Cinzas

Exibição:
14/09/1992 – 09/04/1993 (RTP 1)
19/09/1992 – 10/04/1993 (RTP 2)

Número de capítulos:
150

Um original de:
Francisco Nicholson
Ângelo Granja

Música original:
Thilo Krasmann

Produtora:
Rosário Feliciano

Realização:
Régis Cardoso

Produção:
NBP

Elenco:
Alberto Marques – Alberto
Alda Pinto – Tia Maria
Alexandra Pimentel – Kátia
Alexandre Veiga – Jorge Antunes
Amílcar Botica – chefe de redação
Anabela – Susana
António Aldeia – E. Campos
André Gago – Carlos Veiga
Ana Bastos – Milu
Anna Paula – Ana Botica
António Montez – Amílcar Santos
Armando Cortez – Rui Veiga
Artur Ramos – Dr. Boaventura
Benjamim Falcão – Tomás
Camacho Costa – Comandante Ramalho
Carlos Areia – Juvenal
Carlos Aurélio – Agente Amorim
Carlos Gonçalves – Choné
Carlos Macedo – Lindo
Carlos Zel – Miguel
Catarina Matos – Etelvina
Cremilda Gil – Gracinda
Cristina Areia – enfermeira
Eduardo Viana – Sequeira
Elisabete Cravinho – prostituta
Fernando Ferrão – Avelar
Fernando Mendes – Luís Botica
Filipe Dias – Toninho
Francisco Nicholson – Dr. Reboredo
Gabriel Leite – Adalberto
Gil Vilhena
Hermínia Tojal – Lúcia
Isabel Mota – Eugénia
Joaquim Nicolau – Agente Louro
João Grosso – John Edward
João Loy – Ribeiro
João Veiga – Cerdeira
Jorge Sequerra – Celso
Jorge Silva – advogado
José Eduardo – psiquiatra
José Gomes – Major
José Raposo – Tadeu Dias
Julie Sergeant – Sofia
Júlio César – Jaime Abreu
Ladislau Ferreira – Padre Rovisco
Luís Alberto – Inspetor Duarte Saavedra
Luís Esparteiro – Capitão Eurico
Luís Lucas – Calheiros
Luís Pavão – médico que opera Pedro
Luís Testa – Joel
Helena Isabel – Mariana Antunes
Helena Laureano – Anabela Santos
Mafalda Drummond – Leonor
Magda Cardoso – Laura
Manuel Arouca – Hélder
Manuel Wiborg – 
Manuela Maria – Odete Santos
Márcia Breia – Alice Amaral
Maria João Bastos – Maria João
Maria João Luís – Matilde Veiga
Mariana Rey Monteiro – Maria Antónia
Mila Ferreira – prostituta
Morais e Castro – Joaquim Botica
Nicolau Breyner – Securas (Afonso)
Ricardo Carriço – Pedro Veiga
Rita Loureiro – Quica
Rosa Alexandra – Luísa
Rosa Areia – Albertina
Rosa do Canto – Amélia
Rui Luís – Romão
Rui Mendes – Eduardo
Sofia Nicholson – Adelina
Sofia Sá da Bandeira – Marta Ferraz
Teresa Côrte-Real – Maria Adelaide
Toscano Vieira – Inácio
Vieira de Almeida – Campos
Vítor Norte – Donato

No Pinhal de São Torcato, em pleno Ribatejo, é provocado um incêndio por mão criminosa. Os bombeiros são chamados por Securas (Nicolau Breyner), um bêbado que ali dormia. Entre as cinzas, é encontrado o esqueleto de alguém que aparenta ter morrido há mais de 25 anos. O aparecimento deste corpo faz renascer acontecimentos há muito esquecidos.

Ali perto, na Herdade de Todos-os-Santos, mora a família Veiga. O patriarca é o viúvo Rui Veiga (Armando Cortez). Com ele moram os filhos Pedro (Ricardo Carriço), engenheiro agrónomo, extremamente agarrado ao mundo rural e nada virado para os negócios; e a problemática Matilde (Maria João Luís), uma neurótica depressiva, casada com o boémio e manipulador Jaime Abreu (Júlio César). Carlos (André Gago), o terceiro filho, mora em Lisboa, onde dirige a empresa-mãe da família, a Veimar.

Rui Veiga herdou o património do sogro, Raimundo Amaral (Luís Santos), pai da falecida Ester e de João Eduardo Amaral, que se crê ter morrido na guerra colonial. Mas rapidamente nos apercebemos de que ele está vivo: trata-se de Eduardo (Rui Mendes), dono de uma tasca no Bairro Alto – onde se come bem e bebe ainda melhor –, que explora com a mulher, Alice (Márcia Breia), e a filha, Sofia (Julie Sergeant).

João Eduardo sentiu-se traído e nem sequer pode ouvir falar na família Veiga sem que a cabeça lhe lateje. A marosca é fácil de contar: Rui, sabendo da predileção do sogro por João Eduardo, e receando um eventual benefício do cunhado no testamento do sogro, escondeu as cartas enternecidas de Raimundo para o filho. Para Rui, Eduardo era uma pedra no caminho na estrada íngreme da ascensão. Para além do muito que herdaria a mulher, queria o muitíssimo que o sogro tinha. Combalido pelas feridas da guerra e sem desconfiar de nada, João Eduardo levou a sério a desconsideração do pai. Não compreendia a atitude de Raimundo e, regressando a Portugal com paludismo, vetou a família ao esquecimento.

No início da história, volta a Portugal, após uma ausência de décadas, a tia da falecida mulher de Rui Veiga, Maria Antónia (Mariana Rey Monteiro), que é dona do Solar do Mirante, antiga casa grande da família Amaral, e de uma fortuna colossal, fruto de investimentos certeiros nos negócios e nos casamentos. Rui, hábil negociador, vê no regresso da tia a oportunidade perfeita para unir o património e propõe à recém-chegada uma participação nos negócios da Veimar. É que a empresa navega num mar de ondas incertas: a frota da Veimar está desgastada e a necessitar de reparações urgentes para não ficar a ver navios nos cais da CEE. Para levar a cabo a renovação da frota, os cofres da Veimar estão ávidos de dinheiro, que os bancos em uníssono negam, argumentando de que o incêndio e o aparecimento do cadáver em propriedade dos Veigas lhes cheira a esturro. A oportunidade de redenção parece clara para Rui: só Maria Antónia lhe pode valer. Galante, tenta falar-lhe ao coração, mas percebe que Maria Antónia o tem bem empedernido. Nem quando, sentimental, a pede em casamento, a tia desfaz o cubo de gelo, prometendo pensar. Prefere não se precipitar e manter as ânsias de Rui em banho-maria. Manda chamar a consultora financeira Laura (Magda Cardoso) que vem de Sydney para fazer um check-up à saúde das empresas Veiga, exigindo uma auditoria financeira.

Mas Maria Antónia também guarda esqueletos no armário: esconde que tem um filho que mora com ela na Austrália, John (João Grosso), cujo pai se chama Afonso. Os espectadores conhecem-no por… Securas. Se agora é apenas um bêbado, no passado foi polícia e, desgostoso por Maria Antónia ter partido, abalou para África. Declarou guerra aos facínoras e, disfarçado de bandido, infiltrou-se num bando perigoso cujo cabecilha, belga, se dedicava ao tráfego de diamantes, transportados em contentores de madeiras. Lá, travou amizade com um dos membros do grupo, Romão (Rui Luís), com quem desenvolveu forte afetividade. Tornaram-se unha e carne, desconhecendo o meliante que não puxavam para o mesmo lado. Hoje, Afonso é um farrapo. Coberto de andrajos, vive ao deus-dará, para lá do sol-posto, e diz que se chama Securas. A alcunha vem do facto de ter a boca seca e uma voraz sede por vinho. Romão é o tasqueiro de São Torcato.

Carlos está noivo de Anabela (Helena Laureano), filha de Amílcar Santos (António Montez), homem rancoroso, boçal e sem caráter, que pretende vingar-se de Rui Veiga por este ter o ter vigarizado num contrato de promessa de venda do Solar do Mirante e do Pinhal de São Torcato, valendo-se da sua manha enquanto notário. Ostensivo e grotesco, Amílcar, arregala os olhos, lambe os beiços pelo revés dos Veigas e, manhoso, arquiteta um plano para abocanhar o império com que sempre sonhou. Começa por São Torcato, para onde manda o homem de mão Sequeira (Eduardo Viana). Na vila, este apresenta-se como Silvestre e canta a canção do bandido, excitando São Torcato com a promessa de investir em massa no clube da terra, ao qual os Veiga devotam pouca atenção, mesmo sendo Pedro Veiga o seu presidente. Silvestre solta trunfo para a mesa e coloca acendalha no prestígio da família: propõe Romão para ser o líder do clube e larga promessas de que o clube irá competir ombro-a-ombro com os mais pintados clubes nacionais. E mais: adorna de escudos a caixa das esmolas do Padre Rovisco (Ladislau Ferreira) e espalha à boca solta, por entre copos e dominó, na tasca de Romão, que é especulador imobiliário e que o Pinhal de São Torcato lhe interessa. O zunzum chega aos ouvidos de Rui Veiga, que de um momento para o outro já não se importa de vender o pinhal.

Para além do incêndio, outros factos começam a prejudicar gravemente a imagem da família Veiga e das suas empresas. Em São Torcato, aparece mais um morto: Severino, um antigo maioral da Herdade de Todos-os-Santos, com contas antigas a ajustar com o atual caseiro, Joaquim Botica (Morais e Castro). A animosidade entre ambos nunca foi segredo. Entre os dois e Ana (Anna Paula), mulher de Joaquim, havia um pacto que só conhecemos no final da novela. Poucos dias depois, é Romão que surge enforcado na adega da herdade, com visíveis sinais de estrangulamento.

Mais tarde, a polícia encontra contrabando num dos navios da Veimar, o Aurora, cujo capitão Tomás (Benjamim Falcão) é encontrado com droga no tabaco. Também o crime tem impressão digital de Amílcar, embora tenha sido Sequeira a sujar a mão e a carga. Amílcar recruta ainda outro homem de mão: Jaime Abreu. Alicia-o para seu lado, acenando-lhe com a promessa de que terá, como presidente da Veimar, aquilo que os Veiga nunca lhe deram: poder e dinheiro. Depressa, Jaime mete mãos à obra e rouba os salários da Veimar, fazendo com que as culpas recaiam em Jorge (Alexandre Veiga), filho da secretária da administração, Mariana Antunes (Helena Isabel) e de Rui Veiga, paternidade só mais tarde revelada.

Por seu lado, Carlos, que aparentava ser um empresário exemplar, mete-se numa trapalhada acumulando dívidas de jogo e, ameaçado de morte, foge para o Brasil, delapidando o património da empresa. Durante um atentado no seu apartamento, bandidos confundem Pedro com o irmão e alvejam-no, deixando o cavaleiro em perigo de vida. Pedro recupera, mas o coração de Rui, fragilizado a cada abalo, não aguenta e morre, velado por Ana, a mãe de mais um filho que a história atribuiu a Rui: Luís (Fernando Mendes). Não chega a saber que foi Matilde, num dos seus momentos agudos de neurose, que deitou fogo ao pinhal. Quem o descobriu foi Jaime, que, na cadeia para onde vai pelas aldrabices que praticou na Veimar, o revela à mulher, exibindo-lhe o anel que esta deixara fortuitamente no meio das cinzas… para onde vão ser atirados os fragmentos e lembranças desta história de vida de um homem que firmou um pacto com Deus e com o Diabo e que aprendeu, por si, que todo o homem é pó e em pó se há de transformar…

Família Veiga

Rui Veiga (Armando Cortez)
Na casa dos 70 anos, a vida dele é um enigma. Era o notário de São Torcato quando, no regaço, lhe caiu em amor Ester, herdeira de uma das mais sólidas fortunas da região. Aproveitou a oportunidade: oficializou o amor, teve três filhos e tornou-se num dos mais abastados proprietários rurais e empresários de maior renome do país. É o presidente da Veimar, embora esteja afastado dos negócios, deixando-os entregues ao filho mais velho, Carlos. Sagaz e expedito, para ele tudo é negócio. Gosta de se dar bem com Deus e com o Diabo.

Carlos Veiga (André Gago)
O filho mais velho. Presidente da Veimar, é leviano nos negócios e no amor. Namora com Anabela Santos, mas vai piscando o olho a parte do elenco feminino da novela…

Pedro Veiga (Ricardo Carriço)
É engenheiro agrónomo acabado de formar, mas é a tauromaquia a sua verdadeira vocação. Todos o gabam pelo porte e pela perícia com que lida com cavalos e touros. Vai apaixonar-se por Marta Ferraz, jornalista da RTP, apesar de inicialmente existir entre eles uma antipatia mútua.

Matilde Veiga (Maria João Luís)
A filha problemática. Culpa o pai pela morte da mãe e vive em conflito com Rui. Sofre de uma neurose depressiva que lhe transforma a personalidade. Tem um casamento de fachada com Jaime Abreu, que lhe agrava o mau humor. Adora Pedro.

Jaime Abreu (Júlio César)
Ex teddy boy de Coimbra, cursou Direito. Casou com Matilde por exigência de Rui. Ocupa um cargo de fachada numa das empresas da família, mas nunca trabalhou. Bem-falante, sente-se um outsider na família. Desprezado por todos os Veigas, alia-se ao inimigo… É viciado no jogo e em mulheres.

Maria Antónia (Mariana Rey Monteiro)
Tia de Ester, regressa da Austrália para procurar saber a verdade sobre o desaparecimento do sobrinho João Eduardo e acertar as contas com o passado. É rica e casou duas vezes. As evasivas de Rui cheiram-lhe a esturro. Tem uma verdadeira adoração pela sobrinha Matilde. Esconde que teve um filho de um grande amor. Após uma temporada na Herdade de Todos-os-Santos, mudar-se-á para o Solar do Mirante.

Raimundo Amaral (Luís Santos)
O pai de Ester e de João Eduardo. Lavrador pão-pão-queijo-queijo. Tinha um orgulho doentio. Não gostava de Rui Veiga. Aconselhava-o a “acontecesse o que acontecesse, não se desfazer do pinhal de São Torcato” e pedia-lhe que não deixasse que “ninguém fizesse mal a João”.

Ester Amaral (Maria João Luís)
A cara chapada de Matilde. Aparece no sótão do solar à filha.

Família Santos

Amílcar Santos (António Montez)
Nos negócios chamam-lhe abutre e ele, garboso, agradece o epíteto. É casca-grossa, boçal e um empresário de sucesso no ramo transitário. Veio do nada e agora sente-se com tudo. Tem uma parte pequena nas empresas Veiga e não descansa enquanto não ajustar as contas com Rui e lhe arrebatar o império. Diz que é um homem de boas contas e tem como lema: “quem nasceu para vinte escudos nunca chega ao conto de reis”.

Odete Santos (Manuela Maria)
Mulher de pouca instrução, nova-rica, calada era poeta! Casada com Amílcar, de quem recebe bofetões e jóias. Suporta as humilhações calada e ameaça pedir o divórcio a Amílcar. Não o faz para não desgostar os filhos. Teme envergonhar a filha. Vai ter aulas de etiqueta.

Anabela Santos (Helena Laureano)
Insegura, sentimental e ciumenta, é a última das românticas. Ama Carlos Veiga e tem medo de não ser correspondida. É arquiteta. Tem uma química com Pedro, que lhe chama a “cunhadinha favorita”.

Toninho (Filipe Dias)
Filho mais novo de Amílcar e de Odete. Traquina e irrequieto, desespera os pais. Diz ter um romance com Milu, a secretária de Amílcar, para regalo de Amílcar, que aplaude as liberdades “precoces” do rapaz.

Milu (Ana Bastos)
Secretária de Amílcar. Não tem a massa cinzenta de um Einstein, nem grande apetência para o cargo. Um palminho de cara é tudo quanto parece poder oferecer. E whiskies às visitas…

Sequeira (Eduardo Viana)
Homem de mão de Amílcar. Jagunço para todo o serviço. Apresentando-se como Silvestre, vai para São Torcato disfarçado de especulador imobiliário disposto a comprar o Pinhal.

Albertina (Rosa Areia)
Empregada doméstica da casa dos Santos. Aflige-lhe que a patroa fale sozinha, o que pensa ser culpa do “malandro” do marido. Não gosta da nova decoração da casa.

Lúcia (Hermínia Tojal)
Professora de etiqueta de Odete. Gosta de ragu.

Quica (Rita Loureiro)
Contratada por Odete para dar explicações a Toninho. Não sabe dizer quem foi o segundo rei de Portugal, porque para ela só “o primeiro é que importa”. Engalfinha-se com Milu pelo coração de Amílcar, que carinhosamente apelida de “Santinhos”…

Família Amaral

Eduardo (Rui Mendes)
Dono de uma tasca no Bairro Alto, com boa comida e onde às sextas-feiras se ouve o fado vadio. Esconde o passado de todos. Sabe-se apenas que andou na guerra e de lá veio com paludismo. Interessa-se pelos Veiga e, quando eles vão ao seu restaurante, esconde-se alegando dor de cabeça…

Alice Amaral (Márcia Breia)
Mulher de Eduardo. Uma cozinheira de afamados dotes. Ajuda o marido a exorcizar os fantasmas, embora também os tenha na cabeça pensando que o marido a trai…

Sofia (Julie Sergeant)
Bonita, castiça, de língua solta, estuda no ISEG. Para desgosto do pai, namora, Jorge Antunes, a quem ele chama, jocosamente, de “choninhas”.

Etelvina (Catarina Matos)
Irmã de Luísa. Trabalha como empregada no restaurante do Bairro Alto. É quase como uma meia-irmã de Sofia.

Alberto (Alberto Marques)
Um dos clientes mais regulares do estabelecimento de Eduardo, onde gosta de mandar umas “bocas”. Eduardo está sempre a mandá-lo dar uma volta, e ele volta sempre…

Cliente (Gil Vilhena)
Outro frequentador assíduo do restaurante, onde passa o tempo na cavaqueira com Eduardo e Alberto.

Veimar

Mariana Antunes (Helena Isabel)
A secretária da administração da Veimar. Mãe solteira de Jorge, cria o filho sem o deixar libertar-se da asa. É uma mulher amargurada pela vida. Não acha muita piada ao cozido à portuguesa da tasca de Eduardo, nem ao namoro do filho com Sofia. Devota aos Veigas. Tem asco a Amílcar, de quem foi secretária.

Jorge Antunes (Alexandre Veiga)
Filho de Mariana. Colega e namorado de Sofia. Surfista nas horas vagas, sonha andar na crista da onda. Recrimina Mariana por não lhe ter dado um pai rico. Vai trabalhar para a Veimar para não sobrecarregar a mãe. Vê Leonor não como ela queria que ele o visse, mas como amiga.

Leonor (Mafalda Drummond)
Secretária da direção da Veimar. Tem uma paixoneta por Jorge e é capaz de tudo para tirar Sofia do caminho.

Tomás (Benjamim Falcão)
Um lobo-do-mar. Capitão de confiança de Carlos Veiga, é o capitão responsável pela última viagem do navio Aurora, que vai acabar mal. Gosta de caldeiradas, mas não vai achar muita graça à caldeirada que o espera…

Eugénia (Isabel Mota)
A mulher de Tomás. Irmã de Leonor. Azeda, não acha piada às partidas do marido para o mar, e ficará com a mostarda no nariz por causa da partida que Sequeira lhe pregará. Tudo fará para sustentar a inocência do marido, culpando Carlos pelo caso.

Susana (Anabela)
Filha de Tomás e de Eugénia. Cantadeira de fado, a contragosto, para delícia da mãe. Tem voz de rouxinol e solta-a no restaurante de Eduardo.

Maria João (Maria João Bastos)
Administrativa estagiária da Veimar. Jaime faz-se a ela, convidando-a para jantar, mas ela pergunta-lhe se pode levar o namorado, deixando-o colérico…

Joel (Luís Testa)
O responsável pelo circuito das transmissões rádio para o Aurora. Quer regular os “agudos” que interferem no satélite…

Empregados da Herdade de Todos-os-Santos

Joaquim Botica (Morais e Castro)
Homem do campo. Nasceu e cresceu para servir. Maioral da Herdade de Todos-os-Santos, serve a família Veiga sem pestanejar. Pelos Veigas, é capaz de tudo…

Ana Botica (Anna Paula)
Governanta da casa dos Veiga. Mulher cismática, rezingona, azeda. É devota de Rui Veiga. Põe a cabeça em água às empregadas da casa.

Luís Botica (Fernando Mendes)
Peão de Pedro, é o homem de confiança do cavaleiro. Apaixona-se por Amélia. Nunca quis estudar, para desgosto de Ana.

Amélia (Rosa do Canto)
Empregada de dentro dos Veiga. Apaixona-se por Luís e engravida dele. Castiça e respondona. Ana bem tenta encurtar-lhe a rédea…

Luísa (Rosa Alexandra)
Irmã de Etelvina, cresceu num colégio de freiras. Apaixona-se por Tadeu. E suspira por Pedro, a quem trataria por “amor”, se ele a deixasse…

São Torcato

Securas (Nicolau Breyner)
Um bêbado. Andrajoso e maltrapilho. É o primeiro a dar o alerta do incêndio em São Torcato. Bebe para esquecer o passado. Pouco sabemos dele. Vive para lá do sol-posto. Não gosta de tomar banho. Esconde muitos outros segredos e sabe muito mais do que diz…

Romão (Rui Luís)
O dono da taberna de São Torcato. Anda sempre às turras com Securas, de quem se queixa que lhe empesta a tasca e de cuja fidelidade duvida.

Mulher de Romão
Ajuda o marido na tasca, faz caracóis como ninguém e vai jogar ao gato e ao rato com a Polícia Judiciária após a morte do marido.

Gracinda (Cremilda Gil)
Vive em São Torcato. Apaixonada por Securas, vai ajudá-lo na taberna. Gosta muito de Maria Antónia, de quem conhece alguns segredos.

Inácio (Toscano Vieira)
Morador em São Torcato. Trabalhador nas vinhas dos Veigas. Um dos mais indefetíveis sócios do Clube de São Torcato, do qual é tesoureiro.

Choné (Carlos Gonçalves)
Pobre coitado sem eira nem beira. Aparece em São Torcato a dizer que Maria Antónia é a sua mãe. Sonha em ser polícia. Gosta mais de leite do que de vinho, mas bebe sempre um gole do copo dos clientes da tasca.

Padre Rovisco (Ladislau Ferreira)
O pároco local. Dá a catequese. Uma santa alma atenta às esmolas…

Comandante António Ramalho (Camacho Costa)
O chefe do posto da GNR. Acha-se muito competente, embora seja facilmente influenciável.

Cabo Tadeu Dias (José Raposo)
Engraçado e eficiente. Gosta de futebol. Embeiça-se por Luísa, com quem anda à turra e à massa.

Cabo E. Campos (António Aldeia)
Cabo de esquadra. Entra mudo e sai calado.

Severino
Antigo maioral de Todos-os-Santos. Feitio difícil, desapareceu em circunstâncias misteriosas, sendo substituído no cargo por Joaquim Botica, com quem tinha relação conflituosa. Aparece para morrer.

Polícia Judiciária

Agente Campos (Vieira de Almeida)
Agente da PJ encarregue de investigar a identidade do esqueleto que aparece no pinhal de São Torcato, no meio das cinzas. Sonha com uma promoção. Acha bucólica a vida em São Torcato. Cínico, desconfia de tudo e de todos.

Agente Avelar (Fernando Ferrão)
Tem azia e problemas estomacais. Apreciador de caracóis. Não gosta quando Securas lhe chama a ele e a Campos “o casalinho seleto”…

Inspetor Duarte Saavedra (Luís Alberto)
Inspetor-chefe da PJ. Responsável máximo pela investigação, demonstra não ter muita mão nos agentes.

Agente Louro (Joaquim Nicolau)
Agente da Judiciária.

Agente Amorim (Carlos Aurélio)
Agente da Judiciária.

RTP

Marta Ferraz (Sofia Sá da Bandeira)
Jornalista da RTP em início de carreira, vai cobrir o incêndio no Pinhal de São Torcato. Encanta-se por Rui Veiga e mais ainda por Pedro Veiga…

Adelina (Sofia Nicholson)
Jornalista da RTP. Filha de imigrantes. Amiga, confidente, o ombro amigo de Marta.

Celso (Jorge Sequerra)
Operador de câmara da RTP. Tem um fraquinho bem forte por Marta. Ressabiado por não ser correspondido, denuncia-a ao sindicato.

Chefe de redação (Amílcar Botica)
Nas palavras de Marta, é um “chato.” Ele devolve a gentileza dizendo que “és muito bonitinha, mas muito chatinha”. É um burocrata.

Outros personagens

Hélder (Manuel Arouca)
Arquiteto, trabalha com Anabela. Um dos criadores do projeto “Cidade do Século XXII”.

Kátia (Alexandra Pimentel)
Pretensamente, a melhor amiga de Anabela e a devota mulher de Hélder. Uma santa que vira cabra, quando ele a encontra na cama de Carlos. “Tomava conta da avozinha enferma”, segundo o marido. Afinal, as contas eram outras…

Cerdeira (João Veiga)
O outro arquiteto com quem Anabela e Hélder dividem o atelier.

Laura (Magda Cardoso)
A contabilista de Maria Antónia. Racional e pragmática. Vem da Austrália para aconselhar a tia dos Veigas a não investir na Veimar. Rui não lhe acha muita piada, não pela competência, mas pelo seu lado inquisidor, meticuloso e sobretudo por ser mulher de “nariz empinado”.

John Edward (João Grosso)
Filho de Maria Antónia. Vem a Portugal para conhecer a família e ajudar a mãe a decidir-se acerca do investimento na Veimar, investindo ele próprio no amor…

 (Manuel Wiborg)
Marginal, tenta levar o “lindinho” Jorge à certa, reduzindo-o a pó…

Lindo (Carlos Macedo)
Comparsa de Tó.

Psiquiatra (José Eduardo)
Segue Matilde e Eduardo.

Calheiros (Luís Lucas)
O apoderado de Pedro. Meigo e simpático. Conquista Matilde…

Miguel (Carlos Zel)
Cantador de fado e amigo dos Veiga. Boémio. O primeiro a notar a proximidade entre Calheiros e Matilde.

Capitão Eurico Marques (Luís Esparteiro)
Dono de uma empresa de segurança. Maria Antónia contrata-o para descobrir o paradeiro do sobrinho desaparecido. E, quando desaparecem os escudos da Veimar, a sua empresa de segurança é posta à prova e em causa…

Ribeiro (João Loy)
Um dos investigadores de Eurico.

Major (José Gomes)
Major da Capitania Marítima. O responsável pela apreensão do navio Aurora.

Reboredo (Francisco Nicholson)
Advogado de Jaime Abreu.

Advogado (Jorge Silva)
Defende Jorge e Carlos.

Médico (Luís Pavão)
Chefe da equipa de cirurgia que opera Pedro. Resmunga contra o circo mediático montado no hospital. É prudente nos prognósticos e diagnósticos.

Vila Faia foi a primeira novela que se fez em Portugal. Dez anos depois, Cinzas inaugurou uma nova era de produção nacional em série. A última telenovela fora Ricardina e Marta (1989), que passou despercebida, acabando por ser exibida como série.

A produção coube à NBP, produtora de Nicolau Breyner que estava no seu início e que tem sido, até aos dias de hoje, responsável pela grande maioria das telenovelas portuguesas. Atualmente, labora com o nome de Plural Entertainment.

A pouca experiência e os anos de hiato fizeram-se sentir nos primeiros capítulos. Contudo, a novela rapidamente engrenou, obtendo um relativo êxito.

A novela foi exibida no Canal 1 de segunda a sexta ao fim da tarde, antes do Telejornal.

Ao sábado à tarde, era exibido, na TV 2, um compacto dos episódios da semana.

À frente da realização, esteve o brasileiro Régis Cardoso, cujo trabalho conhecíamos da novela O Bem-Amado, exibida entre nós em 1984. O realizador permaneceu em Portugal por mais alguns anos, realizando ainda Verão Quente e Na Paz dos Anjos.

Ângelo Granja, Francisco Nicholson, Nicolau Breyner e Régis Cardoso no lançamento da novela

No dia da estreia, foram mostradas algumas imagens de bastidores no Chá das Cinco, apresentado por Ana Bola.

Mariana Rey Monteiro, Maria João Luís e Júlio César deram breves depoimentos à equipa de reportagem.

Sofia Sá da Bandeira, intérprete de Marta Ferraz, foi uma das convidadas do programa.

As cenas exteriores da Herdade de Todos-os-Santos foram gravadas na Quinta de São Sebastião, em Arruda dos Vinhos. A quinta é propriedade de António Parente, um dos fundadores da NBP.

Carlos Zel, o intérprete de Ribatejo – um dos principais temas musicais de Cinzas –, participou na novela também como ator. Em algumas ocasiões, também cantou em cena.

Carlos Zel (à direita) em cena com Luís Lucas

Manuel Arouca, que mais tarde assinou a autoria de algumas telenovelas, atuou na novela como colega de Anabela (Helena Laureano) e marido de Kátia (Alexandra Pimentel), a amante de Carlos (André Gago).

Cerdeira, o outro colega de Anabela, era interpretado pelo guitarrista João Veiga.

João Veiga e Manuel Arouca

Ainda muito “verdinha”, Maria João Bastos teve em Cinzas a sua estreia televisiva.

Outra participação curiosa foi a da cantora Anabela, que por várias vezes apareceu a cantar o fado.

Anabela com Isabel Mota, sua mãe na novela

Enquanto a novela ainda estava no ar, sagrou-se vencedora do Festival RTP da Canção de 1993, com o tema A Cidade (Até Ser Dia).

Cinzas contou ainda com a participação especial do lendário Manuel Bento, como ele próprio, numa ocasião em que Sequeira (Eduardo Viana) tenta convencê-lo a trocar o Benfica pelo Clube de São Torcato. Numa cena posterior, Bento comenta o facto com um dos seus jogadores, Toni.

Mas, voltando a Vila Faia, entre ela e Cinzas, ambas assinadas por Francisco Nicholson, há muita coisa em comum. Se olharmos com atenção para o industrial Rui Veiga (Armando Cortez), encontramos nele alguns pontos de contacto com o empresário Gonçalo Marques Vila (Ruy de Carvalho): ambos são pais de três filhos (dois homens e uma mulher em Cinzas, duas mulheres e um homem em Vila Faia) que lhes comprometem a vida. Ambos têm uma filha problemática e com um parafuso a menos – Matilde Veiga (Maria João Luís) em Cinzas, Joana (Luísa Freitas) em Vila Faia; um filho sem grande apetência para os negócios e que se dedica a uma atividade de cariz recreativo – curiosamente, ambos de nome Pedro: o Veiga (Ricardo Carriço), cavaleiro tauromáquico, e o Marques Vila (Nuno Homem de Sá), boxeur; o outro filho – Carlos (André Gago) e Mariana (Paula Street) – parece ser bastante responsável, mas a trama acaba por revelar sobre ele um segredo cabeludo.

Paira também, por entre as tramas paralelas, dúvida se ambos os varões não têm filhos a quem não deram a paternidade: Jorge Antunes (Alexandre Veiga) e Luís Botica (Fernando Mendes) em Cinzas e Manuel Marinhais (Luís Esparteiro) em Vila Faia.

Não era só em casa que os protagonistas se equivaliam: tinham também uma secretária da mais profunda lealdade. Ambas foram vividas pela atriz Helena Isabel, que defendeu tanto a Mariana de Cinzas como a Inês de Vila Faia.

Mariana

As semelhanças não acabam por aqui. Se olharmos para as duas casas – a herdade da família Veiga e a mansão dos Marques Vila –, encontramos três empregadas para as servir: Ana Botica (Anna Paula) é a governanta de Cinzas, enquanto que aos comandos da casa principal de Vila Faia está a “Ti” Ercília (Adelaide João), ambas há muitas décadas ao serviço dos patrões, estimadas por eles e sempre a espingardearem com as suas ajudantes: Amélia (Rosa do Canto) e Luísa (Rosa Alexandra) em Cinzas e Lina (Isabel Motta) e Rita (Mafalda Drummond) em Vila Faia. Há, inclusivamente, uma cena idêntica nas duas novelas, em que a empregada mais velha corre atrás das outras – as “galdérias” – à volta da mesa da cozinha.

De Securas e de João Gudunha, ambos interpretados por Nicolau Breyner, curioso paralelo pode ser traçado: embora não se equivalham no contexto, estão embrulhados num forte e concreto segredo que só a narrativa revelará e sofrem aos desmandos do amor. O próprio texto e o tom de interpretação que Nicolau Breyner imprimiu a ambos os “bonecos”, muito à base de respostas irónicas, eram muito semelhantes.

Securas

Também Mariana Rey Monteiro interpretou em Cinzas uma figura similar à que fizera em Vila Faia. Maria Antónia e Ifigénia Marques Vila tinham o mesmo tipo de discurso, eram muito senhoras de si, apesar da idade avançada, desvalorizavam qualquer tipo de julgamento e abominavam todo o género de convenções sociais.

Maria Antónia com Matilde (Maria João Luís) e Anabela (Helena Laureano)

Por entre as personagens que povoam a narrativa, outras se copiam na forma, no feitio e no conteúdo: por exemplo, os agentes da PJ encarregues de deslindar os crimes que se cometem. Campos (Carlos Vieira d’Almeida) e Avelar (Fernando Ferrão) parecem ser gémeos em remoques sarcásticos e espirituosos dos “colegas” Silveira (Tozé Martinho), Nunes (Gil António) e Lino (novamente, Carlos Vieira d’Almeida).

Os agentes Avelar e Campos

Embora por outros caminhos, alguns pontos fulcrais dos enredos parecem traçados a papel químico. Assim, tanto a Veimar como a Marques Vila são assaltadas à socapa durante a noite, furto que coloca em choque e em cheque a reputação que precede as duas empresas; ambas vêem produtos seus serem alvos de contrabando: o pescado do Aurora no caso de Cinzas e o vinho remetido para o Brasil em Vila Faia. Também uma série de assassinatos compromete o bom nome das empresas e dificulta-lhes o financiamento por parte de instituições bancárias.

Não queremos, com isto, apontar dedo acusador ao autor nem insinuar que Cinzas é uma cópia escarrada de Vila Faia. Cada uma vale por si e em nenhum momento da trama nos assalta a ideia de que já sabemos como tudo acontece, podendo adivinhar o final. Colocamos aqui as semelhanças porque delas demos conta ao longo do visionamento das novelas e achamos curioso o autor trilhar alguns dos caminhos que já percorrera anteriormente, procurando outras soluções no guião.

Talvez tenha havido, contudo, um excesso de mistérios introduzidos na trama, muitos deles a terminar explicados de forma pouco clara.

Dulce Pontes esteve no concurso Parabéns no dia a seguir ao final da novela, onde interpretou o tema de encerramento – Não Pedi a Ninguém para Nascer –, que, nas palavras de Herman José, se tornara o ex-líbris da novela.

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Cinzas