Lá em Casa Tudo Bem

Exibição:
17/11/1987 – 02/08/1988 (RTP 2)

Número de episódios:
38

Criação de:
Mário Zambujal
Nuno Teixeira
Raul Solnado

Textos:
Artur Couto e Santos
Luís Campos
Mário Zambujal
Rosa Lobato Faria
Viriato Teles

Editor:
Mário Zambujal

Direção de produção:
Thilo Krasmann

Realização:
Nuno Teixeira
Jorge Rodrigues

Elenco:
Raul Solnado – Horácio
Armando Cortez – Lopes
Margarida Carpinteiro – Esmeralda
Natália Luiza – Marta
Manuel Cavaco – Clemente
Rui Luís – Rafael
Amélia Videira – Gracinda

A série mostra-nos o quotidiano de Horácio Pires Peres (Raul Solnado), próspero comerciante no ramo do calçado e presidente do Sport Clube da Carregadinha. Horácio é casado com Esmeralda (Margarida Carpinteiro), uma dona de casa muito distraída, mas que se mostra perfeitamente apta para lidar com as consequências desastrosas das invenções domésticas do seu cônjuge. A filha dos dois, Marta (Natália Luiza), namora com Vítor (António Feio), filho do doutor Freitas (Nicolau Breyner), o presidente do União Glória, que vem a ser o principal adversário do Sport Clube da Carregadinha.

Os melhores amigos de Horácio e Esmeralda são o Lopes (Armando Cortez) e a Gracinda (Amélia Videira). Lopes é presidente da Junta de Freguesia da Carregadinha e sócio do Sport Clube, mas no decorrer da série, vai trocar de cadeira com Horácio, que se torna autarca, numa manobra intitulada “A Perestroca”, graças a uma inesperada ideia do senhor Presidente da Câmara (Herman José).

Outra personagem importante é Clemente (Manuel Cavaco), empregado na sapataria de Horácio. Muito tímido, é apaixonado por Marta e pela sua coleção de canetas. É o braço direito de Horácio no Sport Clube, juntamente com o sargento Rafael (Rui Luís), sujeito bonacheirão, cujo maior ponto fraco é a noiva Clotilde (Maria Vieira), uma especialista em abrir as portas alheias com um gancho do cabelo.

Dócil e, ao mesmo tempo, autoritário, Horácio Pires Peres é também um homem dinâmico que, em consequência dessa sua multifacetada personalidade, se deixa muitas vezes embalar nos braços da preguiça. Mas do que não há dúvida é que ele se afirma sempre como um honesto chefe de família, dividido entre os deveres familiares e o clube desportivo a que preside. Dele, e das situações que, entretanto, se vão gerando lá em casa, tudo, portanto, será de esperar! E ainda a procissão vai no adro…

O Adelino Lopes é um Lopes, como tantos Lopes, como tantos Saraivas, como tantos Baptistas, como tanta gente. Tem, no entanto, a sua força, o seu orgulho, as suas fraquezas, as suas ambições, as suas inibições e as suas pequenas vaidades. É, sem dúvida, uma curiosa personagem que se movimenta entre a presidência da Junta de Freguesia, a Direção do Clube Desportivo e o seu segundo casamento com a exuberante Gracinda. Mas é talvez no seu relacionamento com Horácio que melhor se define a sua personalidade.

D. Esmeralda, que, por força do destino, se casou com Horácio Pires Peres, é, embora não pareça, uma mulher teimosa. Embora muito cuidadosa perante a família (marido e filha), encontra-se finalmente entre a emancipação e a cozinha. Além disso, tem uma qualidade que eu, como mulher e atriz, acho maravilhosa: ela é bastante distraída… E eu já aprendi que, às vezes, em determinadas circunstâncias, dá muito jeito uma pessoa ser distraída, à semelhança de D. Esmeralda…

Marta é uma personagem lúcida que estabelece um pouco o contraponto das situações criadas no ambiente familiar. No seu caso, há um evidente conflito de gerações. Ela, estudante de Arquitetura, revela obviamente outros interesses e motivações… embora sinta uma grande ternura pelos pais, sobretudo pela mãe. Ao adotar um comportamento muito seu, Marta tem uma vida para além da vida familiar, e é assim que eu a concebo como personagem. No fundo, ela é igual a tantas jovens do nosso tempo.

Clemente, empregado na sapataria do senhor Horácio Pires Peres, e simultaneamente secretário da Direção do Desportivo Sport Clube, é sobretudo um homem zeloso, caninamente dedicado ao patrão. No fundo, é um tímido, que chega quase aos 40 anos de idade como se fosse uma criança. Em certos aspetos, Clemente não cresceu, e é essa uma das facetas que faz desta personagem uma notável caricatura. Existem, aliás, pessoas assim… tão tímidas como algumas crianças.

O sargento Rafael é, pelas suas vincadas características, uma personagem que se “encaixa” perfeitamente no desenrolar das situações e das peripécias geradas ao longo dos programas. É, escusado será dizer, mais uma figura típica que eu encaro profissionalmente da mesma maneira como encarei o Leopoldo, de Chuva na Areia, ou o Osvaldo, de Palavras Cruzadas, e da qual procuro, através do conjunto de situações e da própria experiência da equipa, tirar o máximo partido. O telespectador que o diga…

Gracinda, segunda mulher do senhor presidente da Junta de Freguesia, Adelino Lopes, encara a vida junto do esposo como um salto na vida. Está perfeitamente adaptada à situação, e dela tenta, dia a dia, tirar o máximo partido. O Lopes, apesar de ter as suas pequenas vaidades, é, pelo menos, um tipo divertido, e ela, com a sua alegria e boa disposição, estabelece o equilíbrio sem grande dificuldade.

Perfis dos personagens descritos pelos próprios atores (TV Guia)

1. Um domingo descansado (17/11/1987)

Texto original:
Artur Couto e Santos


2. A classe de ginástica (24/11/1987)

Texto original:
Artur Couto e Santos


3. A revisão dos cinquenta (01/12/1987)

Texto original:
Artur Couto e Santos

Atores convidados:
Varela Silva – Dr. Libório
Manuela Carona – analista


4. A transferência (08/12/1987)

Texto original:
Artur Couto e Santos

Ator convidado:
Fernando Mendes – Trunfas


5. O tapete (15/12/1987)

Texto original:
Artur Couto e Santos


6. Boas festas (22/12/1987)

Texto original:
Artur Couto e Santos


7. Esta noite são dois anos (29/12/1987)

Texto original:
Mário Zambujal


8. A arte de bem namorar (05/01/1988)

Texto original:
Artur Couto e Santos

Atriz convidada:
Natália de Sousa – Rosália


9. O industrial inglês (12/01/1988)

Texto original:
Artur Couto e Santos

Atores convidados:
Filipe Ferrer – industrial inglês
Maria Emília Cymbron – Hortênsia


10. Trabalhos de casa (19/01/1988)

Texto original:
Artur Couto e Santos


11. Um sistema infalível (26/01/1988)

Texto original:
Artur Couto e Santos

Ator convidado:
Carlos do Rosário – Zé Manel


12. Um acidente amigável (02/02/1988)

Texto original:
Luís Campos


13. Uma tragédia nunca vem só (09/02/1988)

Texto original:
Luís Campos


14. A mãezinha chegou (16/02/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atriz convidada:
Fernanda Borsatti – D. Floripes


15. Uma questão delicada (23/02/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atriz convidada:
Herlinda de Almeida – vendedora


16. Um dia em cheio (01/03/1988)

Texto original:
Luís Campos

Ator convidado:
António Feio – Vítor


17. Transmissão direta (08/03/1988)

Texto original:
Viriato Teles

Adaptado por:
Luís Campos


18. Domingo à tarde (15/03/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atriz convidada:
Fernanda Coimbra – D. Filomena


19. O assalto (22/03/1988)

Texto original:
Rosa Lobato Faria

Ator convidado:
Miguel Guilherme – Zé Luís


20. A Peres… Troca (29/03/1988)

Texto original:
Luís Campos

Ator convidado:
Herman José – Dr. Teodoro Lourenço


21. As bodas de prata (05/04/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atores convidados:
António Feio – Vítor
Fernanda Borsatti – D. Floripes
Fernanda Coimbra – D. Filomena
José Gomes – Rui


22. O candidato (12/04/1988)

Texto original:
Luís Campos


23. A entrevista (19/04/1988)

Texto original:
Luís Campos

Participação especial:
Carlos Cruz – Carlos Cruz


24. Lá em cima, cá em baixo (26/04/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atores convidados:
António Feio – Vítor
Nicolau Breyner – Dr. Freitas


25. Horácio e a catatua faladora (03/05/1988)

Texto original:
Luís Campos


26. As velhas (10/05/1988)

Texto original:
Luís Campos


27. O presidente (17/05/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atores convidados:
Ana Bola – jornalista
Herman José – Dr. Teodoro Lourenço
Tony de Matos – Padre Matos


28. Horácio realizador (24/05/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atriz convidada:
Maria Vieira – Clotilde


29. Horácio entre o céu e o inferno (31/05/1988)

Texto original:
Luís Campos

Ator convidado:
Nicolau Breyner – Anjo/Diabo


30. Um pássaro na mão (07/06/1988)

Texto original:
Luís Campos

Atores convidados:
Maria Vieira – Clotilde
Paulo de Carvalho – Toni Fantomas


31. O jardim da Celeste (14/06/1988)

Texto original:
Luís Campos


32. O fantasma do amor (21/06/1988)

Texto original:
Luís Campos


33. Eu tive um sonho (28/06/1988)

Texto original:
Luís Campos


34. A crise (05/07/1988)

Texto original:
Luís Campos


35. O show (12/07/1988)

Texto original:
Luís Campos


36. O ABC de Horário Pires Peres (19/07/1988)

Texto original:
Luís Campos

Ator convidado:
Júlio César – Tarzan Silva


37. O amor é louco (26/07/1988)

Texto original:
Luís Campos


38. O trovador (02/08/1988)

Texto original:
Luís Campos

Ator convidado:
Carlos Mendes – trovador

Lá em Casa Tudo Bem teve como títulos provisórios Os Pereiras e Numa Casa Portuguesa.

Foi a primeira série a ser gravada com público “ao vivo”, perante uma assistência de cerca de 100 pessoas.

A ação decorria em dois décors concebidos por Conde Reis: o da casa e o do clube desportivo.

A gravação dos episódios era feita não em takes, mas como se de uma peça de teatro se tratasse, o que implicava que os atores tivessem os seus papéis bem decorados.

Criada por Raul Solnado, Mário Zambujal e Nuno Teixeira, Lá em Casa Tudo Bem teve os seus textos desenvolvidos, numa primeira fase, por Artur Couto e Santos, que escreveu 10 episódios.

No seu site O Coiso, Artur Couto e Santos relembra esta experiência:

Em Junho de 1987, terminou “A Quinta do Dois”, mas a experiência de “A Conquilha de Lisboa” abriu caminho a outro convite: o Raul Solnado preparava uma “sitcom” e quis que eu fizesse parelha com o Mário Zambujal na criação dos textos. Chamava-se “Lá em casa tudo bem” e ainda há pouco tempo a RTP-2 fazia a retransmissão dos episódios dessa série, que se estreou em Novembro de 1987.

Foi uma experiência dolorosa e, apesar de cada episódio me render 20 contos, desisti, depois de ter escrito doze. Não tinha mesmo jeito para escrever argumentos. Quer dizer: eu tinha uma boa ideia para o argumento mas depois, começava a escrever e, quando acabava, descobria que tinha texto para cinco ou dez minutos, quando o episódio precisava de ter vinte e cinco minutos. Deparava-me com o mesmo problema que tinha tido sempre que pretendia escrever um livro: se podia desenvolver uma ideia em três páginas, para quê escrever trinta?

O texto foi posteriormente assumido por Luís Campos, professor catedrático de Bioquímica, que era também escritor policial e humorista, tendo-se estreado aqui no domínio da dramaturgia.

Mário Zambujal escreveu o episódio de ano novo, Esta noite são dois anos, e Rosa Lobato Faria, o episódio O assalto.

Luís Campos foi nomeado para o prémio Sete de Ouro, do semanário Se7e, o que também mereceu uma menção de Artur Couto e Santos nas suas memórias:

[…] Mas fiquei irritado, quando um tal Luís de Campos foi nomeado para “Sete de Ouro”, em 1989, pela autoria dos textos do “Lá em casa tudo bem”, referentes ao ano anterior. Ora, parte desses textos eram ainda da minha autoria. Vai daí, escrevi uma carta para o Sete, em que dizia, a certa altura:

“O 8.º, 9.º, 10.º e 11.º episódios (emitidos já em 1988) eram ainda da autoria do que assina em baixo. O Luís de Campos (que eu nem conheço) começou a escrever os episódios seguintes, todos emitidos no decorrer do presente ano (1989). Não está em causa a qualidade dos textos da autoria do Luís de Campos. Admito até que os textos do que assina em baixo sejam uma grande merda. No entanto, a bem da informação (mas quem quer o bem da informação?), Luís de Campos não pode ser nomeado para o “Sete de Ouro”, como autor de textos que não escreveu.”

Os tipos do Sete não me ligaram nenhuma, mas o tal Luís de Campos (que eu continuo a não saber quem era) não ganhou nada.

Após a gravação dos primeiros episódios, Raul Solnado mostrou-se descontente com o resultado: “A série entrou mal por várias razões. Primeiro, as pessoas teimam em compará-la com a Família às Direitas, com o Archie Bunker, que era uma série com uma qualidade espantosa. Evidentemente que esta não é uma réplica dessa série: isto faz-se em todo o mundo! Depois entrámos mal com o problema dos risos e das palmas. Há ali qualquer coisa que não encaixa e eu não consigo localizar. No primeiro episódio, as pessoas sentiram-se manipuladas, e os seguintes ainda não conseguiram ter a força suficiente para fazer esquecer esse acidente”.

Contudo, ultrapassados estes acidentes de percurso iniciais, Lá em Casa Tudo Bem conquistou um lugar cativo junto do público, colocando-se nos primeiros lugares do top de audiências da RTP 2.

As caricaturas dos personagens que aparecem no genérico foram feitas por Vítor Sá Machado. Apenas Horácio (Raul Solnado) não aparece nesse formato, pois o ator recusou-se a ser caricaturado.

Foram várias as participações especiais de destaque. Uma delas foi a de Herman José, como Dr. Teodoro Lourenço, presidente da câmara de Alhos Verdes, em dois episódios.

Carlos Cruz apareceu como ele mesmo, entrevistando Horácio Pires Peres durante a sua campanha para presidente da junta.

Nicolau Breyner apareceu em dois episódios, interpretando personagens diferentes: num deles, o Dr. Freitas; no outro, o Anjo e o Diabo.

Ainda, a presença de vários cantores: Tony de Matos como um padre; Paulo de Carvalho como um bandido; e, no último episódio, Carlos Mendes como um trovador.

Tony de Matos
Paulo de Carvalho
Carlos Mendes

Lá em Casa Tudo Bem foi exibida às terças-feiras, por volta das 21:30, na RTP 2.

Dois meses após o seu término, iniciou-se a reposição da série: foi transmitida às 16:30, novamente na RTP 2, entre 11/10/1988 e 20/07/1989 (numa fase inicial, às terças e, partir de 20/04/1989, às quintas).

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Lá em Casa Tudo Bem