Com a Verdade M’Enganas

Exibição:
03/01/1994 – 30/06/1995 (RTP 1)

Número de sessões:
380

Autoria e apresentação:
Herman José

Locução:
Cândido Mota

Assistente:
Ruth Rita

Música:
Pedro Duarte

Textos:
Joaquim Pessoa

Produção:
José Montalvão
António Barradas

Realização:
José Vitório
António Barradas

Com a Verdade M’Enganas é um concurso de televisão apresentado por Herman José, no qual competem duas equipas de dois elementos que não se conhecem entre si, formadas por sorteio – pelo sistema de bola branca/bola preta –, pouco antes do início das gravações.

O concurso desenrola-se em duas fases distintas, sendo a primeira composta por cinco jogos. A equipa que acumular a maior pontuação no conjunto das provas apura-se para a fase final.

No primeiro jogo, que dá nome ao programa, cada concorrente prepara duas afirmações sobre a sua vida pessoal ou profissional para tentar induzir a equipa adversária em erro. Os oponentes têm cinco segundos para classificar cada afirmação como “verdade” ou “mentira”. Cada resposta correta vale 20 pontos.

No segundo jogo, Herman José faz dez perguntas de cultura geral, de escolha múltipla. A equipa que carregar primeiro no detonador ganha o direito de responder. Se acertar, ganha 20 pontos; se errar, a oportunidade passa para a equipa adversária.

No terceiro jogo, Cândido Mota lê um pequeno texto e, em seguida, lê-o uma segunda vez introduzindo dez erros (palavras alteradas). Os concorrentes têm de identificar as gralhas à medida que o texto é declamado. Cada acerto dá direito a 20 pontos.

O quarto jogo desenrola-se numa “sala de torturas”, onde um porta-voz de cada equipa dispõe de 30 segundos para fazer rir um elemento da equipa adversária; vale (quase) tudo, de caretas a anedotas. A vitória nesta prova vale 40 pontos.

No quinto jogo, com uma mecânica semelhante à do terceiro, um artista português convidado interpreta um excerto de uma canção e, de seguida, repete-o com vários erros que os concorrentes têm de assinalar.

Clemente numa das suas participações no concurso

No final de cada um dos cinco jogos, realiza-se um leilão de letras, trazidas por Ruth Rita num carrinho de gelados ou em cabides. Herman José coloca a leilão uma ou mais letras presentes no puzzle final e define a base de licitação, cabendo às equipas decidir se as compram ou não.

A equipa vencedora da primeira fase avança para o Grande Prémio.

Nesta etapa final, disputada num videowall de 7×7, o objetivo é adivinhar uma palavra horizontal secreta composta por sete letras. As letras previamente compradas no leilão surgem pré-preenchidas no puzzle.

Para desvendar a palavra principal, um dos elementos da equipa assume o papel de emissor e, recorrendo apenas a gestos e sons, tem de fazer o parceiro (recetor) adivinhar as palavras dispostas na vertical (que cruzam com a palavra central). A equipa tem direito a apenas um palpite para a palavra horizontal. Se for bem-sucedida, conquista o prémio final de 600 contos para cada concorrente.

Após mais de três anos à frente de A Roda da Sorte, formato internacional que granjeou grande sucesso entre nós, Herman José sentiu a necessidade de iniciar um novo ciclo. Em novembro de 1993, o humorista confessava ao jornal A Capital que, apesar do enorme sucesso do concurso anterior, existia já uma certa exaustão. Depois de analisar vários formatos estrangeiros sem encontrar nenhum que o satisfizesse – argumentando que “não há esquemas divertidos: ou há programas de humor, ou há concursos puros e duros” –, decidiu criar o seu próprio concurso, inteiramente original.

Herman José

A principal premissa do novo formato era dar um papel mais ativo aos participantes. Como explicou Herman José: “Com a Verdade M’Enganas é um programa que, espero, vem quebrar um pouco a monotonia que, para mim, se tornou A Roda da Sorte. Depois de três anos e meio, estava farto de ser o único a «puxar a carroça» para que o programa tivesse vida. É que, pelas suas próprias características, A Roda da Sorte tinha concorrentes que pareciam estar em coma ou numa missa de corpo presente: limitavam-se a olhar para um quadro na esperança de adivinharem o que lá se encontrava. Às tantas, sentia-me um pouco como aquelas crianças que falam com um pai que está a ler o jornal e com uma mãe que está a ver a telenovela. Era como estar a falar para um boneco”.

Assim, ao contrário do formato anterior, os concorrentes passavam a intervir diretamente na vertente ligeira do concurso: “Não vão ficar estáticos a olhar; vão ser obrigados a criar também”.

Para que o corte entre um formato e outro não fosse radical, havia também um puzzle final com letras: “um fiozinho de continuidade com o concurso anterior, e dar gozo aos charadistas que gostam de tentar adivinhar, no estúdio ou em casa”.

Fiel ao lema de que “em equipa que ganha não se mexe”, Herman José assegurou a continuidade, na equipa, de Cândido Mota e de Ruth Rita.

No entanto, diferentemente da sua prestação em A Roda da Sorte, onde apenas se ouvia em off, Cândido Mota passou a dar as caras, assumindo ainda um papel preponderante numa das provas: “O Cândido vai ter a sua cabinazinha de rádio para aparecer e, finalmente, sair do isolamento da subcave. Vai estar ali no cenário, ao pé de nós, e às vezes também vai participar. Vai fazer parte da família, em vez de estar a 200 metros de distância”.

Cândido Mota

Quanto a Ruth Rita, Herman José defendeu-a com unhas e dentes: “Já me perguntaram: porque é que não mudas a rapariga, porque é que não escolhes outras caras? Eu devo dizer, se calhar pela primeira vez, que a Ruth é das melhores profissionais com quem já trabalhei. Não chega um minuto atrasada, ninguém espera por ela. Esteja doente ou preocupada – e ela já teve, embora seja muito nova, algumas preocupações na vida –, manteve sempre um sorriso. […] Não lhe subiu à cabeça o facto de se tornar conhecida, e isso é uma coisa que eu respeito. É uma grande profissionalona, e vai continuar connosco por direito próprio”.

Ruth Rita e Herman José

O cenário, concebido por Jorge Casarão, inspirava-se no universo da banda desenhada, transmitindo frescura e vitalidade. A bancada de Herman José tinha a forma de um Rolls Royce encimado por um Galo de Barcelos, enquanto as bancadas dos concorrentes simulavam caixotes de carga com um detonador de TNT e uma sirene para assinalar quem respondia primeiro.

A estética de banda desenhada esteve também presente nas autopromoções exibidas pela RTP, que mostravam Herman José em modo BD, com as suas falas a surgirem em “balões” de texto.

A componente musical contava com o acompanhamento ao piano do maestro Pedro Duarte, também responsável pela direção musical do programa Parabéns.

Pedro Duarte

Ao longo das 375 sessões do concurso, para participar na prova da canção adulterada, passaram pelo programa cerca de uma centena de artistas.

Ada de Castro
Adelaide Ferreira
Ágata
Alexandra
Ana
Ana Bola
Ana Malhoa
Anabela
Anita Guerreiro
António Manuel Ribeiro
António Pinto Basto
António Sala
Armando Gama
Artur Garcia
Badaró
Bonga
Cândida Branca Flor
Carlos Guilherme
Carlos Zel
Cidália Moreira
Clemente
Dany Silva
Deolinda Rodrigues
Dina
Dulce Guimarães
Dulce Pontes
Duo Ele e Ela
Emanuel
Eugénia Melo e Castro
Fernanda Baptista
Fernando Pedro
Filipa Pais
Florência

Gabriel Cardoso
Gonçalo da Câmara Pereira
Helena Vieira
Ilda de Castro
Io Appolloni
Isabel Campelo
João Braga
Joel Branco
Joel Xavier
Jorge Fernando
Jorge Ferreira
Jorge Palma
José Alberto Reis
José da Câmara
José Malhoa
José Manuel Concha
Laureano
Lena d’Água
Lenita Gentil
Lia Gama
Lucas & Matheus
Luís Filipe
Luís Filipe Reis
Luís Portugal
Manuela Bravo
Márcio Ivens
Marco Paulo
Marco Quelhas
Maria Armanda
Maria da Fé
Maria Guinot
Maria José Valério
Maria Valejo

Mário Gil
Mário Mata
Miguel Ângelo
Nel Monteiro
Nelo Silva
Nucha
Nuno da Câmara Pereira
Olívia
Paco Bandeira
Paulo Brissos
Paulo Gonzo
Pedro Barroso
Piedade Fernandes
Pilar Homem de Melo
Quim Barreiros
Raul Indipwo
Rita Guerra
Roberto Leal
Rodrigo
Rosita
Simara
Teresa Silva Carvalho
Tim
Tó Leal
Tonicha
Tony Carreira
Toy
Tristão da Silva Júnior
Vasco Rafael
Victor Almeida e Silva
Vítor de Sousa
Vitorino
Zé Carvalho

No quarto jogo, aquele em que dois concorrentes tentavam fazer-se rir mutuamente, o objetivo raramente era concretizado. Nas emissões iniciais, cabia a Herman José tentar o desempate, recorrendo aos seus próprios gags para ver quem se ria primeiro. Contudo, perante a rápida escassez de recursos para o fazer, a regra foi alterada, passando os pontos a ser divididos irmãmente, sempre que ninguém se desmanchava. A partir da 131.ª sessão, o desempate voltou a mudar de figurino, ficando a decisão final entregue ao voto do público em estúdio.

Antes da estreia oficial, na semana de 03 a 07/01/1994, foram exibidos cinco miniprogramas de cinco minutos, com breves explicações sobre o funcionamento do concurso. Como o software estava ainda em preparação, algumas dinâmicas não puderam ser demonstradas.

Na semana seguinte, realizaram-se cinco emissões de carácter experimental. Em cada uma delas, os quatro concorrentes dividiam-se entre duas figuras públicas e dois convidados da produção (alguns dos quais recrutados na assistência de A Roda da Sorte). A presença dos famosos distribuiu-se da seguinte forma: Ana Bola e Vítor de Sousa (1.ª sessão); Helena Ramos e Luís Pereira de Sousa (2.ª sessão); Valentina Torres e Armando Gama (3.ª sessão); Maria Rueff e Ângela Pinto (4.ª sessão); e Rita Blanco e João Baião (5.ª sessão).

Ana Bola
Vítor de Sousa
Helena Ramos
Luís Pereira de Sousa
Valentina Torres
Armando Gama
Maria Rueff
Ângela Pinto
Rita Blanco
João Baião

Nos primeiros meses de exibição, Com a Verdade M’Enganas ia para o ar por volta das 18:20, antecedendo a telenovela Verão Quente. Com o final desta, em abril de 1994, o programa subiu para o horário das 19:00, onde se fixou durante vários meses.

Contudo, a partir de janeiro de 1995, a forte concorrência da SIC (que liderava com a telenovela Vidas Cruzadas e com o programa O Juiz Decide) levou a RTP a realizar sucessivas alterações na grelha de acesso ao horário nobre. Entre um best of do programa Apanhados (de 1992/1993), edições especiais do programa criminal Coisas da Vida e diversas telenovelas (a portuguesa Desencontros, a brasileira Corpo Santo e a mexicana Marimar), bem como reposições da série Os Andrades e da rubrica humorística Boião de Cultura (também com Herman José), Com a Verdade M’Enganas acabou por ser sucessivamente empurrado para horários de menor visibilidade, terminando as suas emissões por volta das 17:00.

No dia em que foi gravada a derradeira emissão, Herman José confessou à TV Guia a sua desilusão com o percurso final do projeto: “Tecnicamente, não se justificaria continuar com o programa e, se fosse diretor de programas, também achava, sinceramente, um desperdício o investimento que significam cinco sessões por semana e a um horário que deixou de ter grande expressão. Emocionalmente, é uma tristeza acabar com uma rotina de cinco anos que começou com A Roda da Sorte”.

O humorista criticou ainda a estratégia de programação da estação pública: “O Canal 1 não devia ter perdido a calma e devia ter a serenidade de não se importar com a perda de audiências em favor da SIC, se os programas concorrentes forem do género trash TV, e manter uma certa posição majestática, para ser uma alternativa com uma programação de uma outra valia”.

Talvez a perda de visibilidade provocada pelas sucessivas mudanças de horário e um certo sentimento de descontentamento por parte da equipa tenham contribuído para que, na reta final do concurso, se fizesse sentir um tom mais provocatório. Em jeito de irreverência, a produção começou a “pisar o risco”, incluindo nos puzzles palavras pouco próprias para um concurso familiar…

Tal como acontecera na célebre emissão final de A Roda da Sorte, também a última sessão de Com a Verdade M’Enganas ficou marcada pela destruição do cenário, desta feita com a participação ativa do público.

Anos mais tarde, o programa Superconcurso, comandando por Jorge Gabriel, teve a sua quarta emissão (de 19/08/2007) dedicada a Com a Verdade M’Enganas. Os quatro concorrentes foram os atores Ana Bola, João Baião, Ana Brito e Cunha e Juan Goldin.

Ana Bola e João Baião
Ana Brito e Cunha e Juan Goldin

Luís Represas assumiu o papel de cantor convidado, interpretando uma versão errada de Da Próxima Vez.

Durante a emissão, foram exibidos depoimentos de Herman José, Cândido Mota e Ruth Rita.

Herman José
Cândido Mota
Ruth Rita

O concurso encontra-se disponível para visualização no portal RTP Arquivos.

Com a Verdade M’Enganas