fundamental entre os dois concursos: se, na primeira versão, os concorrentes tinham de fazer todas as provas de forma individual, contando apenas com a ajuda de um acompanhante, nesta reedição a sua vida era mais facilitada. Para além de as equipas serem de três pessoas, determinadas provas – as denominadas provas de opção – podiam ser inteiramente executadas por convidados. Pretendia-se, desta forma, dar oportunidade a um leque mais alargado de pessoas de mostrar a sua criatividade e o seu talento.

Os elementos do exigente e polémico júri foram selecionados por Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouveia. A ocupar as quatro cadeiras, tínhamos, na primeira temporada, o músico e produtor Thilo Krasmann, a advogada e jornalista Inês Serra Lopes, o artista multifacetado Paulo-Guilherme d’Eça Leal e a jornalista Catarina Portas.

Thilo Krasmann
Inês Serra Lopes
Paulo-Guilherme d'Eça Leal
Catarina Portas

Curiosamente, Catarina Portas assistira a uma das sessões de A Visita da Cornélia. Acompanhada pelo seu irmão, Paulo Portas, foi fazer claque por Pitum Keil do Amaral.

A partir da 8.ª sessão, e durante 12 semanas, de forma rotativa, um dos jurados cedia o seu lugar na bancada a um convidado.

António Victorino d'Almeida
Maria Alexandra
Francisco Nicholson
Margarida Pinto Correia
Pedro Osório
Maluda
José Manuel Costa Reis
Margarida Prieto
César Batalha
Ana Bola
José Duarte
Rosa Lobato de Faria

Logo no primeiro dia de gravações, gerou-se um grande mal-estar, motivado pelas intervenções excessivamente críticas – pode mesmo dizer-se agressivas – do júri. Da gravação feita nesse dia, apenas foi transmitida a já referida introdução. Aquela que seria a primeira sessão do concurso acabou por ser inteiramente descartada, devido a sérias desavenças entre os concorrentes e a produção.

Estavam em jogo duas equipas: A (Pontinha) e B (Oliveira de Azeméis), tendo a primeira saído vencedora. A equipa B responsabilizou a produção do concurso por não ter concorrido em igualdade de circunstâncias com a equipa adversária, uma vez que veio para Lisboa – juntamente com os seus convidados – um dia antes, de modo a ensaiar as suas provas. Não conseguiram fazê-lo, já que o plateau esteve sempre ocupado pela equipa A e, quando chegou a meia-noite, estando dispostos a ensaiar, os funcionários da RTP comunicaram-lhes que não faziam horas extraordinárias e mandaram-nos para o hotel onde estavam hospedados. O dia seguinte era de gravações, pelo que já não tiveram oportunidade de treinar as suas provas.

Na primeira prova, a de canto, a equipa B fez a sua prestação pelas mãos de Rui Amorim e Marcela, que cantaram uma música intitulada Homenagem a Carlos Paião. Tratava-se de um original com letra e música de Rui Amorim, que, furioso com a apreciação do júri, deixou uma ameaça: “Se passarem a minha canção, vou processar a RTP. Isto é uma pouca vergonha. Com que então rimas fáceis! Se o júri soubesse daquilo que estava a falar, tinha reparado que eu apenas joguei com os títulos das canções do Carlos Paião. Além do mais, nem sequer tivemos tempo para ensaiar. Isso não se faz”.

Entretanto, no camarim, uma jovem lavada em lágrimas era o espelho do desalento. Minutos antes, depois do número de dança, foi “arrasada”, juntamente com os restantes elementos, pelo júri. Não se conteve e começou a chorar, de pouco valendo a tentativa de consolo por parte de Fialho Gouveia.

Outras pérolas do júri ouvidas nesta sessão:

– Foi uma tentativa louvável, mas a canção é pouco inspirada, repetitiva e monótona. Nove pontos.

– A Marcela grita um pouco demais para o meu gosto. Nove pontos.

– O concorrente devia ter puxado o microfone para cima. Doze pontos.

– Pela escolha de Luís Represas levam zero, mas por o concorrente ser mais apresentável que Represas levam oito.

Estes concorrentes acabariam por ser repescados para a 9.ª emissão do concurso. Rui Amorim voltou a atuar pela equipa de Oliveira de Azeméis, mas com outro tema, intitulado Deixem Passar um Poeta. O ator Gonçalo Ferreira, chefe de equipa da Pontinha, também voltou a interpretar Fora de Tempo, de Luís Represas. As provas tiveram, respetivamente, uma pontuação média de 13,5 e 14,75 pontos.

Rui Amorim
Gonçalo Ferreira

Na prova de interpretação, a equipa da Pontinha obteve um total de apenas cinco pontos (atribuídos por Maria Alexandra). O júri considerou que os concorrentes foram levianos na forma jocosa como abordaram o tema da SIDA. No final, pedindo desculpa por ter ferido algumas suscetibilidades, a equipa esclareceu que o texto era um original escrito por duas pessoas – uma das quais seropositiva – e que fora anteriormente usado numa ação de esclarecimento sobre o VIH. Apesar do percalço, a equipa da Pontinha sagrou-se novamente vencedora.

Na primeira sessão exibida – a segunda a ser gravada –, um dos concorrentes foi Paulo Raimundo, com apenas 17 anos. Apesar da má experiência vivida no primeiro dia de gravações, Inês Serra Lopes não se coibiu de classificar como “uma porcaria” o texto apresentado pela equipa do Secretário-Geral do PCP.

Várias foram as equipas que concorreram em mais do que uma sessão, por vezes com alteração de um ou outro elemento. Foi o caso da equipa de Paulo Raimundo, que, tendo saído derrotada na sua primeira participação, regressou na penúltima sessão da temporada, levando para casa o prémio de um milhão de escudos.

Para Paulo Raimundo, A Filha da Cornélia representou a oportunidade de vir pela primeira vez de Setúbal a Lisboa, sem ser em visita de estudo da escola. Estreou-se a dormir num hotel e ganhou dinheiro suficiente para tirar a carta de condução e comprar o seu primeiro carro, um Renault 5 em segunda mão. A sua ida ao concurso deu-se pelas mãos de Isabel Tavares – sua colega de equipa –, que havia sido sua professora e era dinamizadora de um grupo de jovens no Bairro da Bela Vista, em Setúbal.

Em 2024, a prestação de Paulo Raimundo na Cornélia foi resgatada por Ricardo Araújo Pereira no Isto é Gozar com quem Trabalha.

A Filha da Cornélia contou com outros concorrentes e convidados notáveis.

Uma delas foi a atriz e cantora Helena Rocha, presente em várias sessões, incluindo a primeira e a última.

Migu, a atriz que deu voz à personagem-título de Heidi, primeira série de desenhos animados dobrada em Portugal, foi também concorrente.

Conceição Queiroz, jornalista da TVI, participou em duas sessões.

Cristiana, filha do cantor Nelo Silva, ainda antes de se lançar profissionalmente, participou como convidada nas provas de canto e de imitação, recebendo rasgados elogios do júri.

Com apenas nove anos de idade, a acordeonista Ana Sofia Campeã foi uma das revelações do concurso, com uma prestação alvo de muitos aplausos.

Também Vítor Hugo Matias, participante no Big Brother 2, arrancou uma boa avaliação do júri pela sua performance como dançarino.

Marco Horácio atuou como convidado numa prova de imitação, fazendo de relator desportivo.

A participação da cantora Marta Dias colheu também bastantes elogios.

Na penúltima sessão, como convidado da equipa de Helena Rocha, surgiu o cantor João Portugal (ex-Excesso), que era seu aluno.

De referir, ainda, a participação, como convidados, de três finalistas da primeira temporada do Chuva de Estrelas: Vitória Pedro, Jacinta Ramos (que voltou a interpretar Ella Fitzgerald) e Victor Almeida e Silva (que, uma vez mais, imitou Zeca Afonso, recebendo 20 valores de todos os jurados).

Vitória Pedro
Jacinta Ramos
Victor Almeida e Silva

Na primeira fase do concurso, que correspondeu às primeiras 20 sessões, este foi sofrendo várias alterações no seu formato.

Nas quatro sessões iniciais, havia uma prova extra, a prova livre, que, para além de facultativa, não contava para a pontuação geral, ficando de fora do contexto das restantes provas.

Na 7.ª sessão, foram introduzidas diversas novidades:

– O concurso passou a ter uma assistente, Catarina Saraiva e Sousa.

– O questionário, que era efetuado em duas mãos, passou a ser um só, sendo introduzida uma prova de pintura, em que um elemento de cada equipa era desafiado a pintar um modelo em três minutos.

– Passou a existir um posto de equipa campeã, a mais pontuada até à sessão anterior, o que implicava a presença de um dos seus representantes no início da sessão seguinte. Por cada presença, essa equipa ganhava 300 contos adicionais.

Na 12.ª sessão, novas mudanças:

– O cenário foi renovado, passando a representar um estábulo.

– O dinheiro amealhado pelas equipas deixou de ser mostrado num termómetro, passando a ser representado por chocalhos colocados nas bancadas das equipas (os castanhos valiam 100 contos; os verdes, 50).

– A prova de texto foi substituída pelo Tiro aos Bonecos, uma prova da “velha” Cornélia, mas em que, ao contrário da edição original, os bonecos mudavam a cada semana. A equipa angariava 10 pontos por cada um dos quatro bonecos volantes, 15 para o boneco da Cornélia (que só podia ser derrubado depois dos outros); e 5 pontos se completasse a prova em menos tempo que a equipa adversária.

Ana Mayer, a voz da primeira Cornélia, residia no Canadá desde 1980, mas não resistiu ao convite para emprestar a voz à filha da simpática vaquinha. No entanto, tal aconteceu apenas nas primeiras oito emissões.

Ana Mayer

Nas restantes sessões, a voz da Cornélia foi feita por Fernanda Lopes, Sandra Buritti e Carla Burity. Contudo, a mascote foi perdendo espaço, permanecendo muda durante quase toda a rábula (apenas cantava no final).

Ainda assim, se uma vaca era bom, duas era ainda melhor: a partir do 6.º programa, para além da Cornélia, passámos a ter também a companhia da Mimosa, num espaço publicitário da marca homónima. Com voz de Ana Bola, a vaquinha travava um divertido diálogo com Fialho Gouveia.

A própria Cornélia, por sua vez, fez publicidade ao BNC (Banco Nacional de Crédito Imobiliário).

Após um interregno de verão, o concurso regressou em setembro, para mais 15 sessões, sendo a principal mudança a renovação do júri – bastante mais “mãos-largas” que o anterior –, composto pelo maestro António Victorino d’Almeida, pela apresentadora Helena Ramos e pelos atores Carlos Paulo e Rita Salema.

António Victorino d'Almeida
Helena Ramos
Carlos Paulo
Rita Salema

O rodízio de jurados voltou a acontecer, mas apenas durante sete semanas, quatro das quais por ausência de António Victorino d’Almeida, que se encontrava fora do país.

Lucilina Sobreiro
Mário Viegas
Tareka
Mário Martins
Carlos Mendes
Simone de Oliveira
Luís Filipe

O horário do concurso foi também alterado: até então transmitido às segundas-feiras, passou para as terças e, já na sua reta final, no mês de dezembro, para as sextas.

A prova de representação passou a ser feita sempre numa sala de estar, ao contrário da primeira temporada, em que o cenário era diferente a cada semana.

O Tiro aos Bonecos foi substituído por uma prova de jograis.

A partir da 22.ª sessão, passou a existir um passatempo para o telespectador, que consistia na resposta a uma pergunta sobre o concurso, através de um número de valor acrescentado.

Na prova de pintura, serviram de modelos alguns adereços dos outros concursos que, nesta altura, eram gravados no Cinema Europa (Arca de Noé e Um, Dois, Três).

As primeiras 32 emissões do concurso, de um total de 35, foram sessões regulares. Na antepenúltima e penúltima sessões, realizaram-se as semifinais, com prémios a dobrar; e, na última, a final, com prémios a triplicar.

No arranque do concurso, Fialho Gouveia explicava que, se uma equipa ultrapassasse a fasquia dos 500 pontos, para além das retribuições pecuniárias, teria direito a extrair um de três envelopes-mistério, que continham como prémios: um computador e uma impressora, uma viagem para três pessoas ou um automóvel.

Esta regra deixou de ser comunicada, quando se percebeu que dificilmente uma equipa atingiria tal pontuação (nas primeiras sessões, poucas eram as que chegavam aos 400 pontos). Tal só veio a acontecer na última sessão regular, numa clara manobra para que a equipa do Fundão, que fora campeã durante 12 semanas, pudesse ter lugar nas semifinais. A equipa, que integrava elementos do grupo Pedra d’Hera, conseguiu, nesta sessão, um total de 511 pontos, mas foi eliminada na semifinal.

Equipa do Fundão

Na final, os jurados desafiaram-se a si próprios, numa prova de jograis.

Para além do Canal 1, A Filha da Cornélia teve transmissões na RTP Madeira, na RTP Açores, na RTP Internacional e ainda na TDM (Teledifusão de Macau).

O concurso encontra-se disponível para visualização no portal RTP Arquivos.

A Filha da Cornélia