A Mala de Cartão

Exibição:
09/10/1988 – 13/11/1988 (RTP 1)

Número de episódios:
06

Autoria:
Michel Wyn

Cenários e diálogos:
Françoise Verny
Michel Wyn

Adaptação livre do romance de:
Linda de Suza

Música original:
Cyril Assous
Carlos Lança

Realização:
Michel Wyn

Co-produção:
Antenne 2
SFP
RTP

Produção executiva:
SFP
Animatógrafo

Elenco principal:
Irene Papas – Maria Amélia
Maurice Barrier – Alfredo
Sophie Rodrigues – Linda (6 anos)
Saki – Linda (12 anos)
Souad Amidou – Linda
Raul Solnado – Eusébio
Cecília Guimarães – D. Ester
Adelaide João – Isaura
Armando Cortez – Padre
Cristelle Rodrigues – Adelina
Cindy Antunes – Fernanda (I)
Nuno Mineiro – Miguel
Rita Blanco – Deolinda
Jean-Philippe Wizmane – Pablito
David Antunes – Chico (I)
Violaine Dutrop – Fernanda (II)
Ana Padrão – Natália
Jean-Pierre Yvars – Inácio
António Banha – Sr. Madruga
Fernanda Alves – Matilde
Tozé Martinho – Sr. Artur
Fabien Onteniente – Armando
Jacques Castelot – Sebastião de Carvalho
Maria Meriko – Condessa de Carvalho
Rui Luís – Pai de Armando
Philippe Babin – Sr. Stalla
Manuela Cassola – Tia Manuela
Emilie Journot – Madame Couca
Anne-Marie Pradine – Adelaide
Paulo Gravato – Chico (II)
Philip Antony Afonso – Jeannot (I)
Teresa Madruga – Beatriz
António Pires – Carlos
Lídia Franco – Genoveva
Tiky Holgado – Gustavo
Mostéfa Stiti – Ali
Carlos Vasconcelos – Luís
Jacqueline Noel – Sr.ª André
Maria-Laure Beneston – Nicole
Pierre Devilder – Sr. André
Serge Martel – Georges
Bernard Cazassus – Kojak
Gilles Grouart – Dr. Dubois
Céline Caussimon – Josette
Frédéric Wizmane – Jeannot (II)
Fulbert Janin – Sr. Destaing
Sady Rebbot – Maxime
Maurice Chevit – Moleskhine
Filipe Ferrer – Jean Lacroix
Odile Mallet – Jeanette
Claude Robin – Cantor
Louison Roblin – Mimi Pinson
Jacqueline Doyen – Gina
Orlando Costa – Nicolau
Sérgio Godinho – Tito
Virginie Pradal – Vline
Raoul Guillet – Alex
Jacques Balutin – Zarolho
Maïté Vauclin – Lucette
Jean-Paul Ramos – Jeannot (III)
Daniel Delprat – Carrère
Pierre Lafont – Jean-Michel Boris
André Valardy – O Belga
Jacqueline Adry – A Belga
Bruno Garcin – Pascal
Jacques Ciron – Editor

Elenco adicional:
Sónia Araújo
Sandrina Bastos
Suzana Borges – Professora
Sílvia Camilo
Marianne Caron
Zita Duarte – Sr.ª Fonseca
Ladislau Ferreira – Chefe de Alfredo
Mário Jacques – Médico
Lurdes Lima
Luís Matta – Dr. Fonseca
Margarida de Oliveira
Alice Pereira
Luís Pinhão – Pai de Alfredo
Manuela Santos – Professora
Mário Sargedas – Cardeal
Rui Luís Brás – Jacinto
André Araújo
Cristina Carvalhal – Lucinda
Esmeralda
Lourdes Noberto – Enfermeira
Rosa Lobato de Faria – Servente na Sopa dos Pobres
Guida Maria – Cristiana
Ângela Pinto – Sindicalista
Arminda Taveira
Martim Tomé
Raquel Maria – Feirante
Francisco Braz
Márcia Breia – Mãe de Armando
Jorge Nery – Homem no elétrico
Pedro Efe
Henrique Viana – Gerente da fiação
António Feio – Homem no comboio
Madalena Leal – Mulher no comboio
Artur Mendonça
Leandro Vale
Luís Alberto – Chefe de Linda
Jean-Marie Broucaret
Max Douchin
José Eduardo – Alberto
Peter King
André Maia
Carlos César – Guarda
Henriqueta Maya – Estalajadeira
Canto e Castro
Serge Martel
Clara d’Ovar – Mãe de Josette
Michel Prudhomme
Sofia Sarabando
Daniel Sasportes
Paula Sousa
António Cordeiro – Marido de Genoveva
Fernanda Borsatti – Chefe de Linda no hotel
Jeremy Boulthbee
Jean-Claude Forestier
Fernand Frank
Helena Isabel – Hóspede do hotel
Thilo Krasmann e sua orquestra
Daniel Leger
Madeira Luís
José de Melo
Jean-Philippe Neymann
Guy Perrot
Eric Pierrot
Michèle Zimmerman
Luísa Barbosa
José Carvalho
Claudine Berg
Eva Braz
Paula Brunet
Manuela Carlos – Secretária de Boris
Michel David
Nanou Garcia
Carlos Guerreiro
Daniel Leger
Rudy Lenoir
Violette de Mirbeck
Jean-François Ortiz
Luzia Paramés – Secretária
Adélaïde Pascaud
Isabelle Rivaud

Participação afetiva:
Michel Drucker

Versão portuguesa

Tradução e adaptação:
Ermelinda Duarte

Direção de dobragens:
António Montez

Operador de som:
Filipe Gonçalves

Misturas finais:
João Diogo

Estúdios:
Videocione

Vozes:
Helena Montez – Linda (criança)
Cláudia Cadima – Linda (jovem)
Ermelinda Duarte – Linda (adulta)
Carmen Santos – Maria Amélia
Canto e Castro – Alfredo
Rui Mendes – Maxime
António Feio – Artur
António Montez
Carlos Freixo
Cristina Carvalhal
Fernanda Borsatti
Fernanda Figueiredo
Jorge Sequerra
José Gomes
José Raposo
Luís Mascarenhas
Luísa Salgueiro
Manuel Cavaco
Margarida Rosa Rodrigues
Miguel Guilherme
Teresa Côrte-Real
Vieira de Almeida
Pedro Pinheiro

Aos seis anos, Linda (Sophie Rodrigues) – Teolinda, de seu verdadeiro nome – vive na aldeia alentejana de Beringel, no concelho de Beja. O seu ambiente familiar é deveras inóspito, motivado pela amargura da mãe, Maria Amélia (Irene Papas) e pela violência do pai, Alfredo (Maurice Barrier). Porém, a criança mostra já possuir uma excelente voz ao imitar os trabalhadores rurais que cantam durante os seus afazeres.

Linda em Beringel

Procurando melhores condições de vida, a família muda-se para Lisboa, onde Maria Amélia consegue emprego como mulher-a-dias na casa de um médico, o Dr. Fonseca (Luís Matta), que permite que a numerosa família viva acuada numa mansarda, enquanto o pai trabalha na construção civil. À espera do sétimo filho, Maria Amélia adoece gravemente e é internada num sanatório, o que obriga a que Linda e a sua irmã Fernanda sejam acolhidas num asilo. A integração de Linda no novo ambiente, sob a direção da temível D. Ester (Cecília Guimarães), não é fácil, mas ela encontra no jardineiro Eusébio (Raul Solnado) um verdadeiro amigo que lhe dá todo o apoio.

A rispidez de D. Ester...
... e o carinho de Eusébio

Com o passar dos anos, torna-se uma criança responsável e exemplar nos estudos. Contudo, quando completa 12 anos (agora interpretada por Saki), a mãe manda buscá-la para ajudar em casa.

Eusébio oferece a Linda a "mala de cartão"

A família passa a viver em condições precárias num acanhado apartamento nos subúrbios. Alfredo trabalha numa fábrica de material elétrico e Maria Amélia faz trabalhos avulsos, mantendo a saúde débil. Embora sem idade para trabalhar, Linda emprega-se numa fábrica de tecidos por 100 escudos mensais, ordenado que a mãe açambarca por completo, chegando a repreendê-la por gastar dois escudos num bolo.

Linda com a mãe, Maria Amélia...
... e com a colega de trabalho Deolinda

Enquanto a mãe enfrenta crises de nervos e o pai tenta construir casas de madeira para sustentar a família, Linda deslumbra-se com o mundo do espetáculo num baile e chega a cantar sozinha num coreto para o mendigo Inácio (Jean-Pierre Yvars).

Aos 18 anos, os conflitos com Maria Amélia agravam-se e Linda tenta fugir para o Alentejo com o primo Miguel (Nuno Mineiro), mas é apanhada.

Linda e Miguel

Anos mais tarde (já interpretada por Souad Amidou), após trabalhar numa fiação, tentar o suicídio e enfrentar o cárcere privado imposto pela mãe, refugia-se em casa do Conde Sebastião (Jacques Castelot) e da sua mãe, a Condessa de Carvalho (Maria Meriko), aristocratas arruinados que se encantam com a sua voz.

Linda com os Condes de Carvalho

Linda acaba por regressar ao seio familiar com a condição de habitar sozinha uma barraca e passa a guardar parte do que ganha. Após conhecer Armando (Fabien Onteniente) e engravidar, muda-se para casa dos sogros, mas a precariedade mantém-se.

Linda e Armando

Quando Armando foge para França como desertor, Linda deixa o filho Jeannot com os avós e volta a servir os Carvalho até que, convencida pela Condessa, decide partir para o estrangeiro. Atravessa a fronteira clandestinamente com Armando, mas a relação não vinga. Linda trabalha para o Sr. Stalla (Philippe Babin) em Paris, regressando depois a Portugal para buscar o filho. Com a icónica mala de cartão a tiracolo, a jovem passa a salto para França, com Jeannot nos braços. Instala-se em Paris, trabalhando arduamente em fábricas, restaurantes e hotéis, enfrentando doenças e tentativas de roubo do seu filho.

A sorte de Linda começa a mudar através da amizade com um vizinho, o Sr. Destaing (Fulbert Janin), que a convida para um almoço num restaurante à beira do Marne. O local tornar-se-á famoso por ser o palco onde Linda atuará pela primeira vez para um vasto público. Incentivada por Maxime (Sady Rebbot), com quem passa a viver, Linda abandona o emprego no hotel para se dedicar à carreira de cantora, atuando inicialmente em casamentos.

Linda com o Sr. Destaing...
... e com Maxime

O seu talento é finalmente reconhecido por produtores como Jean Lacroix (Filipe Ferrer) e Claude Carrère (Daniel Delprat). Apesar das dificuldades iniciais e da resistência da indústria à música portuguesa, Linda alcança o sucesso com a interpretação de Un Portugais.

Após gravar discos que narram a sua própria vida e de se tornar uma estrela da rádio e da televisão, Linda de Suza atinge o auge da sua epopeia ao estrear-se triunfalmente na mítica sala do Olympia.

Linda (Sophie Rodrigues / Saki / Souad Amidou)
Nasce em Beringel, no Alentejo, onde vive num ambiente familiar violento. Aos seis anos, muda-se para Lisboa, acabando por ir parar a um asilo. Depois de alguns anos conturbados, resolve emigrar clandestinamente para França, onde decide levar a sério o seu talento como cantora.

Maria Amélia (Irene Papas)
Mãe de Linda. É uma mulher amarga e severa. Quando se muda para Lisboa, tem já seis filhos a seu cargo, estando à espera do sétimo. Tem uma saúde débil, que volta e meia a obriga a internar-se.

Alfredo (Maurice Barrier)
Pai de Linda. É um homem violento e repressor, sobretudo com a mulher, a quem não permite relacionar-se com a mãe, por esta não ter aprovado o casamento de ambos. Tem um grave problema de saúde.

Dr. Fonseca (Luís Matta) e Sr.ª Fonseca (Zita Duarte)
Patrões de Maria Amélia em Lisboa. Ele é médico; ela trata Maria Amélia de forma humilhante e não suporta a presença dos seus filhos na casa.

D. Ester (Cecília Guimarães)
Diretora do asilo para onde Linda e a sua irmã Fernanda são levadas em Lisboa. É uma mulher fria e ríspida, para quem as crianças não passam de números – Linda é o n.º 65. Usa uma pequena chibata para meter as crianças na ordem.

Eusébio (Raul Solnado)
Jardineiro do asilo. Tem um carinho especial por Linda, a quem tenta proteger. Quando ela abandona o estabelecimento, oferece-lhe a célebre “mala de cartão”. É casado com a cozinheira Isaura (Adelaide João), também ela uma alma bondosa.

Adelina (Cristelle Rodrigues)
Amiga de Linda no asilo. É diabética, o que a obriga à autoadministração de injeções de insulina, algo que a incomoda, por torná-la diferente das outras raparigas. Deixa de tomar as injeções, com vista a ser igual às outras, decisão que se tornará fatal.

Natália (Ana Padrão)
Irmã de Linda. É violentamente repreendida pela mãe por se arranjar em demasia.

Chico (David Antunes / Paulo Gravato)
Irmão mais novo de Linda.

Matilde (Fernanda Alves)
Vizinha da família de Linda no subúrbio. Faz trabalhos de costura.

Inácio (Jean-Pierre Yvars)
Maltrapilho com quem Linda cria uma amizade. Diz a Linda, jocosamente, que ela tem “pernas de alicate”.

Pablito (Jean-Philippe Wizmane)
Amigo de Chico e de Linda. Miúdo esperto e espevitado. Faz o que pode para ganhar umas moedinhas.

Sr. Madruga (António Banha)
Patrão de Linda na fábrica. Desconfia de que ela ainda não tem idade para trabalhar, mas, apesar disso, dá-lhe o emprego. Deixa-se amolecer pela simpatia de Linda, oferecendo um aumento de um tostão por hora a todas as operárias.

Miguel (Nuno Mineiro)
Primo de Linda. Vem do Alentejo para Lisboa, à procura de trabalho. Envolve-se com Linda e convence-a a fugir consigo para o Alentejo, começando uma nova vida longe da família.

Tia Manuela (Manuela Cassola)
Tia de Linda. Vem do Alentejo para ajudar a irmã, Maria Amélia. Vive com a família nas casas de madeira.

Armando (Fabien Onteniente)
Primo de Adelaide, uma colega de Linda na fiação, em Lisboa. Convida Linda para sair e acaba por lhe tirar a virgindade. Têm um filho. Dá o salto para França, vindo mais tarde buscar Linda.

Sebastião de Carvalho (Jacques Castelot)
Nobre falido que se compadece com o problema de Linda, oferecendo-lhe trabalho em sua casa.

Condessa de Carvalho (Maria Meriko)
Mãe do Conde Sebastião. Está quase cega, pelo que sente grande prazer em ouvir Linda a cantar.

Pais de Armando (Rui Luís / Márcia Breia)
Aceitam Linda como sua filha, apesar de na sua casa já viverem 12 pessoas. O pai procura Maria Amélia para lhe comunicar a união entre Linda e Armando.

Sr. Stalla (Philippe Babin)
Antigo patrão de Armando em Paris. Oferece emprego e estadia a Linda.

Carlos (António Pires)
Passador que leva Linda e mais três pessoas para França. Não conseguindo arranjar-lhe emprego, não a deixa desamparada, acabando por se envolver com ela.

Jeannot (Philip Antony Afonso / Frédéric Wizmane / Jean-Paul Ramos)
Filho de Linda.

Gustavo (Tiky Holgado)
Homem que arranja contratos de trabalho aos imigrantes ilegais, em França.

Beatriz (Teresa Madruga)
Colega de Linda. Hospeda-a na sua casa.

Alberto (José Eduardo)
Marido de Beatriz. Não tira os olhos de Linda, o que deixa a mulher insegura e enciumada.

Guarda (Carlos César)
Fecha os olhos e deixa Linda atravessar a fronteira, ajudando-a inclusive a recuperar a mala de cartão, que deixara para trás.

Genoveva (Lídia Franco)
Colega de Linda na fábrica de enchidos. Tem um trauma com o abandono de uma filha e afeiçoa-se a Jeannot, planeando roubá-lo.

Josette (Céline Caussimon)
Conhece Linda no hospital, onde também se encontra internada, e leva-a para morar consigo e com os seus pais.

Sr. Destaing (Fulbert Janin)
Vizinho de Linda no novo apartamento. Tem um gato que diz ser americano, ou não fosse ele chauffer da Embaixada Americana. Nos tempos livres, dedica-se à pesca.

Maxime (Sady Rebbot)
Marceneiro com quem linda trava conhecimento quando vai assistir a um campeonato de pesca. Pertence à mesma confraria que o Sr. Destaing. Apaixona-se por Linda.

Moleskhine (Maurice Chevit)
Tio de Maxime. Anarquista. Dono da oficina onde Maxime trabalha. Tem consciência de que o seu papel na vida de Linda é temporário, apenas até ela despontar para o sucesso.

Jean Lacroix (Filipe Ferrer)
Ouve Linda cantar numa festa popular e convida-a a fazer um espetáculo na Salle Wagram, apresentando-se como uma grande estrela da música portuguesa.

Tito (Sérgio Godinho) e Nicolau (Orlando Costa)
Guitarristas que acompanham Linda.

Vline Buggy (Virginie Pradal)
Autora da letra de Un Portugais, o primeiro grande sucesso discográfico de Linda.

Zarolho (Jacques Balutin)
Supervisor de Linda no hotel. Faz-se de duro, mas no fundo tem coração mole.

Claude Carrère (Daniel Delprat)
Dono de uma das relevantes editoras discográficas francesas.

Pascal Auriat (Bruno Garcin)
Conhece Linda aquando da sua primeira aparição na televisão francesa, tornando-se seu produtor.

1. (09/10/1988)
Desentendimentos familiares e más condições de vida obrigam a família de Linda a trocar Beringel, no Alentejo, por Lisboa, numa tentativa de mudar a sorte. Maria Amélia, mãe de Linda, arranja trabalho em casa do Dr. Fonseca, que cede a toda a família uma mansarda. No entanto, as crianças e o pai estão proibidos de entrar em casa durante o dia, pelo que passam o tempo a brincar no Jardim do Príncipe Real. Mas a doença súbita de Maria Amélia vem trazer algumas mudanças: Linda é obrigada a ir viver num asilo.


2. (16/10/1988)
Linda volta a viver com a família num pequeno e precário apartamento nos subúrbios. Com apenas 13 anos, arranja trabalho numa fábrica de tecidos, ganhando 100 escudos por mês. Maria Amélia, apesar de desaprovar o ambiente da fábrica, apropria-se do salário da filha, chegando a repreendê-la por ter gasto dois escudos na compra de um bolo. Entretanto, Linda enceta um romance com o primo Miguel, que veio para Lisboa à procura de trabalho, e fogem juntos para o Alentejo. Linda procura, assim, livrar-se dos constantes maus-tratos a que é sujeita. Porém, à chegada a Beringel, são surpreendidos por Maria Amélia, que obriga Linda a regressar.


3. (23/10/1988)
Maria Amélia continua a insultar e a oprimir Linda, levando-a a fugir. Temporariamente, a rapariga emprega-se na casa dos Condes de Carvalho, uma família nobre, mas falida. Ao regressar a casa, Linda jura que não se deixará rebaixar novamente. Numa festa, conhece Armando, de quem engravida. Maria Amélia aceita recebê-los, com a condição de que Linda continue a contribuir financeiramente. Armando vai para a tropa e depois deserta, fugindo para França. Mais tarde, volta para vir buscar Linda; apesar de relutante e de já não o amar, Linda é convencida pela Condessa a aceitar, e foge clandestinamente com ele.


4. (30/10/1988)
Linda anseia regressar a França e consegue fazê-lo mais cedo com a ajuda do passador Carlos, com quem se envolve fugazmente. Consegue emprego num restaurante nas Ardenas, onde também canta, mas despede-se devido ao assédio dos clientes. De regresso a Paris, trabalha para o Sr. Stalla e aceita o convite da colega Beatriz para morar consigo. Sentindo saudades do filho, Jeannot, Linda viaja a Portugal para o ir buscar. O frio no novo trabalho numa fábrica de enchidos atira-a para uma cama de hospital. Nesse período, deixa Jeannot com Genoveva, uma colega, conseguindo, por pouco, evitar que esta e o marido raptem o filho.


5. (06/11/1988)
Depois de muitos esforços, Linda consegue, por fim, alugar um pequeno apartamento para onde se muda com o seu filho. Pela mão de um velho amigo, começa a cantar fado num pequeno restaurante situado num bairro popular de Paris, sem no entanto deixar os seus trabalhos domésticos. Pouco a pouco, torna-se conhecida nos meios musicais, mas ainda está longe de obter o sucesso que julga merecer…


6. (13/11/1988)
Ambiciosa, Linda promete conseguir um lugar ao sol no mundo do espetáculo. E de facto assim acontece, com o lançamento de uma belíssima canção – O Português –, que rapidamente se torna um sucesso, conquistando o primeiro lugar nas tabelas nacionais em França. Linda entra definitivamente no meio do show biz, alcançando sucessivas vitórias e tornando-se conhecida do público. Pascal Auriat torna-se seu produtor, transformando-a na “embaixatriz de Portugal em França”. No palco do Olympia, a consagração é definitiva com uma nova canção que conta a história da portuguesinha que conquistou Paris…

Linda de Suza despontou para o sucesso em 1978, com o lançamento do single Un Portugais. Sem nunca ter tido uma projeção considerável em Portugal, o seu país natal, vivia no imaginário dos portugueses como uma figura mítica. A sua glória nos palcos franceses, onde se tornou um verdadeiro fenómeno, despertava em nós um misto de admiração e curiosidade pela portuguesa da “mala de cartão”.

Embora o seu repertório fosse maioritariamente interpretado em francês, Linda de Suza nunca negou as suas origens. Em 1981, lançou o álbum Em Português, composto inteiramente por temas cantados na nossa língua.

Foi em 1980 que surgiu pela primeira vez na televisão portuguesa, num programa especial onde interpretou alguns dos seus êxitos.

Regressou em 1983, concedendo entrevistas ao Telejornal e ao programa Ela por Elas, apresentado por Margarida Mercês de Mello. Gravou também uma participação no programa Allegro.

Linda de Suza no programa Allegro

No ano seguinte, atuou na primeira parte do Festival RTP da Canção, onde assumiu também o papel de presidente do júri.

Poucos meses depois, foi exibido um programa musical inteiramente rodado em Portugal – uma co-produção entre a RTP e a TF1 –, cuja estrela principal era Linda de Suza e que contou com as participações, entre outros, de Vitorino e de Maria da Fé.

Foi precisamente em 1984 que Linda de Suza lançou o seu famoso livro biográfico, A Mala de Cartão (La Valise en Carton).

A obra constituía um relato vivo e pungente da infância, adolescência e idade adulta da cantora – desde a aldeia alentejana de Beringel, passando pelo “salto” da fronteira, ao percurso por diversas ocupações, até à afirmação no meio musical francês.

Quem não gostou de todo este processo foi a família de Linda de Suza, que lamentou a falta de realismo do polémico romance autobiográfico.

Apesar da controvérsia, a publicação transformou-se rapidamente num best-seller, tendo vendido, só em França, perto de milhão e meio de exemplares.

Em Portugal, o livro foi editado pela editora O Jornal.

A ideia para a adaptação televisiva partiu de António da Cunha Telles, tendo sido acolhida pela Antenne 2 e pela RTP.

A rodagem iniciou-se em agosto de 1986, no nosso país, prolongando-se por cerca de três meses, seguidos de mais algumas semanas em França.

Souad Amidou: protagonista na fase adulta

Em solo português, as filmagens percorreram locais marcantes da vida de Linda de Suza. Beringel, a sua aldeia natal no Alentejo, serviu como cenário natural para retratar as origens humildes da artista.

Beringel

Em Lisboa, destacam-se as gravações no antigo Asilo Dom Pedro V, onde Linda efetivamente viveu. Atualmente, este edifício – situado em frente ao Jardim do Campo Grande – é ocupado pela Fundação Cidade de Lisboa.

Asilo Dom Pedro V

Foram também realizadas gravações na Damaia, retratando o subúrbio onde a sua família se estabeleceu. O cenário procurou recriar com fidelidade as condições habitacionais da época: primeiro, a vida num prédio de habitação precária e, mais tarde, a passagem para as casas de madeira construídas pelo próprio pai de Linda, num retrato fiel das dificuldades da imigração e do crescimento urbano daquelas décadas.

Damaia

O elenco reuniu um conjunto de atores formado por portugueses e estrangeiros, no papel dos familiares e daqueles que conviveram com Linda de Suza ao longo do período da sua vida relatado nesta ficção.

A protagonista é apresentada em três fases distintas: aos seis anos (episódio 1), aos doze (episódios 1 e 2) e, finalmente, na idade adulta (a partir do episódio 3). Em cada uma destas etapas, Linda foi interpretada por uma atriz diferente: Sophie Rodrigues (filha de emigrantes portugueses); Elise Fine, também conhecida por Saki (filha de pai português e mãe francesa); e Souad Amidou (atriz argelina).

Sophie Rodrigues
Saki
Souad Amidou

No elenco internacional, destacou-se ainda a presença de prestígio da atriz grega Irene Papas.

Irene Papas

O produtor francês Michel Drucker, apresentador do programa Les Rendez-vous du Dimanche, onde Linda se estreou em televisão, fez uma pequena participação na série.

Michel Drucker

Na transposição para a ficção, os nomes dos familiares de Linda de Suza foram alterados:

– Os seus pais, Vitória de Sousa e António Lança, passaram a chamar-se Maria Amélia e Alfredo;

– Emília, a irmã que acompanhou Linda na sua passagem pelo asilo, tomou o nome de Fernanda;

– Por fim, Fernando, o “pai do filho de Linda” (a quem, no livro, ela praticamente só se refere dessa forma), passou a Armando.

Linda (Souad Amidou) e Armando (Fabien Onteniente)

A Mala de Cartão foi inicialmente programada pela RTP para uma exibição diária, entre 12 e 17/10/1987.

No entanto, ao constatar que os diálogos tinham sido gravados em francês – até mesmo os dos atores nacionais –, a RTP encomendou uma dobragem em português. Tratava-se de uma aposta arriscada e inédita, uma vez que, até então, a RTP apenas utilizava dobragens em séries de animação infantil, nunca em ficção para adultos.

A versão portuguesa foi gravada na Videocine, de António da Cunha Telles, tendo o trabalho sido confiado a António Montez, detentor de uma vasta experiência neste campo.

No início de setembro, a pouco mais de um mês da estreia, Carlos Pinto Coelho, diretor de programas, garantiu ao Se7e que estavam a ser feitos todos os esforços para que a série estreasse na data prevista, apesar de já se antever um possível atraso na entrega da dobragem.

O plano original previa que apenas as cenas rodadas em Portugal fossem dobradas, sendo as restantes legendadas. Contudo, não foi isso que aconteceu: a série acabou por ser dobrada na íntegra, o que levou a que a sua estreia ocorresse apenas um ano após o previsto, em outubro de 1988.

É curioso notar que, nos masters exibidos na RTP (com o título e os créditos em português), consta o ano de 1987 – data em que estrearia em Portugal –, ao passo que na versão francesa surge 1988, ano em que a série foi emitida na Antenne 2.

Aquando da estreia, a TV Guia deslocou-se a Beringel, terra-natal de Linda de Suza, onde falou com vários conhecidos e parentes da cantora, inclusive a sua avó, Joaquina.

Em Portugal, tal como em França, a série atingiu elevados índices de audiência, um facto cuja explicação reside principalmente na curiosidade que a figura de Linda de Suza despertava entre nós e no país onde triunfara.

Todavia, o sucesso não evitou a polémica. Precisamente por ser um recurso novo e invulgar na televisão portuguesa da época, a qualidade da dobragem foi alvo de um escrutínio implacável, dividindo opiniões entre os espectadores habituados à legendagem e aqueles que viam nela uma forma de tornar a história mais acessível.

O terceiro episódio, exibido inicialmente a 23/10/1988, foi reposto na semana seguinte, depois de se ter verificado uma total dessincronização do som da dobragem. Segundo o Se7e, “se em episódios anteriores os lábios das personagens já raramente correspondiam ao som das palavras da dobragem, no domingo as coisas atingiram o descalabro e muitos atores falavam quando a vez já era da fala seguinte”.

A RTP, apesar de ter assumido a responsabilidade pela anomalia e de ter pedido desculpa aos atores e aos espectadores, emitiu um comunicado onde criticava o trabalho da equipa de dobragem, afirmando que o resultado alcançado estava “longe da qualidade esperada, no que respeita aos níveis de som, ao sincronismo e à escolha de algumas vozes”.

António Montez, conhecido no meio das dobragens pela sua elevadíssima exigência no que respeitava ao sincronismo das falas com os movimentos labiais, não tardou a exercer o seu direito de resposta. Após ter lido o artigo do Se7e, esclareceu: “O comunicado da RTP pedia explicitamente desculpa aos atores (à equipa de dobragem). Os reparos que fazia eram dirigidos à empresa contratada para fazer as dobragens. Aí quero ressalvar que a escolha das vozes é da minha inteira responsabilidade”.

O diretor de dobragem endereçou ainda um convite ao jornalista autor da notícia, para “em minha casa, beberricando uns whiskies, assistir aos dois primeiros episódios que tenho gravados. Gostaria que ele me mostrasse onde é que ‘os lábios das personagens raramente correspondiam ao som das palavras da dobragem’. Salvo em quatro momentos (no total dos dois episódios mencionados), existem pequenas falhas de sincronismo”.

No processo de dobragem, alguns atores portugueses que participaram na série deram a sua própria voz às personagens. Foi o caso de Cecília Guimarães, Adelaide João, Fernanda Alves, Rita Blanco, Manuela Cassola, Teresa Madruga, Henriqueta Maya, Canto e Castro, Lídia Franco, Orlando Costa e Sérgio Godinho.

Houve, no entanto, um grupo de intérpretes cujas vozes foram substituídas pelas de outros atores: Tozé Martinho, Ana Padrão, Lourdes Norberto, Rosa Lobato de Faria, Henrique Viana, Helena Isabel e Filipe Ferrer, entre outros.

Embora tenha feito uma pequena participação como ator na série, António Feio, que fazia parte da equipa de dobragem, não dobrou a sua própria voz.

Outro detalhe que causou particular estranheza foi ouvir a voz de José Raposo a interpretar a personagem da Condessa de Carvalho, vivida pela atriz Maria Meriko.

Houve ainda nomes de personagens que sofreram alterações entre as versões francesa e portuguesa. O exemplo mais notório foi Mme. Irene, interpretada por Cecília Guimarães, que na versão nacional passou a chamar-se D. Ester.

Foi lançado um single com o tema musical composto especialmente para a série, nas versões francesa e portuguesa: Ça Ne S’Oublie Paz Canta Teu Passado.

Em 1991, a editora Henda, em parceria com a RTC, lançou a série em três cassetes VHS, distribuídas nos Estados Unidos, no Canadá e nas Bermudas, junto das comunidades de emigrantes.

Mais tarde, em 2007, a série chegaria ao formato DVD em França, embora contendo apenas a versão original francesa.

Na época em que se iniciou a rodagem da série, Linda de Suza lançou-se noutra aventura, produzindo uma comédia musical baseada também na obra autobiográfica.

Em 1988, daria continuidade à sua história com o lançamento de um segundo livro, intitulado Abri a Mala de Cartão (Je Vide Ma Valise).

Em 1997, o jornal Expresso dava conta da situação difícil da cantora, que vivia com graves problemas financeiros e se dizia completamente arruinada: “Roubaram-me tudo, e nem com a série televisiva realizada a partir do meu livro La Valise en Carton ganhei direitos de autor; foram outras pessoas que os receberam!”.

Jornal da Noite de 27/09/2008 revelou, na rubrica Perdidos e Achados, o paradeiro da cantora.

Nesta altura, Linda levava uma vida recatada, numa pequena aldeia a 50 minutos de Paris. À reportagem, a cantora afirmou que a sua voz estava “de luto”, reiterando ter sido enganada pelo seu produtor e destituída dos seus direitos.

A cantora fez também uma revelação surpreendente: a mala de cartão fora um símbolo criado unicamente para impulsionar a venda do livro e o sucesso da série. Linda chegou mesmo a pedir desculpa ao público por aquela que considerava ser uma “farsa” comercial.

Linda de Suza

A reportagem deu também voz a Luciana Lança, a irmã mais velha de Linda, entrevistada num jardim na Amadora, no local onde outrora se situara a casa da família. Luciana confirmou o descontentamento dos familiares com a forma como foram retratados na ficção – sobretudo a figura do pai, que consideraram humilhante e desprovida de realismo: “Bêbado, muito feio, a comer com as mãos. Parecia um porcalhão… Não gostei!”.

Luciana Lança

O programa contou ainda com um depoimento de Tozé Brito, que recordou a colaboração com a artista, para quem compôs algumas canções ao longo da carreira.

Tozé Brito

A série encontra-se disponível para visualização no portal RTP Arquivos. Curiosamente, o registo preservado do terceiro episódio ainda apresenta a acentuada dessincronização entre som e imagem que, na época, tanto deu que falar e que motivou as críticas públicas da própria estação e da imprensa.

Episódio 1
Episódio 2
Episódio 3
Episódio 4
Episódio 5
Episódio 6

A Mala de Cartão