É através dessas memórias, na primeira pessoa, que conseguimos perceber como tudo começou:
Perguntam-me muitas vezes qual foi o programa de televisão que mais gostei de fazer. E eu disperso-me em vários gostares. Uns por isto, outros por aquilo, todos merecem o meu carinho. Mas acabo sempre por chegar à conclusão de que não há amor como o primeiro.
O Eterno Feminino, nome descoberto por Júlio Isidro (é mesmo verdade), marca a grande viragem da minha vida. Deixei de ser uma esfuziante e anónima Teresa, para passar a ser uma conhecida, mas não menos esfuziante, Teresa.
Para aqueles que sonham com uma carreira de apresentadores, lamento ter de confessar: nada foi premeditado, tudo começou por acaso. Se é que existem acasos. Como produtora, já tinha feito alguns programas para a televisão e decidi propor um magazine semanal feminino, apresentado pela Margarida Mercês de Mello. Era uma novidade porque, para além de algumas revistas de um cor-de-rosa ainda muito pálido, não havia nenhuma publicação dedicada exclusivamente às mulheres, e muito menos um programa de televisão.
No Canal 1, dirigido pelo José Eduardo Moniz, o programa foi chumbado. Achavam eles, na altura, que na televisão não havia espaço para um programa só para as mulheres.
Não sou de desistir e decidi apresentar a mesma proposta à RTP 2, que tinha como diretor o saudoso Adriano Cerqueira. Telefonei ao José Nuno Martins, que era o diretor de programas, e convidei-o para almoçar. Mostrei-lhe o projeto e ele disse: «É giro, mas tem de ser diário, em direto e apresentado por uma desconhecida. Por exemplo, tu!». Eu, que nunca tinha sonhado estar à frente das câmaras, mas que enfrento qualquer desafio, disse logo que sim e só depois é que fui vomitar uma carga de nervos.
Numa outra crónica, a apresentadora revelou como foi o seu primeiro contacto com a exposição, ainda antes da estreia do programa:
[…] marcámos uma semana inteira desses ensaios gravados, onde tudo foi testado até à exaustão. O programa era transmitido em direto da Telecine, ali no Príncipe Real.
Numa dessas tardes, ouvi dizer que se ia experimentar a ligação dos feixes necessários à nossa emissão em direto. Eu achei normal que se testasse a parte técnica e não me preocupei mais com isso. Apesar de me ter parecido excessivo que todas as pessoas com quem me cruzei nos corredores me tivessem dito: «Então, hoje lá vamos experimentar os feixes!». Não desconfiei que também podia haver um dia zero para testar a fama.
E lá fizemos mais um rigoroso ensaio, onde entrevistei uma série de amigos, passei por várias rubricas, enfim, muito à vontade, muito alegre, muito inconsciente.
Quando esse programa zero acabou o telefone começou a tocar. Eram os senhores da então sede da RTP na 5 de Outubro, a darem-me os parabéns, a darem-me sugestões e a darem-me a noção de que todas as pessoas que trabalhavam naquele edifício tinham partilhado, através do circuito interno, aquele ensaio que eu achava só meu. O tal teste dos feixes não podia ter corrido melhor, eu é que fiquei na pior.
A sensação de exposição foi arrasadora e ao longo de todos estes anos nada me voltou a abalar tanto. Saber que se está a ser vista por milhões pode parecer assustador, mas para mim sempre foi como estar em casa. Agora, achar que se está em casa e descobrir, a posteriori, que se foi visto por umas centenas de pessoas é que foi um choque de que nunca mais recuperei.