Os Maias

Exibição:
10/05/1979 – 31/05/1979 (RTP 1)

Número de episódios:
04

Peça teatral de:
José Bruno Carreiro

Extraída do romance de:
Eça de Queiroz

Adaptada e realizada por:
Ferrão Katzenstein

Elenco:
Carlos de Carvalho – Carlos da Maia
Rui Mendes – Pedro da Maia
Curado Ribeiro – Afonso da Maia
Vicente Galfo – João da Ega
Carlos Duarte – Craft
Canto e Castro – Dâmaso Salcede
Ruy de Carvalho – Marquês de Souselas
João D’Ávila – Vilaça
Vítor de Sousa – Taveira
Lia Gama – Maria Eduarda
Julie Sergeant – Rosa
Maria Amélia Matta – Melanie
Maria Alberta – Miss Sarah
Armando Venâncio – Domingos
Couto Viana – Baptista
Joel Branco – Teles da Gama
Artur Semedo – Joaquim Guimarães
Rubens de Falco – Castro Gomes

A ação de Os Maias desenrola-se em Lisboa, na segunda metade do século XIX. Afonso da Maia (Curado Ribeiro), aristocrata e rico proprietário, teve um único filho, Pedro da Maia (Rui Mendes), educado pela mãe dentro de um falso religiosismo. Frequentador de botequins e bordéis, acaba por fazer um casamento contra a vontade do pai, do qual nascem duas crianças: um rapaz e uma rapariga. A mulher, Maria Monforte, foge com um napolitano e leva consigo a filha, nunca mais se sabendo da pequena. Pedro da Maia, desolado, suicida-se, ficando o filho entregue ao avô. Carlos da Maia (Carlos de Carvalho), educado amorosamente pelo velho Afonso, faz-se um bonito e inteligente rapaz. Forma-se em Medicina e rodeia-se de alguns amigos. Relaciona-se com a Condessa de Gouvarinho, em casa de quem um dia fica deslumbrado ao encontrar Maria Eduarda (Lia Gama)…

Aqui começa o desenrolar dramático do romance mais extenso de Eça de Queiroz, onde se pinta, com bastante perspicácia, a sociedade da segunda metade do século passado. Cenas da vida portuguesa de então são-nos dadas através do típico ambiente de Lisboa, onde não faltam os espetáculos e as reuniões familiares, as receções semanais, os jogos, as corridas de cavalos, as secretas e intencionais visitas, os passeios pelas ruas, as ceias em hotéis, etc., não esquecendo os saborosos diálogos onde, entre o estilo primoroso de uma boa harmonia expressiva, se reflete o “chique”, umas vezes afetado, outras cínico, da gente fina da Lisboa de então.

Carlos da Maia (Carlos de Carvalho)
Neto de Afonso e filho de Pedro. É um diletante rico, com formação inglesa e pretensões de ser médico, mas que não leva nenhum projeto até ao fim. O seu percurso é marcado pela fatalidade, culminando no amor incestuoso com Maria Eduarda, sua irmã, e na desistência de uma vida com propósito.

Pedro da Maia (Rui Mendes)
Filho de Afonso e pai de Carlos. É um homem de construção frágil e temperamento ultra-romântico, marcado por uma grande cobardia moral. Apaixona-se loucamente por Maria Monforte, mas, após ser abandonado por ela, comete suicídio no Ramalhete.

Afonso da Maia (Curado Ribeiro)
Patriarca da família Maia, representa os valores do “Velho Portugal” honrado, culto e liberal. É um homem de princípios morais firmes e de grande generosidade. Dedica a sua vida a educar Carlos e morre de apoplexia ao tomar conhecimento do incesto entre os seus dois netos.

João da Ega (Vicente Galfo)
Melhor amigo e confidente de Carlos desde os tempos de Coimbra. É um intelectual boémio, cético e polemista. Tem grandes projetos literários e artísticos, mas nunca concretiza nenhum, assumindo-se como um falhado influenciado pela decadência lisboeta.

Craft (Carlos Duarte)
Amigo inglês de Carlos e Afonso, culto e apreciador de arte, que vive em Lisboa. A sua presença serve para realçar o contraste entre a organização e a seriedade da cultura inglesa e o diletantismo e a desorganização da sociedade lisboeta.

Dâmaso Salcede (Canto e Castro)
Símbolo do “novo-riquismo” e da burguesia tacanha e fútil de Lisboa. É um parasita social, cobarde e vaidoso, que se expõe ao ridículo ao tentar denegrir Carlos da Maia por ciúmes de Maria Eduarda, revelando-se uma figura mesquinha e de fraco caráter.

Marquês de Souselas (Ruy de Carvalho)
Uma das personagens que frequentam o Ramalhete. É um representante da decadente aristocracia lisboeta. Não possui um grande papel no enredo, mas participa nos encontros e debates, sendo uma figura social que ajuda a compor o quadro da sociedade criticada por Eça.

Taveira (Vítor de Sousa)
Amigo do grupo de Carlos, com tendências boémias. É uma figura secundária que participa nos encontros sociais e nas ceias, surgindo associado a João da Ega e ao ambiente de crítica e futilidade da sociedade lisboeta.

Maria Eduarda (Lia Gama)
O grande amor da vida de Carlos da Maia e, tragicomicamente, a sua irmã. É uma mulher de grande beleza, elegância natural e um ar sereno e misterioso. Chega a Lisboa como a “Sr.ª Castro Gomes”, mas a sua identidade revela-se a principal intriga da história.

Rosa (Julie Sergeant)
Filha de Maria Eduarda. É uma criança adorável e bem-educada, cuja doença faz Carlos visitá-la e, consequentemente, aproximar-se da sua mãe.

Miss Sarah (Maria Alberta)
Governanta inglesa de Maria Eduarda. Tem uma visão bastante negativa de Lisboa e de Portugal, sobretudo no que respeita ao clima.

Domingos (Armando Venâncio)
Mordomo de Maria Eduarda.

Teles da Gama (Joel Branco)
Procura Carlos da Maia para questionar o porquê de este ter ameaçado arrancar as orelhas a Dâmaso.

Castro Gomes (Rubens de Falco)
O homem com quem Maria Eduarda diz estar casada. É um rico brasileiro a quem ela se ligara em Paris. A sua aparição em Lisboa desmente a história de Maria Eduarda sobre o casamento, descobrindo-se que ela nunca foi sua esposa legítima.

Joaquim Guimarães (Artur Semedo)
Conhecido de Maria Monforte. É o homem que traz as provas documentais a Lisboa (entregues a João da Ega), revelando que Maria Eduarda é a filha de Maria Monforte e, consequentemente, irmã de Carlos, desvendando o incesto.

Vilaça (João d’Ávila)
Administrador dos bens da família Maia. É procurado por João da Ega, que com ele partilha a revelação que lhe foi feita por Joaquim Guimarães. Toma para si a difícil missão de contar a Carlos sobre a verdadeira identidade de Maria Eduarda.

Esta adaptação televisiva de Os Maias foi transmitida em quatro partes, às quintas-feiras, por volta das 22:00.

José Bruno Carreiro (1880-1957), autor de origem açoriana, escreveu a peça que deu origem à adaptação em 1903.

A peça foi apresentada ao público, no Teatro Nacional D. Maria II, em 1945, por altura do primeiro centenário do nascimento de Eça de Queiroz. Faziam parte do elenco, entre outros, Amélia Rey Colaço (Maria Eduarda) e Raul de Carvalho (Carlos da Maia). A estreia, ocorrida a 24/11 daquele ano, revestiu-se de um estrondoso sucesso, com o D. Maria repleto de altas individualidades e personalidades da grande sociedade de então.

Contou, além disso, com a estreia de Lurdes Norberto, que na época tinha apenas nove anos, no papel da pequena Rosa, filha de Maria Eduarda.

Lurdes Norberto e Amélia Rey Colaço

Em 1977, Ferrão Katzenstein iniciou uma série de tentativas frustradas para obter o texto original. Acabou por consegui-lo através dos herdeiros do autor, localizados com a colaboração da delegação da RTP nos Açores.

Nesta versão da RTP, o papel de Rosa foi interpretado por Julie Sergeant, igualmente com nove anos.

Carlos de Carvalho e Julie Sergeant

A peça foi publicada em 1984, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Essencialmente gravada em estúdio, Os Maias contou também com algumas cenas de exterior, rodadas na Quinta da Penha Longa, em Sintra, na Fundação Espírito Santo e no bairro da Lapa, em Lisboa.

A série contou com a participação de Rubens de Falco, no papel de Castro Gomes. O ator brasileiro era sobejamente conhecido do público português pela sua participação nas novelas GabrielaEscrava Isaura e O Astro, que ainda se encontrava em exibição na RTP aquando da estreia de Os Maias.

Em 1980, o programa Sheiks com Cobertura fez uma sátira à série, uma “microtelenovela” intitulada Os Saias, com Henrique Viana e Henriqueta Maya nos principais papéis.

Artur Semedo fez em Os Saias um papel equivalente ao que interpretou em Os Maias: em ambas as histórias, era o responsável por revelar o incesto entre os protagonistas.

Artur Semedo como Guimarães em Os Maias
… e como Braga em Os Saias

A série foi reapresentada em duas ocasiões:

– De 07/12/1984 a 28/12/1984, às sextas-feiras, às 20:00, na RTP 2;

– De 19/09/1986 a 10/10/1986, às sextas-feiras, às 16:00, na RTP 1.

Carlos de Carvalho, ator português radicado em Itália – Os Maias foi o seu primeiro trabalho em Portugal –, estava de passagem por Lisboa aquando da reposição de 1984 e, a pedido do semanário Se7e, escreveu um artigo onde deu um testemunho sobre a sua participação na série.

Embora considerasse Os Maias “uma aposta ganha, apesar de tudo”, o ator não se fez de rogado em enumerar uma série de problemas.

Em primeiro lugar, criticou o texto de Bruno Carreiro:

Devo dizer que o lado mais fraco do programa me parece ser justamente o da dramaturgia. A modesta adaptação teatral de Bruno Carreiro, utilizada como base para a versão televisiva de Ferrão Katzenstein, fica muito aquém das grandes qualidades do romance de Eça de Queiroz. Particularmente infelizes os diálogos, que, já inadequados para o palco, eram inaceitáveis para o «específico televisivo». […] Só revi alguns momentos de Os Maias – tenho pouca paciência para ver aquilo que faço […] mas lembro-me de ter combatido contra diálogos coxos, sem vida, filologicamente corretos mas pouco adequados à linguagem cinetelevisiva.

Manifestou também o seu desagrado em relação ao pouco rigor de alguns dos profissionais envolvidos na série:

Outro problema foi a diversidade de escolas (ou a ausência delas) dos atores, com a necessidade de homogeneizar um naipe que ia do surrealismo de um Canto e Castro ao naturalismo de um Rubens de Falco. Um trabalho particularmente delicado para a realização. Diversos, também os métodos de trabalho. Pessoalmente, senti-me bastante confuso durante os primeiros ensaios. Habituado à pontualidade britânica, era-me difícil trabalhar com pessoas convocadas para as nove da manhã que começavam a chegar pelas dez e meia, comentavam fait-divers até ao meio dia e, pela uma da tarde, já estavam prontas para aprofundar a problemática das alheiras e do bacalhau. Mas, à medida que o programa tomava forma, a coisa melhorou e, por fim, conseguimos obter um bom ritmo de trabalho, sobretudo com a presença dos cameramen na sala de ensaio. Conseguiu-se, então, criar aquela atmosfera de esforço coletivo total graças à qual foi possível ultrapassar as muitas dificuldades concretas.

Por fim, apontou o dedo à falta de meios da RTP:

A gravação em estúdio foi uma aventura. Trabalhando com meios técnicos há muito ultrapassados, em condições aparentemente impossíveis, com falta de tempo, de espaço, num velho barracão sem condições de som, os técnicos conseguiram milagres. As telecâmaras, então em operação na Alameda, eram «dinossauros» que eu pensava só existissem nos museus, e não é uma anedota quando digo que mais de uma vez tivemos de parar a gravação porque a passagem de um avião, a caminho da Portela, tornava o som inaceitável.

Ferrão Katzenstein realizou para televisão adaptações de outras duas obras de Eça de Queiroz: A Tragédia da Rua das Flores (1982) e O Mandarim (1991).

Em 2001, Os Maias foi alvo de uma adaptação produzida pela Rede Globo em parceria com a SIC. Nesta minissérie, foram introduzidas algumas personagens de outras duas obras do autor: A Relíquia e A Capital.

A série encontra-se disponível para visualização no portal RTP Arquivos.

Os Maias