Lua Cheia de Amor

Exibição:
11/02/1992 – 06/10/1992 (RTP 1)

Número de capítulos:
170

Produção:
Rede Globo (1990/1991)

Novela de:
Ana Maria Moretzsohn
Ricardo Linhares
Maria Carmem Barbosa

Inspirada em Dona Xepa, de Pedro Bloch

Direção geral:
Roberto Talma

Genu (Marília Pera) é uma vendedora ambulante que se sacrifica para os filhos, Mercedes (Isabela Garcia) e Rodrigo (Roberto Bataglin), terem uma vida melhor. Estes, contudo, sentem uma enorme vergonha de a ter como mãe, principalmente Mercedes, que procura escondê-la de todas as pessoas das quais se aproxima por puro interesse.

Genu

Mercedes é apaixonada por Augusto (Maurício Mattar), filho dos milionários Conrado (Claúdio Cavalcanti) e Laís Souto Maia (Susana Vieira), mas pensa que ele é pobre.

Mercedes e Augusto

Por esse motivo, Mercedes casa-se com Douglas (Rodolfo Bottino), enteado da deslumbrada Kika Jordão (Arlete Salles), nova-rica cujo objetivo principal é fazer amizade com Laís.

Mercedes e Douglas
Laís e Kika

Entretanto, Genu sonha com o dia em que possa recuperar a loja que o marido, Diego (Francisco Cuoco), perdeu no jogo antes de a abandonar e que acabou por ficar nas mãos de Emília (Bete Mendes), a sua eterna rival.

Com efeito, um dia Diego saiu de casa para comprar cigarros e nunca mais voltou, deixando a família numa situação muito difícil. Acontece que ele agora diz-se regenerado e, após regressar ao Brasil, pretende ocupar o posto de chefe de família, justamente quando Genu se começava a entender com Túlio (Geraldo del Rey), homem generoso e intuitivo, que sempre lhe deu o devido valor.

Genu entre Túlio e Diego

Não demora muito tempo, todavia, para percebermos que Diego continua o mesmo vigarista de sempre e que apenas tem em mente aplicar um golpe em Douglas e no pai dele, Celso Jordão (Carlos Zara), com o intuito de se dar bem.

Para tal faz-se passar por Esteban, suposto padrinho de Mercedes, e inventa a história de que a mãe desta se chama Jô e é herdeira de vários castelos. Começa então a pedir-lhes dinheiro, prometendo que os investimentos de Jô irão multiplicar a fortuna da família Jordão.

Quando a farsa é descoberta, Mercedes já sabe quem é Augusto e pretende separar-se de Douglas, mas não terá a vida facilitada, pois é suspeita de atirar em Laís, que fica em estado crítico ao ser baleada.

O autor do atentado, no entanto, é o inescrupuloso Wagner (Mário Gomes), casado com a frágil e cleptomaníaca Isabela (Drica Moraes), filha de Conrado e Laís. Wagner acaba por ser desmascarado e morre quando tenta fugir da polícia, deixando Isabela livre para o tímido Lourenço (Felipe Martins), filho de Túlio.

Diego, por sua vez, resolve sair airosamente de cena, sendo dado como morto para a maioria das personagens. Porém, Rutinha (Sylvia Bandeira), a melhor amiga de Laís, encontra-o num casino em Espanha, igual a si mesmo, demonstrando que nunca se regenerou e que continua tão irresponsável como antes.

Desfeitos os mistérios e mal-entendidos, Mercedes acaba por se casar com Augusto e Genu reconhece em Túlio aquele que poderá fazê-la feliz para o resto da vida.

A produção desta telenovela foi anunciada em Portugal muito antes de serem iniciadas as respetivas gravações. Várias notícias, a meio de 1990, davam conta de uma coprodução levada a cabo entre a Rede Globo e a TVE (Televisão Espanhola), que teria como base a história de Dona Xepa, a peça de teatro de Pedro Bloch na qual se baseou a novela escrita por Gilberto Braga em 1977.

Este regime de coprodução inseria-se no processo de internacionalização da Globo, após a alienação de parte significativa da TMC (Telemontecarlo, afiliada da rede em Itália), e veio a repetir-se, nomeadamente em Portugal com a RTP, no caso de Pedra sobre Pedra, e com a SIC, em De Corpo e Alma e Mulheres de Areia.

Por outro lado, a imprensa portuguesa também dava conta de que a protagonista seria Joana Fomm e de que a novela se chamaria Bate Coração, estando prevista a sua exibição para o horário das 18 horas.

Entretanto, acabou por ser intitulada Lua Cheia de Amor, foi transmitida às 19 horas no Brasil e o papel principal acabou atribuído a Marília Pêra, por se tratar de uma atriz internacionalmente mais conhecida.

Marília Pêra

A telenovela, porém, não obteve o sucesso esperado. Após a estreia na Globo, o jornal Expresso entrevistou Joana Fomm, que aqui fazia muito sucesso com a Perpétua de Tieta, tendo sido abordada a sua preterição em favor de Marília Pêra. A atriz comentou a troca de protagonistas, mas deu a entender que não perdera nada, pois a novela não estava a fazer sucesso e era objeto de muitas críticas.

Já em 1992, exibida na RTP 1 no horário do meio-dia, Lua Cheia de Amor não chegou perto do sucesso de Dona Xepa nem de outras novelas exibidas poucos anos antes, nesse mesmo horário. Todavia, por não haver concorrência, a audiência foi estável do início até ao fim.

Apesar de não ser uma produção memorável, contou com alguns momentos bons. As cenas em que Genu colocava uma peruca para se disfarçar de Jô e difundir as suas frases feitas (“Concordo plenamente”, “Como preferir”, “Que bonito traje o seu”) deram um toque humorístico à novela, o que compensou em parte a falta de criatividade patente em várias fases.

Curiosamente, essa trama em tom de farsa não fazia parte da novela original, da qual foram aproveitados alguns núcleos, inexistentes na peça de Pedro Bloch, como as famílias Becker, agora transformada em Souto Maia, e Soares da Cunha, que em Lua Cheia de Amor teve o apelido de Jordão. Kika Jordão, por sinal, é uma releitura de Glorita, defendida em 1977 por Ana Lúcia Torre, ainda que os traços cómicos e os delírios que ficaram célebres na interpretação de Arlete Salles fossem bastante discretos na novela de Gilberto Braga.

Glorita em Dona Xepa
Kika Jordão em Lua Cheia de Amor

Outro pormenor digno de registo é o facto de, em Lua Cheia de Amor, as personagens inspiradas na obra de Pedro Bloch terem mudado de nome, ao contrário do que acontecia na novela Dona Xepa. Assim, Xepa ficou Genu, Rosália agora era Mercedes, e Edson chamava-se Rodrigo.

Com o aumento da exportação de telenovelas para outros mercados televisivos – sendo que a grande maioria deles não era de língua portuguesa – a TV Globo começou, no final dos anos 80, a preparar versões dos seus maiores sucessos especificamente para venda internacional. Ao fazê-lo, certas decisões eram tomadas a nível editorial, de forma a tornar o produto mais apelativo e conveniente para outras emissoras. Essas decisões passavam por, entre outras, encurtar as novelas (removendo cenas consideradas supérfluas), uniformizar a duração dos capítulos e alterar aspetos como os genéricos e separadores de intervalo (seja no que toca ao seu idioma, ou mesmo à criação de aberturas completamente diferentes).

Embora a barreira linguística não se colocasse no caso de Portugal, a partir de 1989 (com a telenovela Amor com Amor se Paga), a RTP passou a receber estas “versões internacionais” ao invés das “versões originais” até então vistas pelos portugueses.

Lua Cheia de Amor não escapou a esta prática, sendo exibida entre nós numa versão de 170 capítulos de 38 minutos (em oposição à versão original brasileira, de 191 capítulos).

Sem jamais ter sido reexibida na televisão portuguesa, Lua Cheia de Amor pôde ser revista na TVE com o título de Dime Luna. Tratava-se da mesma versão de 170 capítulos que tinha sido exibida na RTP, dobrada em espanhol e com uma abertura idêntica à da versão original – uma evocação a Carmen Miranda, ao som de La Miranda, interpretada por Rita Lee –, com os créditos em espanhol.

Aquando da exibição na RTP, a abertura apresentada correspondia à da versão original, enquanto o encerramento era uma criação feita especificamente para exportação, com imagens de Marília Pêra a dançar com Francisco Cuoco, ao som de Só Você Vai Me Fazer Feliz (versão de I Can’t Help Falling In Love), interpretada por Julio Iglesias. Ambas tinham os créditos em português.

Aconteceram, porém, duas situações curiosas, prendendo-se a explicação para ambas com o próprio processo de criação das “versões internacionais” das telenovelas, preparadas no Brasil pela TV Globo. Dado que grande parte dos (potenciais) compradores de qualquer novela eram os outros países da América Latina, quase todos hispanofalantes, tudo aponta para que a preparação incidisse na criação de um master pronto para a dobragem em espanhol (ou seja, os capítulos remontados, com as aberturas e créditos devidamente traduzidos para espanhol). A versão portuguesa para a RTP era depois derivada deste preparado, sobrepondo-lhe os genéricos com os créditos em português.

Não se sabe ao certo se este trabalho de edição era efetuado pela RTP ou pela própria Divisão Internacional da Rede Globo – o que é certo é que, efetivamente, houve alguns erros na sua execução. Era frequente não aparecer na abertura o nome de Marília Pêra, o que se especula dever-se ao facto de esta abertura ser significativamente mais curta do que a maioria das aberturas de outras novelas, durando apenas 38 segundos em vez dos habituais 60. O nome de Marília Pêra aparecia muito rapidamente nos primeiros frames, o que não deixava grande margem para a perda de um ou dois segundos no processo de reposição da abertura portuguesa sobre a “versão internacional”. Esta imprecisão na edição fez com que o nome da protagonista fosse suprimido diversas vezes.

Uma das ocasiões em que foi mostrado o nome de Marília Pêra...

Por outro lado, no dia 18/06/1992, a abertura do capítulo 92 foi exibida com os créditos em espanhol, o que se explica com um simples esquecimento. Porém, a abertura mostrada por engano, como se verifica pelas imagens, é totalmente diferente da exibida em Espanha, tendo por fundo as imagens que, por cá, apenas eram vistas no encerramento. Tratava-se, presumidamente, da abertura concebida para o mercado latino.

A Vidisco lançou um álbum ‘pirata’, com temas interpretados pela banda Mar Azul.

Também a editora Espacial lançou a sua versão da banda sonora, em dois volumes.

Contudo, foram também vendidos por cá, importados do Brasil, alguns exemplares em CD da banda sonora original.

Lua Cheia de Amor