Milongo

Exibição:
15/02/1995 – 08/03/1995 (RTP 2)

Número de episódios:
04

Baseada num romance de:
Sacramento Neto

Guião:
Jayme Camargo

Coordenação:
Filipe Gomes (TVS)
Eduardo Gomes (RTPi)

Música original:
Carlos Carlos
Pedro Caldeira Cabral

Produção:
Atília Cargaleiro

Realização:
Bento Pinto da França

Elenco:
André Gago – Paulo
Catarina Matos – Nencha
José Gomes – Tavares
Alina Vaz – Amélia
Alfredo Brito – Ernesto
Alípio Lima – Sidónio
Maria do Carmo Neto – Colina
Gete Rita – Caúma
M. Lopes Cardoso – Médico
Cristina Barbosa – Dora
António Abreu – Padre
Humberto Garser – Nhô Varela

No início dos anos 50, em plena época de domínio colonial português, São Tomé e Príncipe serve de cenário a uma história de ambição, vingança e paixões proibidas.

Paulo (André Gago), recém-casado, chega ao arquipélago para trabalhar numa roça. Move-o a promessa de fortuna fácil e o desejo de um regresso rápido e próspero ao Alentejo, onde deixou a sua ambiciosa mas frágil esposa, Belinha.

Paulo

O que Paulo não imagina é que Ernesto (Alfredo Brito), o implacável administrador da roça, é o antigo namorado da sua mulher e, inconformado por ter sido trocado, vê nesta nova relação laboral a oportunidade perfeita para orquestrar uma vingança cruel.

Ernesto

Instalado em casa do feitor-geral Tavares (José Gomes) e da sua mulher, Amélia (Alina Vaz) – que o apoiam na adaptação à dura realidade colonial –, Paulo tenta resistir às adversidades. Porém, o seu destino sofre um revés ainda maior ao cruzar-se com Nencha (Catarina Matos), uma mulata bela e sedutora.

Nencha

Determinada a unir-se “em dignidade” ao homem branco e a fazer dele o objeto dos seus desejos, Nencha recorre ao feiticeiro Caúma (Gete Rita), que lhe prepara um milongo. Apesar da resistência inicial de Paulo, a força do feitiço e a sedução acabam por triunfar: Paulo transforma Nencha em sua samu – uma amante local que o arrastará para um romance proibido, ameaçando fazer desmoronar os seus planos e a sua sanidade.

Paulo (André Gago)
Natural do Alentejo e recém-casado com Belinha, deixa a mulher em Portugal e parte para São Tomé e Príncipe em busca de fortuna. Contratado como ajudante de Tavares, o seu único desejo é acumular riqueza e regressar rapidamente à sua terra natal. No entanto, a paixão avassaladora por Nencha vem perturbar irremediavelmente os seus planos.

Nencha (Catarina Matos)
Filha de mãe negra e de um antigo feitor branco da roça. Ao cruzar-se com Paulo, e ignorando que ele é casado, decide conquistá-lo como passaporte para a ascensão social com que sempre sonhou. Contudo, o interesse dá lugar a uma paixão real. A situação complica-se quando engravida e se depara com a rejeição daquele que acreditava ser o seu futuro.

Tavares (José Gomes)
Feitor-geral da roça. Homem sensato e ponderado, acolhe Paulo na sua própria casa. Ao perceber a crescente proximidade entre o alentejano e Nencha, tenta alertá-lo para os perigos desse envolvimento, pois conhece bem o poder e as consequências do milongo.

Amélia (Alina Vaz)
Mulher de Tavares. Natural do Porto, vive a solidão dos dias na roça e encontra nas visitas a oportunidade ideal para conversar. Solícita e calorosa, afeiçoa-se rapidamente a Paulo, de quem cuida com preocupação maternal. É também conhecida por ser uma cozinheira de mão cheia.

Ernesto (Alfredo Brito)
É o duro e inflexível administrador da roça. Antigo namorado de Belinha, cuja vaidade é ferida ao receber uma carta dela a interceder pelo novo marido. Recusando-se a aceitar que foi trocado, arquiteta uma vingança fria, que visa atingir os dois elementos do casal.

Colina (Maria do Carmo Neto)
Mãe de Nencha. No passado, engravidou de um homem branco e acabou abandonada com uma filha nos braços. Mais tarde, reconstruiu a vida ao lado de Sidónio, com quem teve outros filhos. Ciente das dinâmicas coloniais, tenta alertar Nencha de que está prestes a repetir o seu próprio destino.

Sidónio (Alípio Lima)
Enfermeiro no hospital da roça e padrasto de Nencha. Ao contrário de Colina, adota uma postura mais pragmática e, de forma discreta e subtil, ajuda a enteada a mover as peças necessárias para concretizar o plano de conquistar Paulo.

Caúma (Gete Rita)
Trabalhador da roça, é também um feiticeiro temido e respeitado e temido por todos – inclusivamente pelos mais céticos. Detentor dos segredos e mistérios locais, é ele quem prepara o poderoso milongo que Nencha utilizará para enredar e enfeitiçar Paulo.

Dora (Cristina Barbosa)
Amiga e confidente de Nencha.

Nhô Varela (Humberto Garser)
Trabalhador da roça.

Médico (M. Lopes Cardoso)
É chamado a intervir em dois momentos críticos, que colocam Paulo entre a vida e a morte: primeiro, após este ser picado por uma cobra-preta; mais tarde, quando o alentejano sofre uma grave intoxicação alimentar, secretamente provocada por Nencha.

Quim
Criado de Tavares e Amélia.

1. (15/02/1995)
São Tomé, início dos anos 50. Ernesto, o implacável administrador da roça, recebe uma carta de Belinha – a namorada que deixara em Portugal – a pedir emprego para o marido, Paulo. Movido pelo rancor, Ernesto aceita o pedido, arquitetando uma vingança cruel. Paulo desembarca no arquipélago cheio de ambição, mas também de receio perante um ambiente hostil e estranho. Logo à chegada, cruza-se com Nencha, uma bela mulata que se encanta de imediato com ele. O primeiro dia de trabalho é marcado pela morte trágica de um trabalhador picado por uma cobra-preta e por novos olhares trocados com Nencha, o que agrada a Ernesto. No domingo, ao ver a jovem no rio, Paulo é alertado por Tavares de que as mulheres locais costumam enfeitiçar os brancos com o milongo. Determinada a conquistá-lo, Nencha convence o padrasto a mudarem-se para a roça, contra a vontade da mãe. Contudo, a falta de adaptação ao calor e à dura realidade colonial minam os nervos de Paulo que, num acesso de raiva, agride o respeitado feiticeiro Caúma. Furioso com a afronta ao homem que já lhe salvara a vida, Ernesto manda punir o recém-chegado.


2. (22/02/1995)
A pedido de Ernesto, Amélia aceita orientar Nencha nas suas novas funções no hospital da roça. É aí que a jovem conhece o feiticeiro Caúma, que recupera do braço partido por Paulo. Ao descobrir os seus dons, Nencha pede-lhe um milongo para conquistar o branco. Entretanto, Paulo regressa de uma curta temporada no Príncipe com um plano para expandir a roça. Num golpe maquiavélico, Ernesto escala Caúma para a equipa de limpeza de terreno liderada por Paulo. O perigo espreita e Paulo acaba mesmo por ser mordido por uma cobra-preta. É o saber do feiticeiro que o salva da morte certa, aplicando-lhe um remédio local. Fora de perigo, Ernesto dispensa Paulo do trabalho por uns dias, deixando-o propositadamente a recuperar sob os cuidados de Nencha. Fragilizado e isolado na convalescença, o jovem aventureiro não resiste à tentação e propõe a Nencha que seja sua samu.


3. (01/03/1995)
Entre a malícia e a bisbilhotice, Amélia vai tentando “tirar nabos da púcara” e avisa Paulo de que é preciso fugir da cobra-preta, mas também da morena bonita. A tensão aumenta quando Ernesto anuncia o seu regresso à metrópole, deixando Paulo consumido pelo ciúme e pelo medo de que o rival procure a sua esposa. Pouco depois, Tavares e Amélia mudam-se para a sede, deixando Paulo sozinho na casa do feitor. Sentindo-se abandonado e vulnerável, o alentejano recebe uma carta de Belinha onde ela confirma o antigo namoro com Ernesto. Julgando-se traído pela ambição da mulher, Paulo deixa-se levar de vez pelos encantos de Nencha e, para a seduzir, promete-lhe casamento e acolhe-a em sua casa. O tempo passa e, após o nascimento do filho de ambos, Paulo passa a rejeitá-la. É então que chega uma nova carta que muda tudo: Paulo percebe que julgou mal a esposa e que Ernesto a está a subjugar em Portugal, tendo comprado a herdade onde ela trabalha. Encurralado entre o dever e o erro, Paulo decide que tem de regressar à metrópole.


4. (08/03/1995)
Confrontada com a verdade, Nencha sente-se profundamente enganada e magoada ao saber que Paulo é casado e está determinado a regressar a Portugal. Desesperada, a jovem procura novamente o feiticeiro Caúma. Antes da partida do amante, implora-lhe que cumpra um último desejo: batizar o filho de ambos. Paulo cede, mas o atraso fá-lo perder o navio. Durante a cerimónia, Sidónio aproveita para enviar secretamente, para a metrópole, um envelope com uma fotografia do novo núcleo familiar de Paulo, que é obrigado a esperar dois meses pelo próximo barco. Nencha simula conformismo, mas não desiste de prender o homem branco. No dia da nova partida, prepara-lhe uns biscoitos que lhe provocam uma grave intoxicação alimentar. Percebendo a armadilha, Paulo culpa Nencha por ter ficado em terra mais uma vez e expulsa-a de casa. À terceira tentativa de embarque, e com a ajuda de Tavares, Paulo consegue finalmente livrar-se da pressão da samu. Contudo, quando o navio está prestes a zarpar, recebe a notícia dramática de que Nencha está entre a vida e a morte.

Milongo foi inteiramente rodada na República de São Tomé e Príncipe, durante os meses de julho e agosto de 1993, aproveitando os magníficos cenários do arquipélago. O argumento baseou-se no romance de Sacramento Neto, padre e escritor daquele país africano.

Tratou-se da primeira co-produção entre a RTP – a partir de uma iniciativa da RTPi – e a TVS (Televisão Santomense). Um dos autores da ideia foi Eduardo Gomes, da RTPi, que assumiu a coordenação a meias com Filipe Gomes, da TVS.

São Tomé e Príncipe era um país com estruturas de produção televisiva e cinematográfica ainda em desenvolvimento, o que fez das gravações uma verdadeira aventura.

Coube ao brasileiro Jayme Camargo adaptar às exigências da linguagem televisiva a história de amor incandescente passada no início dos anos 50, num cenário marcado pelos confrontos – às vezes mais violentos, outras apenas surdos – entre colonos e africanos.

“Milongo” é uma palavra angolana que significa “remédio”. Trata-se de um preparado com força natural, devido às plantas com que é feito, mas também condimentado com uma certa força mágica, resultante de ritos.

A série foi exibida na TV2 às quartas-feiras, por volta das 23:40.

No dia da estreia, logo após o primeiro episódio, foi transmitido um making of, com o título de Paulo e Nencha (ou Tentações do Paraíso) – Sobre a Rodagem da Série “Milongo”, assinado por João Garção Borges e com locução de Eládio Clímaco.

Neste documentário, foram entrevistados: Sacramento Neto, autor da história original; os dois protagonistas, Catarina Matos e André Gago; e o realizador, Bento Pinto da França.

Sacramento Neto
Catarina Matos
André Gago
Bento Pinto da França

Um dos aspetos focados foi o trabalho de restauro que foi necessário levar a cabo nos edifícios utilizados como cenários. Veja-se, por exemplo, o resultado na casa onde vivia o casal Tavares (José Gomes) e Amélia (Alina Vaz), cuja frente foi completamente renovada, em comparação com a sua lateral, praticamente em ruínas.

Várias cenas foram gravadas nas antigas roças da época colonial, destacando-se a Roça Agostinho Neto, que serviu de sede; a Roça Água Izé, cuja fachada representava o hospital; e a Roça Belo Monte, na Ilha do Príncipe, aonde Paulo (André Gago) se desloca fugazmente.

Roça Agostinho Neto
Roça Água Izé
Roça Belo Monte

Milongo obteve uma Menção Honrosa na X Mostra Atlântica dos Açores, em 1994.

A série encontra-se disponível para visualização no portal RTP Arquivos.

Milongo