Chuva na Areia

Exibição:
07/01/1985 – 03/05/1985 (RTP 1)

Número de capítulos:
84

Tele-romance de:
Luís de Sttau Monteiro

Adaptação do romance Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão

Direção musical:
José Luís Tinoco

Diretor de orquestra:
Pedro Osório

Cenografia:
Conde Reis

Produtor principal:
Paulo Morais

Elenco:
Adelaide João – Beata Maria
Alda Pinto – Ester
Alina Vaz – Odete
Amadeu Caronho – Empregado do café
Américo Pereira – Brito
António Évora – Sargento Lima
António Lopes Ribeiro – Padre Correia
António Montez – Gomes
António Rama – Herr Schmidt
António Salgueiro – Velho pescador
Armando Cortez – Esteves
Armando Venâncio – Manel
Asdrúbal Teles – Empregado do restaurante
Baptista Fernandes – Costa
Brito Macedo – Velho pescador
Calado Pereira
Carlos César – Antunes
Carlos Curto
Carlos Daniel – Herculano de Carvalho
Carlos Gonçalves – Fonseca
Carlos Wallenstein – Herr Neuber
Célia David – Rita
Couto Viana – Padre Francisco
Cunha Marques – Mirone
Curado Ribeiro – Junqueira
Eduardo Viana – Eduardo
Elizabete Camacho – Americana
Filipa Cabaço – Ana
Gil António – Empregado da sapataria
Glicínia Quartim – Joaquina
Henrique Santos – Alberto
Henrique Viana – Vilela
Inácio Pontes – Camponês
Isabel Damatta – Adelaide
Isabel Nunes da Silva – Inês Fontes
João Santos Paiva – Velho pescador
João Sarabando
Jorge Campos – Jean
José Algarve
José de Carvalho – Mirone
José Fonseca e Costa – Tão Vidigueira
José Gomes – Presidente da Câmara
José Maria Forjaz
José Viana – Nunes
Júlio Cleto
Laura Soveral – Judite Mimoso
Luís Pinhão – Malaquias
Luís Zagalo – Agente da PIDE
Luísa Barbosa – Xica
Luísa Roubaud – Gabriela
Lurdes Lima – Lisete
Manuel Castro
Manuel Cavaco – Manganão
Manuel Seleiro – Pescador
Manuela Carona – Paloma
Manuela Maria – Augusta
Margarida Rosa Rodrigues – Mariazinha Vidigueira
Maria Clementina – Engrácia
Maria Cristina – Avó de Ana
Maria Dulce – Mabel
Maria Salomé – Isabel
Maria Simões – Cabeleireira
Mariana Rey Monteiro – Helena Fontes
Mariana Villar – Amélia Esteves
Mário Sargedas – Peralta
Melim Teixeira – Toino Matelot
Mexia Alves – Secretário do Ministro
Natália Luiza – Guida
Nuno Melo – Caniço
Óscar Acúrcio – Aníbal
Rogério Claro – Médico
Rogério Paulo – Mimoso
Rolando Alves
Rui Luís – Leopoldo
Rui Mendes – Tenente Ferreira
Rui Pedro – Silva
Stella Rato – Camponesa
Virgílio Teixeira – António Fontes

Realização:
Nuno Teixeira

Chuva na Areia aborda o percurso de vários habitantes de uma vila piscatória, Vila Nova da Galé, no decorrer de um verão da década de sessenta. A chegada dos turistas, e o desenvolvimento em prol de um progresso que se desconhece, altera o quotidiano das pessoas, que reagem de modo diferente à mudança. Nunes (José Viana), dono de uma pensão, lamenta que muito em breve perderá toda a freguesia para estabelecimentos mais sofisticados que o seu. Como se isso não bastasse, Guida (Natália Luiza), a sua filha, vem passar férias a Vila Nova da Galé e torna-se o alvo predileto dos mirones.

Chuva na Areia é também a história de Caniço (Nuno Melo), jovem que se envolve sexualmente com homens e mulheres em troca de presentes. Com o passar do tempo, ele passa a sentir vergonha deste seu comportamento e acaba por amputar o próprio sexo, morrendo nas areias de Vila Nova da Galé. Ana (Filipa Cabaço), que é apaixonada por ele, encontra entre os seus pertences um isqueiro de Herr Neuber (Carlos Wallenstein), com quem Caniço teria tido relações sexuais, e incita os pescadores a um acerto de contas. Herr Neuber é um alemão que simpatiza com a causa de Adolf Hitler, radicado em Vila Nova da Galé com vista à construção de um hotel de luxo. Acabará por morrer esfaqueado nas mãos dos pescadores, que não esquecem o trágico destino de Caniço.

Outra personagem de destaque é o tenente Ferreira (Rui Mendes), dirigente da delegação policial de Vila Nova da Galé. Sem grandes ambições, está constantemente a desentender-se com a sua mulher, dona Odete (Alina Vaz), que não vê o dia em que sairá dali definitivamente. Odete não se sente satisfeita com o estilo de vida que o marido lhe proporciona e comete adultério com Vilela (Henrique Viana), um vendedor de terrenos para construção.

Por outro lado, Helena (Mariana Rey Monteiro) e António Fontes (Virgílio Teixeira), apesar de já terem vivido em muitos outros lugares, desejam continuar a passar férias em Vila Nova da Galé, usufruindo do sossego que não encontram em outras paragens e, tal como a maioria dos habitantes, sentem-se incomodados com as transformações que estão a ser operadas em nome do progresso.

Outra personagem importante é Leopoldo (Rui Luís), o dono da taberna. Aparentemente covarde, submete-se a todas as humilhações dos clientes, como é o caso do contrabandista Peralta (Mário Sargedas), que compara o vinho da taberna a “mijo de burra”. Um dia Leopoldo revolta-se e, ameaçando agredir quem o desrespeitar, impõe a sua autoridade pela violência.

Há também o Mimoso (Rogério Paulo), que sofre o drama de ter o filho perseguido pela PIDE, e o velho Malaquias (Luís Pinhão), sempre às turras com a esposa (Maria Cristina). Um dia, em discussão, ele manda-a calar. A mulher, ofendida, promete não tornar a dizer uma só palavra a partir desse momento. Esta promessa será cumprida e ela jamais voltará a abrir a boca para falar, mesmo quando Malaquias, no seu leito de morte, lhe implora desesperado: “Fala mulher, fala!”

Outro dos episódios mais pitorescos do tele-romance é protagonizado pelo Esteves (Armando Cortez) que, depois de ganhar a lotaria, resolve arranjar uma espanhola (Manuela Carona), que passa a manter num apartamento de luxo para se divertir nas horas vagas. Todavia, não demora muito para que ela o passe para trás e Esteves, querendo surpreendê-la em flagrante delito, não tem outra alternativa senão entrar pela varanda do segundo andar a partir de um apartamento contíguo. Ao desequilibrar-se, Esteves desaba e sofre algumas fraturas, sendo imediatamente levado para o hospital, onde a pouco e pouco vai recuperando da aventura.

Entretanto, quando o verão está a chegar ao fim, aparece em Vila Nova da Galé o tenente Herculano de Carvalho (Carlos Daniel), que se apaixona por Guida. Esta está deprimida porque os turistas se foram embora, encontrando-se entre eles um indivíduo com quem se teria envolvido amorosamente. Pressionada pelas circunstâncias, Guida aceita o pedido de casamento de Herculano, para grande alegria de Nunes. Porém, esta resposta não corresponde à sua verdadeira vontade e, no próprio dia da cerimónia, numa conversa franca com a filha, Nunes apercebe-se disso. A conselho do pai, que pela primeira vez compreende o seu dilema, Guida desiste do casamento e sai de casa pela porta das traseiras, vestida de noiva, rumo à praia de Vila Nova da Galé. É então que começa a chover na areia…

Família Fontes

António Fontes (Virgílio Teixeira)
Conhecido por “engenheiro”, embora não o seja, é uma das forças mais vivas de Vila Nova da Galé. Rejeita com veemência o progresso que inundará de turistas a vila, desumanizando-a. Homem de posses, não esconde a sua vocação aristocrática. Diverte-se, com Helena, a fazer pagode de algumas das figuras que os habitantes da vila fazem. Se pudesse, enfiaria o lugar onde nasceu numa redoma de vidro. Oposicionista convicto, embora silencioso, do Regime.

Helena Fontes (Mariana Rey Monteiro)
É a âncora que por vezes atraca o marido, Fontes, à terra firme. Vai conhecendo aos poucos o marido com quem casou. É respeitada e admirada por todos em Vila Nova da Galé, sobretudo por Odete, que pretende igualá-la.

Inês Fontes (Isabel Nunes da Silva)
Filha dos Fontes. Sente um impulso para apoiar o progresso de Vila Nova da Galé. Derrama admiração e simpatia por Herculano.

Família Nunes

Nunes (José Viana)
Viveu uma infância de privações, com tostões contados e vida suada. Abnegado, fez da modesta Pensão Âncora o seu primeiro projeto de vida. O segundo, edificou-o com a mulher: a filha Guida, a quem não nega predicados. Vive em função da descendente, embora entre eles se abra um abismo. De espírito limpo, não conhece maldade, sendo cândido e por vezes inocente. Não consegue soltar para fora o que o rói por dentro.

Augusta (Manuela Maria)
Mulher de Nunes. Afadigada de trabalho, não tem vida própria, perdida nos afazeres da pensão. Mulher de bom senso, é um equilíbrio para o marido. Tem um apurado sentido empírico da vida.

Guida (Natália Luiza)
Se o pai mandasse, era a cópia perfeita da mãe. Mas não. Está a acabar o liceu em Lisboa e vai adiando o seu regresso à bucólica Vila Nova da Galé, deixando os pais a formigar de impaciência. Quer escapar do destino que lhe aponta um futuro rotineiro e evadir-se nos céus, qual gaivota, voando e agarrando o verão. A sua estampa dá nas vistas. Enamora-se por Jean, desejando que esta a leve da modorra, fazendo-a abrir os horizontes a novos espaços e realidades.

Joaquina (Glicínia Quartim)
Empregada na Pensão Âncora. Cáustica e realista, apesar de não ser letrada. É uma defensora da liberdade de Guida, que trata como se fosse sua neta.

Família Mimoso

Mimoso (Rogério Paulo)
Conhecido pelo “Mimoso das Sardinhas”, é um dos homens mais abastados da terra. Subiu a pulso a escada da vida, fruto do trabalho árduo no negócio do peixe. Gosta de ostentar o que o seu dinheiro consegue comprar. Moído por dentro porque o filho não lhe quer seguir os passos, mais inquieto fica quando sabe que Rui tem a PIDE na peugada.

Judite Mimoso (Laura Soveral)
Mulher de Mimoso. Bicho-do-mato. Gosta de ficar por casa, apagada, e vai funcionando como voz da consciência do marido.

Rui Mimoso
O filho de Mimoso. As suas incertezas de um futuro que não passa pela lota fazem arder em preocupação o pai, como se o gelo lhe parasse nas veias. Desertor. Cai nas mãos da PIDE.

Família Esteves

Esteves (Armando Cortez)
Modesto comerciante de uma retrosaria à beira da falência. Num bambúrrio de sorte, vê a vida a sorrir-lhe quando compra meio bilhete de lotaria premiado. De peito cheio, vai para Espanha, sem dar cavaco à mulher. Ufano, volta, seduzido pelas manigâncias do dinheiro triunfante, com uma espanhola pelo braço.

Amélia Esteves (Mariana Villar)
Mulher de Esteves. Viveu sempre na sombra do marido e, vendo-se abandonada por este, sente-se sem rumo. Grande confidente de Augusta, ajuda frequentemente na cozinha da pensão.

Paloma (Manuela Carona)
Sevilhana espampanante. Esteves exibe-a pela vila em forma de troféu, depois do seu périplo por Espanha. É a sua amásia e, farta dele, solta revelação de fazer cair os queixos.

Família Ferreira

Tenente Ferreira (Rui Mendes)
Marido de D. Odete. É o símbolo da ordem em Vila Nova da Galé, onde nasceu e onde teve a sorte de ser colocado. Sem ambições desmesuradas, nem quimeras, é terra-a-terra e de pés bem assentes no chão. Homem íntegro, honesto, de boas contas, gosta de estar aprumado, fardado em toda a ocasião e de cara levantada. Já não tem em conta os enxovalhos que o destempero de Odete lhe causa.

Odete (Alina Vaz)
Mulher do tenente. Detesta a vida em Vila Nova da Galé. Faz gala no posto do marido a quem repete, vezes sem conta, que “não passará da cepa torta”. O casamento mitigou-lhe uma infância humilde e de posses remendadas. Emproada e aspirante a subir a escada da vida, sarrazina os ouvidos de quem com ela priva, arrotando sonhos de grandeza em espavento. Gosta de se fazer cara, ela que é bem barata. É a vítima preferida da troça do engenheiro Fontes.

Lima (António Évora)
Adido do Tenente Ferreira.

Família de Ana

Ana (Filipa Cabaço)
O pai era pescador e ficou no mar. A mãe morreu durante o seu parto. Foi na praia que os avós a criaram. Por entre dunas e areais cresceu. De temperamento agreste, ensimesmada, delira por Caniço. Por ela, Caniço não tinha seguido o trilho da vida fácil, mas sim a do trabalho honesto no mar.

Malaquias (Luís Pinhão)
Avô de Ana. Vive na praia. É um dos pescadores mais velhos. Está impossibilitado de ir ao mar pelo peso dos anos e por uma perna doente. Apesar de combalido, ainda trabalha de quando em vez para ganhar uns tostões, fazendo alguns serviços para o Peralta. Tem um dom de se meter constantemente em sarilhos. Num desembarque de cigarros, estando de vigia, tiro para o ar fere-o. Anda sempre de “candeias às avessas” com a mulher.

Tiazinha (Maria Cristina)
Avó de Ana. Espicaça a neta para arranjar homem. Vítima dos maus humores do marido, que a achincalha sem remorso. Vê em Peralta o noivo ideal para a neta.

Família Vidigueira

Tão Vidigueira (José Fonseca e Costa)
Amigo dos Fontes, de Cascais. Pertence a uma casta totalmente diferente da de António. Interessado nas terras de Vila Nova da Galé, apossou-se de uma fatia do hotel, por ser administrador do banco que está a financiar a construção. Snob e petulante, quer construir um hipermercado, uma boîte, e colocar a terra nas bocas do Mundo.

Mariazinha Vidigueira (Margarida Rosa Rodrigues)
Mulher de Tão.

Igreja

Padre Correia (António Lopes Ribeiro)
Padre estimado por todos. Da praia à vila não há ninguém que não o conheça. Incansável, para quem o procura, infinitamente tolerante, não entende quem se acha senhor da verdade. Fuma e é guloso. Confessa gostar mais dos pecadores do que dos virtuosos.

Beata Maria (Adelaide João)
A beata mais intolerante da terra. Gaba-se de nunca ter cometido um pecado. Para ela, nem todos deviam poder entrar na Igreja.

Oportunistas

Herr Neuber (Carlos Wallenstein)
Alemão roliço que está em Vila Nova da Galé como representante de uma firma germânica, para comprar terrenos na costa portuguesa e construir um grande empreendimento turístico. Excêntrico, tenta sacudir o calor com o abanador de sardinhas. Nazi, admirador confesso de Hitler, tem um passado de terror. Devorador de bifes e de batatas fritas, e bêbado. É homossexual assumido. Parece ser um homem perigoso, largando veladas ameaças.

Herr Schmidt (António Rama)
Tecnocrata. Sócio de Neuber, outro dos representantes do vil metal. Gosta de amesquinhar os portugueses.

Vilela (Henrique Viana)
É o braço-direito de Costa, com quem divide os lucros das suas negociatas. Homem de ambição desmedida, não dá ponto sem nó. Parece ser um negociador exímio e atua como procurador não oficial dos alemães que querem comprar os terrenos da costa. Como ele, há um em cada terra, como larga, espirituoso, Herr Schmidt.

Banco

Costa (Baptista Fernandes)
Gerente da agência bancária. Escorraçado de Lisboa, farto de andar sempre de espinha vergada, impõe a sua esperteza saloia, tentando ser respeitado e admirado na terra que o acolheu. Ríspido, grosseiro, parece ter o “rei na barriga”. A arrotar de grandeza, e de olhos a brilhar, aperta o cerco a Gabriela, a quem tenta envolver pelo seu palavreado lúbrico.

Gabriela (Luísa Roubaud)
Bonita, agradável, de boa estampa. Tem um namorado em África, na Guiné. Foram os seus encantos físicos que lhe deram o emprego de secretária no banco. Estudos tem poucos, porque apenas acabou o liceu. Não repudia abertamente os galanteios viscosos e serôdios de Costa, nos serões que este a obriga a fazer, porque o emprego é bem remunerado.

Contrabandistas

Peralta (Mário Sargedas)
Um dos patrões do contrabando. O grande rival nos negócios sujos de Toino Matelot, que a par da Guarda elege como o seu principal inimigo. Ronda a porta da casa de Malaquias, embevecido pelo charme de Ana. Não suporta os olhares inquisidores de Leopoldo.

Toino Matelot (Melim Teixeira)
Sinistro, herdou do pai o negócio de contrabando, dando continuidade à rivalidade da sua família com a de Peralta. Nos negócios escuros, trabalha com clareza. Entendido no métier do contrabando, sabe de cor o seu código de honra.

Manganão (Manuel Cavaco)
É um dos principais incendiários da reputação de Leopoldo, por ver no tasqueiro um delator. Pescador, subordinado de Mimoso, tem bem apurada a sua faceta de contrabandista. Reza sempre à Virgem nas vésperas dos embarques dos cigarros e do contrabando.

Câmara Municipal

Presidente da Câmara (José Gomes)
Untuoso e cheio de salamaleques, é o chefe da autarquia da vila, que ambiciona pôr no mapa. Não nasceu lá, mas antes em Lisboa, onde se licenciou em Direito com sofridos 10 valores. Conhece como poucos a respiração da vila e, salazarista convicto, teme que os opositores lhe façam o “ninho atrás da orelha”. Especializou-se na arte da vénia. É um mangas de alpaca.

Brito (Américo Pereira)
É o braço-direito do Presidente da Câmara, que o considera um incompetente e o trata abaixo de cão.

Comerciantes

Gomes (António Montez)
Dono de uma pequena mercearia que não acompanha o progresso, com um negócio estagnado que não dá vazão às pretensões dos turistas. Sonha com a construção de um supermercado abarrotado que os delicie com a modernidade de um estabelecimento a abarrotar de delícias.

Antunes (Carlos César)
Pequeno comerciante. Governa-se com um pequeno estabelecimento de eletrodomésticos e foi sócio de uma empresa de apetrechos de pesca. A tentação de enriquecer depressa leva-o a participar num pequeno negócio ilícito, arrastando Esteves para maus lençóis. Videirinho e velhaco, tenta sempre ficar bem em todos os assuntos, não hesitando em atear fogo à reputação de terceiros, recorrendo mesmo a chantagem se necessário for.

Silva (Rui Pedro)
Caixeiro-viajante de Lisboa. Há mais de vinte anos que assenta praça em Vila Nova da Galé, no verão. Algo pomposo no falar. Vendo o seu negócio em declínio, deixa a vila com contas na pensão por liquidar.

Aníbal (Óscar Acúrcio)
Graxa de profissão, linguareiro por vocação. Enquanto vai dando lustro aos sapatos dos cavalheiros de Vila Nova da Galé, solta a língua afiada. Sabe da vida de todos e, usando máscara de ingénuo, vai fazendo perguntas indiscretas aos clientes. Não hesita em usar o muito que sabe sobre a vila e as suas gentes, para aumentar os seus proventos.

Eduardo (Eduardo Viana)
Dono do Café Central. É também proprietário do hotel anexo e sonha em ampliar o edifício.

Empregado (Amadeu Caronho)
Empregado do Café Central.

Leopoldo (Rui Luís)
Taberneiro. Escorraçado e achincalhado como cão tinhoso pelos contrabandistas que frequentam a taberna da praia, que lhe amarguram a existência por desconfiarem que seja um delator.

Engrácia (Maria Clementina)
Mulher de Leopoldo. De ouvidos apurados, vai funcionando como voz da consciência do marido, lembrando-lhe os sarilhos em que se mete.

Alberto (Henrique Santos)
Dono da sapataria. Rejeita a mercadoria oferecida por Silva, por considerá-la ultrapassada.

Isabel Clara (Maria Salomé)
Filha de uma modista que em tempos idos trabalhou para os Fontes. Tem uma loja modesta numa rua atrás da igreja. Terá uma missão de particular importância para a promoção da vila.

Cabeleireira (Maria Simões)
Trabalha no salão de Vila Nova da Galé, não estando, contudo, apta a fazer penteados mais sofisticados. Terá a difícil incumbência de fazer a primeira depilação a Amélia Esteves.

Lisete (Lurdes Lima)
Esteticista do salão de Vila Nova da Galé. Encanta Esteves com os seus serviços de pedicure.

Outros personagens

Caniço (Nuno Melo)
Todo ele é uma rede de mistérios. Conta-se que nasceu dos amores ilícitos de um médico que bebia excessivamente e se envolvia com diversas mulheres, até mesmo as casadas. Cresceu ao Deus dará, entre dunas e calhaus, sem resistir às más tentações da vida. A cabana onde vive, na praia, está repleta de objetos roubados aos turistas. A existência de Ana, que o ama, mexe com ele, por não conseguir resistir aos vícios de quem enriquecer sem trabalhar.

Herculano de Carvalho (Carlos Daniel)
Tenente, vem para Vila Nova da Galé de férias, antes de embarcar para o Ultramar, à procura de amores felizes e de respostas do passado. Está hospedado na Pensão Âncora e espevita a curiosidade de Nunes, que rapidamente o vê como bom partido para Guida. Desenvolve uma aparentemente inexplicável cumplicidade com Inês.

Xica (Luísa Barbosa)
É a coscuvilheira profissional, de língua solta, de tudo o que se respira e diz na esplanada. Está sempre de sentinela no seu posto de observação, do alto da janela de sua casa. Alimenta-se dos juízos sobre a vida do próximo, delirando por escândalos apimentados!

Rita (Célia David)
Amiga de Guida e de Gabriela, com quem vai saboreando o verão.

Mabel (Maria Dulce)
Americana que está de férias em Vila Nova da Galé. Caniço desperta-lhe a atenção, quando percebe que ele é um gatuno, e acaba por seduzi-lo. Casada com um major da Força Aérea Americana com base em Espanha.

Americana (Elizabete Camacho)
Amiga de Mabel.

Jean (Jorge Campos)
A atração francesa que faz brilhar os olhos de Guida. Um amor de verão, pueril, que vai marcar a filha do Nunes, deixando-a em êxtase, vendo nele algo mais do que uma passagem fugaz por Vila Nova da Galé.

Mirone 1 (José de Carvalho)
Um dos “espreitas” que, munido de binóculos, vai espiando as belezas que se desnudam ao sol de Vila Nova da Galé.

Mirone 2 (Cunha Marques)
Outro mirone. Juntamente com o seu camarada, vê-se metido num grande sarilho, ao espiar Guida.

Médico (Rogério Claro)
O “doutor” de Vila Nova da Galé.

Ester (Alda Pinto)
Reitora do Liceu de Vila Nova da Galé, chefe da Mocidade Portuguesa Feminina. Distribui panfletos e, quando lhe chega a mostarda ao nariz, fulmina com o olhar os homens.

Guarda Fiscal
Interroga Antunes sobre as caixas de contrabando que este guardou no armazém de Gomes, desconfiando da sua lábia.

Agente 1 (Luís Zagalo)
Agente da PIDE. Melífluo, procura saber informações sobre o filho de Mimoso.

Agente 2
Outro agente da PIDE.

Junqueira (Curado Ribeiro)
Ministro do Regime. Unha com carne com Tão. Vem a Vila Nova da Galé para aliciar Fontes a ocupar um lugar como deputado da oposição, a serviço do Regime.

Padre Francisco (António Couto Viana)
Prior de São Sebastião. Amigo de Correia desde os tempos do seminário. É um cura mais simpatizante com o Regime e, através dos mexericos de Maria, fica a par das conversas e do fervilhar da vila.

Criada (Filomena Gonçalves)
Criada de Odete, que procura ensinar-lhe boas maneiras.

Empregado do restaurante (Asdrúbal Teles)
Empregado do restaurante da boîte de Rodrigues. Serve ao balcão e às mesas.

Manel (Armando Venâncio)
Pescador que frequenta a taberna de Leopoldo.

Cristo
Pescador, trabalha também para Peralta. É casado e tem 3 filhos, mas dedica mais tempo à amante. Amigo do neto de Joaquina, que tenta chamá-lo à razão.

Pescador (Manuel Seleiro)
Pescador que frequenta a taberna de Leopoldo.

Afonso (Carlos Gonçalves)
Funcionário do banco.

Irmão de Gabriela
Sabendo do assédio de Costa à irmã, espera-o numa esquina e dá-lhe uma sova.

Adelaide (Isabel Damatta)
A nova secretária de Costa. Um bombom que não tem (para sorte dele) irmão…

Chuva na Areia foi baseada em Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão, romance inacabado do famoso dramaturgo Luís de Sttau Monteiro.

À data, o autor descreveu as principais diferenças entre a obra literária e a adaptação televisiva: “No romance, a ação centraliza-se em torno da família Nunes e, muito especialmente, de Guida, que é, em certa medida, o eixo dos acontecimentos. No tele-romance, Guida é apenas uma das muitas personagens utilizadas para contar a história do que aconteceu numa pequena vila marítima, durante um verão da década de 60”.

A chave de Vila Nova da Galé

Interessa ainda destacar o porquê de se fazer referência a Chuva na Areia como tele-romance e não telenovela: “A telenovela tem uma técnica própria que assenta, essencialmente, ou na narração televisiva de uma pequena história em cada episódio ou, como é mais frequente, na narração de duas pequenas histórias por episódio: uma que termina, outra que começa. A terminar a ação da que começa (e que vai acabar no episódio seguinte) uma cena de suspense, mais ou menos elaborada, que tem por objetivo «prender» o espectador e levá-lo a querer ver o desfecho da cena. Trata-se, apesar de tudo, de um processo um pouco rudimentar que se adivinha destinado a agradar às audiências que, embora vastas, não terão um grau de exigência muito elevado. Chuva na Areia não assenta, assim, num doseamento mais ou menos habilidoso de incidentes artificiais em relação à vida nem pretende fornecer aos espectadores pequenas doses diárias de suspense. Antes pelo contrário: proporciona-lhe a possibilidade de rever, criticamente, um período que ele viveu e de entender melhor muita gente que ele conhece e com quem se dá o seu dia-a-dia. Todos os acontecimentos são verosímeis. E a técnica utilizada para os narrar andará próxima do folhetim, que, tendo marcado épocas e gerações, pode retomar o gosto pela vida na sequência desta experiência”.

Luís de Sttau Monteiro explicou o título do seu tele-romance da seguinte forma: «A dado passo, perante as transformações operadas na pequena Vila Nova da Galé, diante do bulício do verão, há um personagem que deseja, muito firmemente: ‘Oxalá volte a chuva na areia, para apagar o rasto do verão, para nos devolver a vila’».

Ao contrário das duas novelas anteriores, Vila Faia e OrigensChuva na Areia foi integralmente produzida pela RTP, não havendo recurso a uma produtora externa.

As gravações ocorreram integralmente em Tróia. Para o efeito, foi construída uma cidade cenográfica pelo arquiteto Conde Reis. Os interiores foram montados num pavilhão cedido pela Armada Portuguesa.

A cidade cenográfica em construção

Telejornal de 11/12/1984 mostrou algumas imagens da apresentação de Chuva na Areia à imprensa.

Virgílio Teixeira
Mariana Rey Monteiro
Carlos Wallenstein e Mariana Villar
Carlos César e Melim Teixeira
Luís de Sttau Monteiro, Paulo Morais e Nuno Teixeira
Maquete da cidade cenográfica

Foi criada uma grande expectativa em torno da estreia desta telenovela. Chuva na Areia começou por ser anunciada para substituir O Bem-Amado, em novembro de 1984. Porém, por razões de estratégia da programação, a RTP decidiu aguardar o final de Guerra dos Sexos, agendando Chuva na Areia só para 1985. Entretanto, todas as semanas, a imprensa dedicava vastos artigos à nova novela, muito aguardada pelo facto de ser da autoria de Luís de Sttau Monteiro, prestigiado dramaturgo e autor de várias obras premiadas como Felizmente há luar.

O facto de Chuva na Areia vir logo a seguir à exibição de algumas das melhores telenovelas brasileiras de sempre (O Bem-AmadoGuerra dos Sexos e a reposição de Gabriela) também pode ter contribuído para que o público estivesse mais exigente em relação à terceira telenovela portuguesa.

Além disso, faziam parte do elenco de Chuva na Areia António Lopes Ribeiro e Virgílio Teixeira, nomes bastante conhecidos do cinema português, mas que não era frequente serem vistos na televisão.

Quando Chuva na Areia estreou, as opiniões divergiram bastante.

Por um lado, o público habitual das telenovelas não reagiu muito bem ao uso de calão por parte de muitas das personagens. Logo no primeiro capítulo, dona Odete (Alina Vaz) manifesta a sua frustração por viver numa vila tão pacata como Vila Nova da Galé, referindo-se à fictícia localidade como “esta merda desta terra”.

Nas cenas passadas na taberna do Leopoldo (Rui Luís), também abundava a linguagem popular, sendo vários os episódios em que o vinho é comparado a “mijo de burra”.

A descrição que Caniço (Nuno Melo) faz das suas aventuras sexuais com uma turista americana (Maria Dulce), e do momento em que esta lhe mostrou os seios, também chocou os setores mais tradicionais, ainda que houvesse quem visse nestas incursões um grande avanço na teledramaturgia portuguesa.

Caniço foi aliás uma das personagens que mais êxito obteve. Apesar do comportamento libertino e da sua morte um tanto inusitada (ele amputa o próprio sexo na praia de Vila Nova da Galé), Caniço ganhou a simpatia do público e o ator Nuno Melo é lembrado até hoje pelo seu desempenho.

Na primeira metade da novela, cada capítulo tinha um prólogo com uma curta crónica sobre Vila Nova da Galé e seus habitantes. O narrador era o ator Carlos Daniel, que também integrava o elenco.

O programa Panorama exibido no dia 22/03/1985, apresentado por Raul Durão, promoveu uma mesa-redonda dedicada a Chuva na Areia.

Participaram no debate: Edite Estrela (professora de Língua Portuguesa), Rolo Duarte (colunista de espetáculos), Rui Tato Marinho (juiz desembargador, representante da CNAF – Confederação Nacional de Associações de Família), Luís de Sttau Monteiro (autor), Paulo Morais (produtor) e Nuno Teixeira (realizador).

Edite Estrela
Rolo Duarte
Luís de Sttau Monteiro
Rui Tato Marinho
Paulo Morais
Nuno Teixeira

Neste programa, foram divulgados os resultados de uma pesquisa encomendada pelas Direções de Programas e de Informação da RTP, sobre telenovelas em geral e sobre Chuva na Areia em particular, que demonstrava que pouco mais de metade dos inquiridos tinha uma opinião desfavorável sobre o tele-romance.

Régis Cardoso esteve em Portugal em 1984 e assistiu a algumas gravações. A sua opinião, no entanto, não foi muito favorável. O conhecido realizador brasileiro criticou o ritmo da telenovela, que achou demasiado lento para uma produção deste género.

José Wilker também esteve em Portugal, mas em 1985, e assistiu a alguns capítulos de Chuva na Areia. Nove anos depois, ele confessaria ao jornal O Globo que foi uma das piores coisas que viu em televisão, apesar de se ter divertido imenso.

Entretanto, a telenovela também recebeu alguns elogios por parte de Baptista-Bastos e de Alina Vaz, a dona Odete.

Chuva na Areia foi a primeira telenovela portuguesa de época. Passada nos anos 60, são várias as referências à ditadura, a Salazar e à PIDE. O filho de Mimoso (Rogério Paulo), por exemplo, é perseguido e preso pela polícia política. Por seu turno, o prior de Vila Nova de Galé encontra alguma resistência dentro da Igreja Católica devido às posições que toma ao seguir a sua consciência. Por ironia do destino, esta personagem foi interpretada por António Lopes Ribeiro, que é considerado o “Cineasta do Regime”, pelo facto da sua obra cinematográfica, numa determinada época, ter sido dedicada aos atos oficiais do Estado Novo. Destacam-se nesse período Manifestação Nacional a Salazar e Portugal de Luto na Morte de Salazar.

A banda sonora foi lançada pela Transmedia, num LP com 13 músicas:

GENÉRICO DE ABERTURA
O MAR EM QUE TE DESPES – Lena d’Água (tema de Guida)
TARDE DE NUNCA
QUALQUER COISA QUE LHES FALTA – Carlos do Carmo (tema geral)
VIAGEM
A MEIO CAMINHO – Fernando Girão (tema de Caniço)
MEIO-DIA
ANA DO MAR – Teresa Silva Carvalho (tema de Ana)
VALSA
PARA LÁ DAS DUNAS
LITORAL
FADO DO PESCADOR – Vicente da Câmara (tema dos pescadores)
GENÉRICO DE FECHO

Os capítulos da última semana foram introduzidos com as versões integrais de cada um dos temas cantados, sobre uma montagem com imagens dos respetivos personagens.

TV Guia lançou uma revista semanal exclusivamente dedicada a esta telenovela. Curiosamente, os resumos de A Sucessora, telenovela que era exibida na mesma altura, não eram divulgados nessa publicação. Diferentemente, as revistas editadas pela Agência Portuguesa de Revistas procuravam ter o resumo não só da novela que se baseavam, mas também de alguma outra que estivesse em exibição simultaneamente.

No 14º e último número da revista, foi publicado um excerto do romance Agarra o Verão, Guida, Agarra o Verão, mais precisamente a passagem em que ocorre a morte dos alemães. Contrariamente ao que acontece no tele-romance – em que apenas Herr Neuber (Carlos Wallenstein) é morto –, a morte aqui descrita com maior detalhe é a de Herr Schmidt (António Rama).

Em 1987, Óscar Acúrcio participou na sessão experimental do concurso Saber a Valer, apresentado por Júlio César. Foi-lhe questionado o título do romance que dera origem a Chuva na Areia, pergunta à qual o ator não soube responder.

Em 1989, a novela foi reposta de 18/09 a 14/11. Foram exibidos dois capítulos por dia, no horário das 14:15, na RTP 1.

Nesta ocasião, a TV Guia fez uma reportagem revelando o paradeiro dos atores que integravam o elenco jovem da novela: Natália Luiza, Nuno Melo, Luísa Roubaud, Jorge Machado e Filipa Cabaço. Os três últimos tinham abandonado a carreira de atores.

Em entrevista ao programa Heranças d’Ouro, da RTP Memória, Virgílio Teixeira considerou a participação em Chuva na Areia uma experiência “monótona”.

Afirmou, contudo, ter gostado bastante de contracenar com Mariana Rey Monteiro.

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Chuva na Areia