Alentejo sem Lei

Exibição:
05/01/1991 – 19/01/1991 (RTP 1)

Número de episódios:
03

Elenco:
Carlos Daniel – Zarolho (Major)
Rita Blanco – Ana Rita (Morgada)
Fernando Luís – Geraldo
Canto e Castro – Manuel Figueiredo
Cremilda Gil – Antónia
Maria Vieira – Maria do Cerro
António Feio – Fininho
Rogério Samora – Ferro (Sargento)
Vítor Norte – Cara Rota
Adriano Luz – Negas
Nuno Melo – Joaquim da Silva
Rita Loureiro – Mariana
Márcia Breia – Mana Anica
Miguel Guilherme – Mil-Homens
Herman José – Galamba
Luís Alberto – Francisco
Luís Pavão
João Azevedo
Paulo Branco – Preto

Narração:
Isabel de Castro

Argumento:
João Canijo
Paulo Tunhas

Música:
Manuel João Vieira

Produção:
Paulo Branco

Realização:
João Canijo

O Alentejo, por alturas de 1850, era uma terra de bandidos e malteses. E é neste território sem lei, pouco povoado e quase selvagem, que tem lugar a história do Bando de Zarolho (Carlos Daniel): o Major, a Morgada (Rita Blanco), Ferro (Rogério Samora), Negas (Adriano Luz) e Fininho (António Feio).

O bando de Zarolho

Depois do fim da Guerra Civil de 1828-43, entre liberais e absolutistas, o grupo continua a sua luta por D. Miguel, até que, a pouco e pouco, os seus elementos se transformam em ladrõezecos com a cabeça a prémio, um bando de pobres diabos que têm de assaltar os montes para sobreviver.

O Major divide-se entre o sentimento de proteção pela Morgada – criatura bravia e indomável que ele jurou proteger – e a paixão que descobre por Marianita (Rita Loureiro), uma menina de boas famílias que foge de casa num desvario de amor.

O Major, Marianita e a Morgada

Perseguidos por Geraldo (Fernando Luís), que pretende vingar o pai (Luís Alberto), e por Galamba (Herman José), caçador de malteses e “servidor da boa vontade”, seguimo-los numa viagem por um Alentejo sem sombra nem lei, onde a justiça tem de ser feita à força e pelas próprias mãos.

O grupo de Geraldo
O grupo de Galamba

A paisagem alentejana serve de pano de fundo para duelos e paixões, mas também para momentos de grande humor.

Zarolho (Carlos Daniel)
O seu verdadeiro nome é Heitor. Tratado por “Major”, é chefe de um bando de assaltantes cujos membros são os resquícios do Exército de Operações do Sul, comandado pelo falecido Coronel Rachado, um miguelista.

Ana Rita (Rita Blanco)
Mais conhecida como “Morgada”. Selvagem e agressiva, é o braço-direito de Zarolho, que tomou conta dela como filha.

Ferro (Rogério Samora)
É o “Sargento” do bando. Continuou na guerra por devoção ao Major, embora se diga que o seu interesse é na Morgada.

Fininho (António Feio)
O “Soldado”. Sem grandes aptidões militares, participou em vários combates, mas não se lhe conhecem grandes glórias.

Negas (Adriano Luz)
O “Cabo”. Tem um histórico semelhante ao de Fininho, porém com um nível de crueldade bastante maior.

Geraldo Camacho (Fernando Luís)
Homem valente, jura vingar a morte do pai, assassinado pelo bando de Zarolho.

Galamba (Herman José)
É janota, bem-apessoado e um “servidor da boa vontade”. Essa capa esconde um sanguinário caçador de cabeças a prémio, hipócrita, oportunista e sem escrúpulos. É um ex-miguelista que se mudou rapidamente para o lado vencedor.

Manuel Figueiredo (Canto e Castro)
Lavrador abastado do Monte das Mezas. Tradicional chefe de família alentejano, é casado com Antónia, mas arrasta uma asa para a criada, Maria do Cerro.

Antónia (Cremilda Gil)
Esposa de Manuel Figueiredo, de quem tem uma filha, Marianita.

Maria do Cerro (Maria Vieira)
Comadre e criada de Antónia. Tem um caso com o patrão.

Marianita (Rita Loureiro)
Rapariga improvavelmente dada à aventura. Filha de Manuel e Antónia Figueiredo. Foge de casa para evitar um casamento que lhe é arranjado pelo pai, juntando-se ao bando de Zarolho, com o qual vive uma enigmática paixão.

Joaquim da Silva (Nuno Melo)
Nasceu em Montes Velhos, no Alentejo, mas foi estudar para Lisboa. Apesar disso, é desajeitado e inadvertido das coisas do mundo. Regressa ao Alentejo em busca de Marianita, a noiva que lhe está prometida e que ele toma pela mais pura das donzelas.

Compadre Cara Rota (Vítor Norte)
Abegão que trabalha para Figueiredo.

Francisco (Luís Alberto)
Pai de Geraldo. Morre depois de ser atacado pelo bando de Zarolho.

Mana Anica (Márcia Breia)
Prima de Joaquim da Silva. Uma mulher de armas.

Mil-Homens (Miguel Guilherme)
Oficial da Guarda Nacional.

Preto (Paulo Branco)
Lugar-tenente de Galamba.

1. (05/01/1991)
O bando de Zarolho assalta a casa da família de Geraldo. Ao ver que se tratam de correligionários do Marechal Saldanha, os bandidos tentam matar Geraldo, mas ele sobrevive. Porém, o seu pai, Francisco, sucumbe aos ferimentos. Fininho observa a casa de Figueiredo no Monte das Mezas. O Major considera que é um bom alvo para assaltarem e fazerem renascer o Exército de Operações do Sul. O Sargento e a Morgada vão até lá, disfarçados de malteses, para preparar o terreno e dar o sinal de avanço. No caminho, quase são apanhados por Galamba. Mariana, a filha de Figueiredo, recusa-se a aceitar o casamento imposto pelo pai. Enquanto o bando aguarda pelo sinal, Fininho é atacado e, desprevenido, mata um homem. Furioso, Zarolho dá-lhe uma punição. Geraldo conhece Joaquim e este convida-o a pernoitar na casa da Mana Anica, que, de noite, é assaltada, assim como a propriedade de Figueiredo.


2. (12/01/1991)
Durante o assalto à sua casa, Manuel Figueiredo recusa-se a dar o dinheiro que os bandidos pedem. Zarolho e Marianita sentem imediatamente uma forte atração um pelo outro. Anica quer atirar à ribeira o corpo do bandido que tentou invadir a sua casa. Galamba aparece e oferece-se para levar o corpo, mas é mal recebido. Zarolho beija Marianita, sob o olhar enraivecido de Ana Rita. Marianita trai o pai e junta-se ao bando. Geraldo chega ao Monte das Mezas e inicia-se um violento tiroteio entre ele e o bando de Zarolho. Entretanto, chega também Galamba. Geraldo e Ana Rita ficam frente a frente e sentem, também, uma atração mútua. O bando consegue fugir, mas Negas fica para trás, é torturado por Galamba e executado por Geraldo. O Major trata de Fininho, que foi atingido na perna. Ana Rita repudia Marianita. Geraldo, Joaquim e Cara Rota vão no encalço do bando.


3. (19/01/1991)
A Morgada mostra-se irritada com a súbita paixão entre Zarolho e Marianita e, sentindo-se provocada, dispara um tiro ameaçador contra a rapariga. O bando toma o rumo de Espanha. Ferido e sem condições de fazer uma viagem longa, Fininho despede-se dos companheiros. Na taberna, Mil-Homens reconhece-o e obriga-o a revelar o paradeiro de Zarolho. De seguida, Fininho tenta disparar sobre Geraldo, mas Joaquim é mais rápido e mata-o. Mil-Homens e outro guarda defrontam-se com o bando e acabam mortos. Zarolho e o seu bando descansam num acampamento de ciganos. Já depois de partirem, há um confronto entre o grupo de Geraldo e esses mesmos ciganos, que resulta na morte de Cara Rota. Ferro decide não ir para Espanha e abandona o grupo; mata Preto e é atingido por Galamba. E é chegado o momento do confronto final entre Geraldo e Zarolho…

Alentejo sem Lei nasceu depois de João Canijo ter lido livros de Brito Camacho – nomeadamente Gente Rústica, onde o escritor relatava históricas que vira ou ouvira na sua infância – e de ter ficado fascinado pela descrição de uma época que era feita do Alentejo em finais do século XIX: o cenário ideal para esta história de violência e brutalidade.

João Canijo colocou ficção e realidade à mistura – incorporando algumas histórias da sua própria família –, dando origem a esta obra inovadora, uma espécie de “faroeste português”.

O realizador e também co-autor do argumento fez questão de avisar, desde logo, que os seus bandidos não eram para levar a sério: “São personagens mais cómicas do que trágicas”.

Negas (Adriano Luz) e Fininho (António Feio)

A série teve a narração de Isabel de Castro, personificando uma velha que, no final, ficamos a saber tratar-se da bisneta de Geraldo (Fernando Luís) e Ana Rita (Rita Blanco).

Geraldo e Ana Rita

Apesar da inegável qualidade do elenco, o que suscitou mais curiosidade foi a presença de Herman José num papel dramático, embora tal já tivesse acontecido em O Homem que Matou o Diabo – série de 1979 que caíra no mais completo esquecimento – e num episódio da recente série europeia Napoleão e a Europa.

Assim, pudemos ver o ator num registo muito diferente do habitual, no papel de Galamba, um vilão com requintes de malvadez: “O jovem realizador João Canijo e o persuasivo produtor Paulo Branco quiseram muito que eu entrasse nessa série como protagonista. Não podia, e acertou-se a participação especial. A seriedade e o trabalho com que aquilo foi feito são indescritíveis”.

Para Herman José, era um desafio aceitar fazer um papel dramático: “As pessoas têm tanto passado visual dos meus disparates que têm dificuldade em verem-me num papel dramático. Faz-me lembrar o Vasco Santana, que um dia resolveu fazer uma peça dramática e, quando entrava em cena, as pessoas desatavam a rir. Mas esse é um risco que corro com gosto, porque nem sequer quero provar que sou um grande ator”.

No final, o ator revelou grande satisfação com a experiência: “Dá-me imenso prazer enveredar por novos caminhos, não só porque daí resulta um enriquecimento profissional, mas também para não me cansar de mim próprio”.

A série marcou a estreia em televisão de Fernando Luís e Rita Loureiro.

Fernando Luís
Rita Loureiro

O produtor Paulo Branco fez uma pequena participação como Branco, lacaio de Galamba. O personagem quase não falava; apenas repetia, de forma lacónica: “Sim, Capitão Galamba”.

Em 2007, a série foi lançada em DVD pela Midas Filmes.

Foram apresentados, como extras, depoimentos de vários atores, bem como de João Canijo e de Manuel João Vieira, responsável pela banda sonora.

Rita Blanco
Fernando Luís
Rogério Samora
Rita Loureiro
Vítor Norte
João Canijo
Manuel João Vieira

A 02/12/2007, Alentejo sem Lei foi parodiada pelos Gato Fedorento, na rubrica “Tesourinhos Deprimentes”, do programa Diz que É uma Espécie de Magazine. Em causa estavam, sobretudo, as cenas de tiros, em que os atingidos demoravam alguns instantes até desfalecerem. José Diogo Quintela brincou dizendo que se havia abusado do estereótipo dos alentejanos, que nesta série eram “preguiçosos até a morrer”.

Partilhar:

Alentejo sem Lei