Exibição:
13/09/1993 – 09/03/1994 (RTP 2)
Número de programas:
24
Autoria e apresentação:
António Victorino d’Almeida
Realização:
Carlos Sá Pereira
Exibição:
13/09/1993 – 09/03/1994 (RTP 2)
Número de programas:
24
Autoria e apresentação:
António Victorino d’Almeida
Realização:
Carlos Sá Pereira
Ouvir e Falar é um concurso musical idealizado e apresentado pelo maestro António Victorino d’Almeida, dedicado à descoberta e valorização de jovens talentos em início de carreira.

A estrutura do programa assenta na dinâmica de um tribunal musical onde tudo funciona a preceito. Em cada emissão, um ou mais jovens concorrentes são propostos por um “patrono”, que assume o papel de advogado de defesa. A prestação dos candidatos, avaliada com base na técnica, no estilo e na sensibilidade de interpretação, é depois debatida e “julgada” pelas várias partes do tribunal.

Neste debate, o patrono enfrenta um promotor de justiça, papel desempenhado por um crítico musical. Ao maestro António Victorino d’Almeida cabe a função de juiz, gerindo o tempo e o tom da discussão. Se o patrono e o crítico se alongarem demasiado nos seus argumentos, o juiz mostra-lhes um “cartão amarelo” sonoro (a Sinfonia n.º 40 de Mozart); se fugirem aos temas centrais da avaliação, recebem um “cartão vermelho” (pontuado pela Sinfonia n.º 5 de Beethoven).

O veredicto final fica a cargo de um grupo de dez jurados, composto por pessoas não ligadas profissionalmente à música. A pontuação máxima que um concorrente pode obter é de 250 pontos. Ao fim de cada ciclo de 12 programas, o intérprete mais votado é consagrado vencedor e recebe como prémio uma viagem.

Para além da vertente de concurso, o programa conta sempre com a presença de um nome consagrado da música ligeira portuguesa. Enquanto o júri delibera, este artista, depois de conversar com o maestro, protagoniza um interlúdio musical.

No final da emissão, o maestro, os concorrentes e os convidados reúnem-se no palco para uma atuação conjunta, encerrando o programa num clima de grande confraternização.

1. (13/09/1993)
Concorrentes:
Afonso Malão (piano)
Ana Sofia Mota (violino)
Patrono:
Olga Prats
Crítico:
Paulo Lameiro
Atuação:
Mísia
2. (20/09/1993)
Concorrente:
Paulo Jorge Ferreira
Patrono:
Fernando Ribeiro
Crítico:
Francisco Ferreira
Atuação:
José Cid
3. (27/09/1993)
Concorrentes:
José Manuel Tavares
João Moita
Rogério Pires
Patrono:
Paulo Vaz de Carvalho
Crítico:
Paulo Valente Pereira
Atuação:
Júlio Pereira
4. (04/10/1993)
Concorrente:
Maria Alexandra Eiras
Patrono:
Manuela Araújo
Crítico:
Maria Helena de Freitas
Atuação:
José Mário Branco
5. (11/10/1993)
Concorrente:
António Augusto Rodrigues (trompa)
Acompanhado ao piano por Carla Seixas
Patrono:
António Costa
Crítico:
Gunther Arglebe
Atuação:
Marco Paulo
6. (18/10/1993)
Concorrente:
Filipe Pinto Ribeiro
Patrono:
Pedro Burmester
Crítico:
António Pinho Vargas
Atuação:
Rita Guerra
7. (25/10/1993)
Concorrentes:
Luís António Mota (barítono)
David Mário Henriques (piano)
Patrono:
Helena Vieira
Crítico:
Palmira Troufa
Atuação:
Jorge Palma
8. (01/11/1993)
Concorrentes:
Luís Miguel Gomes (clarinete)
Ana Isabel Antunes (piano)
Joaquim Paulo Rodrigues (violino)
Patrono:
Olga Prats
Crítico:
Ivo Cruz
Atuação:
Sérgio Godinho
9. (08/11/1993)
Concorrente:
Fátima Travanca
Patrono:
Helena Sá e Costa
Crítico:
Cândido Lima
Atuação:
Isabel Silvestre
10. (15/11/1993)
Concorrentes:
Cláudia Pereira Pinto
Constantino Sandu
Patrono:
Isabel Mallaguerra
Crítico:
Rui Taveira
Atuação:
Amélia Muge
11. (22/11/1993)
Concorrente:
Maria de Lurdes Alves
Patrono:
António Cunha e Silva
Crítico:
Gunther Arglebe
Atuação:
Manuel Freire
12. (29/11/1993)
Concorrentes:
Francisco Ferreira (saxofone)
Manuela Araújo (piano)
Patrono:
Alberto Costa Santos
Crítico:
Mário Mateus
Atuação:
Lena d’Água
13. (06/12/1993)
Concorrentes:
Ana Sofia Sequeira
João Pedro Fonseca
Patrono:
Piñeiro Nagy
Crítico:
Mário Anacleto
Atuação:
Pedro Barroso
14. (13/12/1993)
Concorrente:
João Luís Jara
Patrono:
Carla Seixas
Crítico:
Jorge Vaz de Carvalho
Atuação:
Mário Laginha
15. (20/12/1993)
Concorrentes:
Coro Profabril
Patrono:
Vítor Manuel Roque Amaro
Crítico:
Borges Coelho
Atuação:
Eugénia Melo e Castro
16. (27/12/1993)
Concorrente:
Sofia Lourenço
Patrono:
Helena Sá e Costa
Crítico:
Luís Alves
Atuação:
Mafalda Veiga
17. (12/01/1994)
Concorrentes:
Helena Cabral (flauta)
Arminda Barbosa (piano)
Patrono:
Gunther Arglebe
Crítico:
Bernard Ravelle-Chaplis
18. (26/01/1994)
Concorrente:
David Santos
Patrono:
António Toscano
Crítico:
Maria da Graça Mota
Atuação:
Luís Portugal
19. (02/02/1994)
Concorrentes:
Nuno Silva
Carlos Alves
António Moreira Jorge
Patrono:
António Saiote
Crítico:
Paula Aresta
Atuação:
Paulo de Carvalho
20. (09/02/1994)
Concorrentes:
Fernando Jorge (trompete)
Augusto Rodrigues (trompa)
Zeferino Pinto (trombone)
Patrono:
António Costa
Crítico:
Fernando Serafim
Atuação:
Maria Viana
21. (16/02/1994)
Concorrentes:
Francisco Luís Vieira (oboé)
Vera Prokic (piano)
Patrono:
Lopes da Cruz
Crítico:
Leonardo Barros
Atuação:
Maria João
Mário Laginha
22. (23/02/1994)
Concorrentes:
Rosário Ferreira (voz)
João Queirós (piano)
Patrono:
Annerose Gilek
Crítico:
Salwa Castelo-Branco
Atuação:
Luís Represas
23. (02/03/1994)
Concorrentes:
Claire Honigsbaum (piano)
Nuno Ferreira (guitarra)
Nelson Cascais (contrabaixo)
Jorge Moniz (bateria)
Patrono:
Laurent Filipe
Crítico:
Luiz Villas-Boas
Atuação:
Carlos Guilherme
24. (09/03/1994)
Concorrentes:
Eduardo Lopes (percussão)
Jorge Martins (piano)
Patrono:
Mário Azevedo
Crítico:
Filipe Pires
Atuação:
Maria Guinot
Antes de ver aprovado o projeto de Ouvir e Falar, António Victorino d’Almeida apresentara diversas propostas de programas à RTP, queixando-se da ausência total de respostas por parte da estação pública. Um desses projetos intitulava-se Vinte Anos Depois – uma referência à sequela de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas – e consistia numa espécie de reedição do célebre Histórias da Música, de 1972, planeada para ser novamente gravada em Viena.
Embora esse projeto não tenha vingado, o maestro acabou por negociar com a RTP um formato alternativo, desenhado a partir de uma contraproposta a uma ideia que lhe tinha sido apresentada pela própria televisão estatal. O resultado foi um formato híbrido, entre o concurso e o talk-show, que assentou na recriação de um tribunal musical. Esta ideia adveio do próprio maestro, que a justificou desta forma: “Não gosto de concursos, e portanto quis fazer um concurso que de certa forma fosse um anticoncurso. Portanto, um concurso em que as pessoas assumissem todas a sua responsabilidade, o que normalmente não acontece, porque há um que assume a responsabilidade e depois há uma data de encapotados que votam anonimamente”.

O título do programa deveu-se precisamente ao alinhamento de cada emissão. A escolha de Ouvir e Falar refletiu de forma direta as duas grandes dinâmicas do formato: num primeiro momento, ouvia-se a prestação musical dos jovens talentos; logo de seguida, passava-se ao debate – o ato de falar – entre o crítico e o patrono, sob a mediação do juiz.
As gravações decorreram nos estúdios da RTP Porto, no Monte da Virgem.

De forma a simplificar o processo de seleção dos concorrentes, e ao invés de enviar circulares para as escolas de música, o próprio maestro assumiu a responsabilidade de escolher os patronos. Entre os nomes mais sonantes do panorama nacional que aceitaram desempenhar este papel estiveram os pianistas Olga Prats e Pedro Burmester, a cantora lírica Helena Vieira, a apresentadora Paula Aresta e o músico de jazz Laurent Filipe.





Num gesto que se tornou simbólico, no final de cada emissão, António Victorino d’Almeida oferecia a sua própria bengala ao patrono convidado.

Já no que respeita aos jurados, a seleção competiu inteiramente à produção do programa, sem qualquer interferência do apresentador. O único critério exigido era o de que não percebessem nada de música, estabelecendo um paralelismo com os jurados dos tribunais reais, que não têm de dominar o Direito. Alguns elementos do júri foram-se renovando, embora não totalmente, para não prejudicar o equilíbrio do programa.
Era apurado um vencedor a cada 12 programas. Foram, portanto, apenas dois os felizes contemplados: Francisco Ferreira – que fora também crítico na segunda emissão – e Rosário Ferreira.


Ouvir e Falar promoveu a união entre a música erudita, interpretada pelos concorrentes, e a música ligeira, a cargo de um convidado em cada emissão.























Esta mistura invulgar mereceu uma crítica feroz de Maria Filomena Mónica nas páginas do jornal O Independente. A socióloga classificou o programa como “uma caldeirada entre o erudito e o popular”, fundamentando a sua opinião com o momento em que Marco Paulo interpretou o clássico ’O Sole Mio, acompanhado ao piano pelo próprio maestro.

Em entrevista à revista TV Guia, António Victorino d’Almeida insurgiu-se contra as críticas e acusou Maria Filomena Mónica de nutrir uma relação de amor-ódio pelo cantor popular. Para ilustrar o argumento, comparou a situação à tempestuosa relação entre Márcia (Malu Mader) e Felipe (António Fagundes), os protagonistas da telenovela brasileira O Dono do Mundo, que a RTP1 exibia por essa altura. A propósito, o maestro chegou a tocar no programa o tema Querida, de Tom Jobim, que servia de genérico de abertura à referida novela.

Na 17.ª emissão, o convidado musical deveria ter sido o fadista Paulo Bragança, que não compareceu à gravação. Como o artista era conhecido por atuar habitualmente descalço, o maestro não perdeu a oportunidade de brincar com o percalço, comentando com humor que o fadista tinha deixado a produção “descalça”.
No balanço do programa, o maestro revelou-se profundamente satisfeito com o impacto do formato, declarando: “Estou contente, pois dei a mim próprio e ao país um lado em que o mundo musical português não é só desemprego, não é só frustrações, orquestras fechadas, companhias de ópera dissolvidas, greves de orquestras, etc. É também uma data de gente cheia de talento, de preparação, de seriedade, de capacidade para garantir o futuro musical em Portugal. Acho que não se poderia dar um futuro mais animador do que este”.
O tema do indicativo do programa era o mesmo da série Polícias.
O programa encontra-se disponível para visualização no portal RTP Arquivos.
