Eterno Feminino

Exibição:
1.ª temporada: 17/09/1990 – 28/06/1991 (RTP 2)
2.ª temporada: 16/09/1991 – 26/06/1992 (RTP 2)

Número de programas:
401

Apresentação:
Teresa Guilherme

Autoria:
Teresa Guilherme
António Reis

Locução off:
Paulo Costa

Música:
Fernando António dos Santos

Produção executiva:
José Luís Lopes

Realização:
Carlos Coelho da Silva
Luís Couto

Eterno Feminino é um magazine transmitido em direto nas tardes da RTP 2, de segunda a sexta-feira. Com a duração de uma hora e conduzido por Teresa Guilherme, o programa é especialmente direcionado ao público feminino, procurando abordar os temas da atualidade e da condição feminina de uma forma não convencional.

Teresa Guilherme

Cada emissão tem por base um tema central e conta com entrevistas a figuras públicas e anónimas. O destaque vai, por norma, para mulheres com percursos marcantes ou que singram em profissões tipicamente associadas aos homens, embora o estúdio esteja também aberto à presença masculina.

Para além das entrevistas e de reportagens de rua, Eterno Feminino conta também com a presença fixa de vários especialistas, que dinamizam rubricas semanais focadas no quotidiano e no bem-estar.

Áurea Regina
(Plantas e Paisagismo)

Luís Resina
(Astrologia)

Manuel Luís Goucha
(Culinária)

Luísa Bravo
(Decoração)

Rita Vaz Pinto
(Direito)

Maria João Teixeira
(Bricolage)

Luísa Figueirola
(Ginástica)

Armand Deupés de Perpessac
(Culinária)

Maria Clementina Dinis
(Sexologia)

Heloísa Miranda
(Astrologia)

Alice Miranda
(Estética)

Mário Martins
(Lugar aos Novos)

Manuel José
(Viagens)

Ana Júlia
(Moda)

Dr. Biscaia Fraga
(Cirurgia Plástica)

Em determinadas emissões, é ainda apresentado um momento musical.

Produzido pela Telecine-Moro, Eterno Feminino marcou a estreia de Teresa Guilherme – que já exercia a sua atividade enquanto produtora – como apresentadora de televisão.

Entre 2004 e 2005, Teresa Guilherme assinou uma série de crónicas na revista TV Guia, nas quais recordava os bastidores dos formatos por si produzidos e apresentados. Esses textos seriam, mais tarde, reunidos no livro Isso Agora… Não Interessa Nada!.

É através dessas memórias, na primeira pessoa, que conseguimos perceber como tudo começou:

Perguntam-me muitas vezes qual foi o programa de televisão que mais gostei de fazer. E eu disperso-me em vários gostares. Uns por isto, outros por aquilo, todos merecem o meu carinho. Mas acabo sempre por chegar à conclusão de que não há amor como o primeiro.

Eterno Feminino, nome descoberto por Júlio Isidro (é mesmo verdade), marca a grande viragem da minha vida. Deixei de ser uma esfuziante e anónima Teresa, para passar a ser uma conhecida, mas não menos esfuziante, Teresa.

Para aqueles que sonham com uma carreira de apresentadores, lamento ter de confessar: nada foi premeditado, tudo começou por acaso. Se é que existem acasos. Como produtora, já tinha feito alguns programas para a televisão e decidi propor um magazine semanal feminino, apresentado pela Margarida Mercês de Mello. Era uma novidade porque, para além de algumas revistas de um cor-de-rosa ainda muito pálido, não havia nenhuma publicação dedicada exclusivamente às mulheres, e muito menos um programa de televisão.

No Canal 1, dirigido pelo José Eduardo Moniz, o programa foi chumbado. Achavam eles, na altura, que na televisão não havia espaço para um programa só para as mulheres.

Não sou de desistir e decidi apresentar a mesma proposta à RTP 2, que tinha como diretor o saudoso Adriano Cerqueira. Telefonei ao José Nuno Martins, que era o diretor de programas, e convidei-o para almoçar. Mostrei-lhe o projeto e ele disse: «É giro, mas tem de ser diário, em direto e apresentado por uma desconhecida. Por exemplo, tu!». Eu, que nunca tinha sonhado estar à frente das câmaras, mas que enfrento qualquer desafio, disse logo que sim e só depois é que fui vomitar uma carga de nervos.

Numa outra crónica, a apresentadora revelou como foi o seu primeiro contacto com a exposição, ainda antes da estreia do programa:

[…] marcámos uma semana inteira desses ensaios gravados, onde tudo foi testado até à exaustão. O programa era transmitido em direto da Telecine, ali no Príncipe Real.

Numa dessas tardes, ouvi dizer que se ia experimentar a ligação dos feixes necessários à nossa emissão em direto. Eu achei normal que se testasse a parte técnica e não me preocupei mais com isso. Apesar de me ter parecido excessivo que todas as pessoas com quem me cruzei nos corredores me tivessem dito: «Então, hoje lá vamos experimentar os feixes!». Não desconfiei que também podia haver um dia zero para testar a fama.

E lá fizemos mais um rigoroso ensaio, onde entrevistei uma série de amigos, passei por várias rubricas, enfim, muito à vontade, muito alegre, muito inconsciente.

Quando esse programa zero acabou o telefone começou a tocar. Eram os senhores da então sede da RTP na 5 de Outubro, a darem-me os parabéns, a darem-me sugestões e a darem-me a noção de que todas as pessoas que trabalhavam naquele edifício tinham partilhado, através do circuito interno, aquele ensaio que eu achava só meu. O tal teste dos feixes não podia ter corrido melhor, eu é que fiquei na pior.

A sensação de exposição foi arrasadora e ao longo de todos estes anos nada me voltou a abalar tanto. Saber que se está a ser vista por milhões pode parecer assustador, mas para mim sempre foi como estar em casa. Agora, achar que se está em casa e descobrir, a posteriori, que se foi visto por umas centenas de pessoas é que foi um choque de que nunca mais recuperei.

Ao longo de quatro centenas de emissões, Teresa Guilherme fez-se acompanhar de um conjunto de especialistas que apresentavam rubricas temáticas semanais.

Ainda durante o primeiro ano, o momento dedicado à astrologia, inicialmente entregue a Luís Resina, passou para as mãos de Heloísa Miranda, também ela uma estreante nas lides televisivas.

Heloísa Miranda

Na primeira temporada, a rubrica de culinária esteve a cargo de Manuel Luís Goucha, cabendo, no segundo ano, ao chef Armand Deupés de Perpessac assegurar este espaço.

Teresa Guilherme com Manuel Luís Goucha...
... e com Armand Deupés de Perpessac

O visível entrosamento entre Teresa Guilherme e Goucha fez surgir os boatos de que entre os dois haveria mais do que uma simples amizade.

Este casamento começou no Eterno Feminino. O Manuel Luís Goucha cozinhava no programa, semanalmente, numa rubrica de culinária, onde fazia tudo para me adoçar a boca. E também foi de boca em boca que começou a correr que, para além daqueles encontros televisivos, a nossa história era outra.

Ambos solteiros, em idade casadoira, tínhamos os nossos empregozitos e muita gente começou a achar que éramos feitos um para o outro e quiseram-nos dar o nó.

As cartinhas começaram a chegar. Madrinhas e padrinhos de todo o país davam-nos conselhos e não só. Também mandavam dinheirinho, peças para o enxoval e até propostas de nomes para os futuros rebentos.

Quanto mais negávamos qualquer envolvimento, mais as pessoas nos envolviam nas teias do casamento.

O Manuel Luís começou a achar graça à brincadeira e a incentivar os defensores do casório. O tempo dos banhos foi passando e a ideia de que éramos mesmo casados mergulhou definitivamente no espírito de muitos portugueses.

Uma das novidades do segundo ano foi a rubrica Lugar aos Novos, na qual o produtor musical Mário Martins apresentava um talento ainda desconhecido do grande público.

Mário Martins com uma cantora novata

Através de algumas rubricas, foi promovida uma forte interação com o público.

Na rubrica de decoração, por exemplo, ‘Luisinha’ Bravo pedia às telespectadoras que enviassem plantas das divisões que pretendiam remodelar. Com um certo snobismo inofensivo e gracioso, a decoradora escolhia alguns desses projetos para apresentar em estúdio, prometendo, no entanto, uma resposta individual a cada uma das cartas recebidas.

O mesmo registo de proximidade acontecia na rubrica de moda, onde a estilista Ana Júlia executava um trabalho semelhante, sugerindo os modelos que melhor se adequavam ao estilo de cada espectadora, a partir de fotografias por ela enviadas.

Em setembro de 1991, quando o Eterno Feminino se preparava para entrar no seu segundo ano de emissões, Adriano Cerqueira mostrava-se rendido ao sucesso do formato na grelha da RTP 2: “O Eterno Feminino foi uma bela surpresa, que se irá manter com a mesma estrutura. As duras críticas a Teresa Guilherme logo nos primeiros dias acabaram por não ter qualquer espécie de fundamento e o programa obteve um índice de audiência muito elevado e um índice de agrado elevadíssimo”.

As “duras críticas” mencionadas pelo responsável do canal traduziam o choque inicial de parte da imprensa com o estilo da apresentadora. Poucos dias após a estreia, o semanário Se7e dava o mote com um texto particularmente azedo:

«Eterno Feminino» não interessa nem ao mais pintado e passamos muito bem sem ele, sem ela, sem elas. […] Teresa Guilherme não sabe tagarelar, não sabe ser curiosa, não consegue ultrapassar as lições que estudou. […] Escusado será adiantar mais porque isto não se ensina, não se aprende e não tem explicação.

No balanço do primeiro ano, em entrevista à TV Guia, a apresentadora argumentou que o falatório em torno do programa acabou por funcionar como um motor involuntário de audiência, garantindo que as críticas se dirigiam diretamente a si e não ao conteúdo do formato: “As críticas não foram negativas em relação ao programa, mas sim a mim. A única coisa que se disse do Eterno Feminino é que, hoje em dia, não se justifica a existência de um programa dirigido às mulheres, ao que eu respondo: então, porque é que há tantas revistas femininas?”.

Consciente de que a sua estreia sem experiência prévia gerava anticorpos, Teresa atribuiu parte dessa reação à maneira de ser dos portugueses, assumindo com naturalidade as falhas próprias de quem dava os primeiros passos na apresentação: “A crítica visou só a minha pessoa. Isso tem muito a ver com o espírito português, que é o de não se dar o benefício da dúvida a ninguém… Nunca tinha feito um programa na minha vida, mas mesmo assim penso que me saí melhor do que a maior parte das pessoas. Evidentemente, nas primeiras emissões estava mais nervosa do que deveria, mas não sou jornalista, não é?”.

Um dos pontos que mais suscitava críticas era o ritmo acelerado e o tom interventivo que Teresa Guilherme imprimia às entrevistas – um estilo oposto à compostura e ao tom pausado que dominavam a televisão da época. A este respeito, a apresentadora não hesitou em reivindicar a sua identidade e a autoria do formato: “Em televisão, não há regras para ninguém. O Letria, por exemplo, é um entrevistador com uma certa calma e leva sempre a «água ao seu moinho»; eu sou normalmente uma pessoa agitada e precipitada, e, enquanto co-autora do programa, fi-lo à minha medida; e assim irei continuar”.

Se algumas notas da imprensa apontavam a detalhes estéticos ou à condução do programa, outras ultrapassavam claramente a barreira do comentário televisivo, transformando-se em ataques de cariz pessoal: “Lembro-me que o [Mário] Castrim fez n críticas, do género «ela devia estar mais descontraída», «não deveria entrevistar tantas pessoas», «com aquele cabelo fica parecida com a Barbie», etc. Este é o tipo de opinião que podemos, ou não, aceitar […] mas, quando as críticas diziam «Teresa Guilherme é, evidentemente, uma atrasada mental», já não podemos aceitar”.

À distância de mais de três décadas, torna-se evidente que a Teresa Guilherme de 1990 já trazia no ADN a irreverência que viria a definir o seu percurso das décadas seguintes. Tratava-se simplesmente de um estilo “fora da caixa”, para o qual o público e a crítica da altura não estavam preparados.

Anos mais tarde, numa das suas crónicas para a TV Guia, a apresentadora revelaria a fórmula que encontrou para se blindar contra este ruído e sobreviver ao escrutínio dos primeiros tempos:

Tenho para mim que por não ser nem tão nova nem tão perfeitinha, como se esperava de uma apresentadora que se estreia, despertei com mais facilidade a curiosidade do público. Ou talvez fosse apenas o meu destino. A verdade é que o programa foi uma bomba. As pessoas adoraram, os críticos odiaram. Atiraram-se ferozmente àquela mulher inesperada que, ainda por cima, tinha uma forma de apresentar muito pouco clássica.

Eu não estava a fazer um boneco, estava a fazer de mim mesma e não fui poupada. As críticas não matam mas moem e, apesar de terem sido a melhor publicidade que tivemos, comecei a desmoralizar. Na altura, havia um jornalista que também tinha um estilo que não era consensual: o Mário Crespo, que não era igualmente poupado pelos media. Telefonei-lhe mesmo sem o conhecer. E perguntei-lhe: «Como é que sobrevive a todas estas coisas terríveis que escrevem sobre si?», e ele respondeu-me: «É simples. Basta acreditar no que fazemos, e em nenhuma circunstância ler as críticas que escrevem sobre nós». E é assim que eu faço até hoje. Simplesmente não as leio. Quero agradecer ao Mário Crespo, de quem sou fã – e que se calhar nem se lembra desta conversa –, o ótimo conselho. Não sei se agora já lê o que se escreve sobre ele e vai ler estas linhas, mas isso agora não interessa nada.

Enquanto a primeira temporada assentava num tema específico por emissão, a segunda abandonou essa obrigatoriedade, passando a contar com convidados de diferentes áreas numa dinâmica de conversa cruzada, ainda que sem pretensões de debate. Teresa Guilherme procurava que todos – incluindo os especialistas das rubricas fixas – interviessem nos assuntos uns dos outros, dando a sua achega e promovendo uma maior interação em estúdio.

Inicialmente concebido com o título de O Outro Lado do Céu, o programa acabou por ser batizado por Júlio Isidro como Eterno Feminino – um título que, como a própria Teresa Guilherme viria a admitir, nunca lhe agradou: “Eterno Feminino não foi escolhido por mim, e é um título que odeio! Mas é preciso que se diga que o Eterno Feminino só é feminino para quem ache que assuntos como bricolage, saúde, decoração e, por exemplo, culinária se destinam apenas às mulheres. O Eterno Feminino não é um programa para mulheres, nem tem pretensões a sê-lo; a única coisa que temos em mente é que, dada a hora em que vai para o ar, as telespectadoras são em maior número. Na verdade, os homens reconhecem-me mais na rua do que as mulheres!”

Em alinhamento com esta posição, no segundo ano houve uma tentativa clara de reforçar que o programa não se destinava apenas às mulheres. Como sinal dessa mudança, Teresa Guilherme passou a abrir as emissões referindo-se ao magazine simplesmente como Eterno, existindo também um separador sem a palavra feminino.

Após dois anos no ar, Eterno Feminino teve como sucessor, em setembro de 1992, o Chá das Cinco. Teresa Guilherme manteve-se na apresentação, mas apenas às quartas-feiras. Nos restantes dias, o programa era apresentado por Ana Bola, Ana Maria Lucas, Rosa Lobato de Faria (mais tarde substituída por Alice Cruz) e Dina Aguiar.

Eterno Feminino