A Sucessora

Exibição:
07/01/1985 – 12/07/1985 (RTP 2/RTP 1)

Número de capítulos:
126

Produção:
Rede Globo (1978/1979)

Novela de:
Manoel Carlos

Inspirada no romance homónimo de Carolina Nabuco

Direção geral:
Herval Rossano

O viúvo Roberto Steen (Rubens de Falco) casa-se com Marina (Susana Vieira), filha de fazendeiros que, ao deslocar-se para o Rio de Janeiro dos anos 20, não se consegue adaptar ao estilo de vida da alta burguesia carioca. Porém, de todos os obstáculos que encontra, o maior é sem dúvida a presença invisível de Alice, a primeira mulher de Roberto, falecida há tempos atrás. Para além de ser objeto de todas as comparações possíveis, Marina tem de suportar a arrogância de Juliana (Nathália Timberg), a governanta, que idolatrava Alice e não aceita a sua substituição.

Roberto e Marina

Enquanto Marina tenta aproximar o seu universo ao de Roberto, Juliana, mais do que todos, não desiste de lhe fazer ver que ela jamais chegará aos pés de Alice, tratando-a como um ser inferior e implicando com todas as suas preferências, até com a escolha das flores destinadas à decoração da casa. Por outro lado, sempre que Marina tenta conhecer um pouco melhor a personalidade da primeira mulher de Roberto, defronta-se com estranhos acontecimentos que a impedem de concretizar as suas intenções. Destaca-se a proibição de entrar no quarto de Alice, onde Juliana passa largas horas sem que se saiba o que faz. Em outra ocasião, quando se preparava para ler o diário da sua antecessora, Marina dá-se conta alguém arrancou grande parte das páginas.

Juliana

Com o passar do tempo, Marina e Roberto vão-se desentendendo enquanto Juliana, obcecada com a imagem de Alice, assume a sua personalidade. Nos capítulos finais, Juliana está literalmente convencida de que é Alice e resolve utilizar o guarda-roupa da primeira mulher de Roberto, dando ordens a todos como se fosse a patroa. É então que as restantes personagens se dão conta do seu adiantado estado de perturbação…

Com o internamento de Juliana num sanatório, fica o caminho aberto para a reconciliação entre Marina e Roberto que, numa atitude decisiva, queima o retrato de Alice, varrendo para sempre a presença desse fantasma da vida dos dois.

Um grande sucesso e uma das telenovelas de época mais bem produzidas. Estreou na RTP 2, no mesmo dia em que a RTP 1 apresentava o primeiro capítulo de Chuva na Areia.

A semelhança tão discutida entre o romance que inspirou a novela e o livro Rebecca, de Daphne du Maurier, não passou despercebida e foram várias as salas de cinema em Portugal que, em 1985, exibiram o filme de Hitchcock, baseado na obra da autora britânica.

Muitos elementos da trama de Rebecca, que não existiam no livro de Carolina Nabuco, foram aproveitados para a telenovela. O clima de mistério em torno da figura de Alice Steen, que é uma das componentes mais emblemáticas da telenovela, tem aliás muito mais a ver com Rebecca do que com o livro A Sucessora.

O retrato de Alice Steen

A título de exemplo, podemos recordar a governanta Juliana. A personagem equivalente no livro de Carolina Nabuco chama-se Júlia, nada tem de mórbido ou assustador e raramente aparece. É apenas uma mulher chata. A inspiração para a personagem interpretada por Nathália Timberg, a governanta que idolatra a antiga patroa a ponto de enlouquecer por ela, Manoel Carlos foi certamente buscar à Mrs. Danvers de Rebecca.

A governanta Juliana (Nathália Timberg)

O mesmo se passa em relação ao quarto de Alice, que se encontra fechado e que provoca uma grande curiosidade por parte de Marina (Susana Vieira). Este é um dos maiores mistérios da telenovela: só no último capítulo quer Marina quer o telespectador ficam a saber o que se encontra por detrás da porta dos aposentos da primeira mulher de Roberto Steen (Rubens de Falco). Quem leu Rebecca, ou quem viu o filme de Hitchcock, lembrar-se-á imediatamente da passagem em que Mrs. Winter enfrenta a oposição de Mrs. Danvers para entrar no antigo quarto da defunta.

Na telenovela, tal como em Rebecca, a presença da personagem falecida é tão forte que quase somos levados a desconfiar que Alice se encontra viva, aprisionada dentro do seu quarto, expediente que faz em muito lembrar o romance Jane Eyre de Charlotte Brontë, cujo enredo tem sido muitas vezes comparado com o de Rebecca.

O comportamento leviano de Alice, que teria sido ofuscado pelos seus amigos mais próximos, também encontra maior proximidade com a Rebecca de Daphne du Maurier do que com a personagem de Carolina Nabuco.

Nas últimas páginas do romance de Carolina Nabuco, o quadro de Alice é enviado para uma galeria, enquanto na telenovela Roberto toma a iniciativa de o destruir pelo fogo.

Esta solução encontrada por Manoel Carlos, embora em dimensões mais reduzidas, também remete quer para Rebecca quer para Jane Eyre. De facto, em ambos os casos, é o fogo que apaga para sempre a memória fantasmagórica da personagem oculta, num incêndio em que é destruída a mansão onde se desenrola a maior parte da intriga.

Na altura em que a telenovela era transmitida, foi reeditada pela Livros do Brasil a obra de Carolina Nabuco, que obteve um êxito bastante expressivo nas livrarias. O livro vinha com uma faixa onde se lia: “Veja a telenovela, mas leia o livro”.

Também nesta época, as Seleções do Reader’s Digest lançaram uma coleção com vários discos que pretendiam conter o melhor da música brasileira. O último exemplar, intitulado Sucessos das Telenovelas, apresentava um tema de quase todas as telenovelas exibidas em Portugal até ao momento. O último tema do disco era precisamente Chorinho Odeon, o tema de abertura de A Sucessora.

Os últimos 40 capítulos de A Sucessora foram ao ar na RTP 1, após o termo de Chuva na Areia. Segundo novas diretivas, o segundo canal passaria a apresentar programas culturais e desportivos, tendo em vista um público com exigências diferentes, pelo que as telenovelas apenas teriam espaço na RTP 1. Acabava assim o que a RTP um dia apelidara de Bloco Central da Televisão Portuguesa, referindo-se às duas telenovelas que eram exibidas em horário nobre, uma em cada canal. Foi, por esta altura, autorizado um alargamento nas horas de programação e arrancaram as emissões diárias na RTP Porto, à hora do almoço. Durante esse espaço era transmitido o Espaço 12/13, a reposição da telenovela portuguesa Vila Faia e o Jornal da Tarde, que se mantém até hoje.

Rubens de Falco chegou a Lisboa na reta final da novela, para apresentar uma peça sobre Bocage. Juntamente com Leina Krespi, foi recebido no Espaço 12/13, sendo apresentado por Ivone Ferreira como “o senhor Roberto Steen”.

Nesta peça, participaram também os atores Sónia de Paula e Paulo Pinheiro (os empregados Isabel e António da novela).

Apesar de ter sido uma das telenovelas da Globo que mais êxito obteve no estrangeiro, A Sucessora foi exibida apenas uma vez em Portugal. Quem não viu na altura, poderá conhecê-la através da edição brasileira em DVD, de 2014.

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