Pato com Laranja

Título original:
L’Anatra all’Arancia

Exibição:
21/09/1983 (RTP 1)

Produção:
1975

Argumento:
Bernardino Zapponi

Realização:
Luciano Salce

Elenco:
Ugo Tognazzi – Livio Stefani
Monica Vitti – Lisa Stefani (esposa de Livio)
Barbara Bouchet – Patty (secretária e amante de Livio)
John Richardson – Jean-Claude (amante de Lisa)
Sabina De Guida – Cecilia (empregada do casal Stefani)
Antonio Allocca – Carmine (empregado do casal Stefani)

Livio (Ugo Tognazzi), conhecido publicitário italiano, descobre que sua mulher Lisa (Monica Vitti) o engana e consegue convencê-la a dar pormenores sobre a sua ligação extraconjugal.

Lisa e Livio

Lisa conta-lhe que o seu amante é Jean-Claude (John Richardson), um rico proprietário francês, e que o conheceu durante uma receção numa embaixada. Revela-lhe, ainda, que pretende divorciar-se e casar-se com Jean-Claude, com quem partirá daí a dias para Espanha.

Jean-Claude e Lisa

Livio, aparentemente calmo e nada espantado, pede a Lisa que convide Jean-Claude a passar o próximo fim de semana em casa de ambos, com o pretexto de poder conhecê-lo melhor.

Livio convida Jean-Claude

Por outro lado, pede à sua exuberante secretária Patty (Barbara Bouchet) que se junte a eles. Quanto Patty chega, Lisa descobre que ela está longe de ser a “pinha seca” que Livio costumava descrever.

Livio e Patty

Livio mostra-se amabilíssimo, mas usa de várias manhas para reter Lisa: manda cozinhar pato com laranja – símbolo da lua-de-mel que o casal celebrava anualmente –, levando-a a recordar os bons tempos que passaram juntos.

Simultaneamente, utiliza todos os recursos da sua imaginação para convencer Jean-Claude de que Lisa é muito diferente do que ele imagina, ao mesmo tempo que usa os atributos físicos da secretária para fazer ciúmes à sua “futura ex-mulher”.

Após várias peripécias, Lisa acaba por partir no iate de Jean-Claude, mas logo volta a nado para Livio, que chama por ela, destroçado, dentro do seu “gasolina” avariado. O pato com laranja triunfara em toda a linha…

Livio Stefani (Ugo Tognazzi)

Lisa Stefani (Monica Vitti)

Jean-Claude (John Richardson)

Patty (Barbara Bouchet)

Pato com Laranja é uma comédia italiana para adultos, realizada em 1975 por Luciano Salce, que esteve no centro de uma das maiores polémicas da história da televisão portuguesa.

O argumento, assinado por Bernardino Zapponi – colaborador regular do realizador Federico Fellini –, é uma adaptação da peça The Secretary Bird, escrita em 1967 pelo dramaturgo britânico William Douglas-Home.

A obra contou também com uma adaptação francesa: Le Canard à l’Orange, escrita por Marc-Gilbert Sauvajon. Esta versão serviu de base a uma encenação feita no Teatro Villaret em 1975 (o mesmo ano em que foi produzido o filme), com um elenco que incluía nomes como Badaró, Laura Soveral e Carmen Mendes.

O filme passara nas salas de cinema portuguesas em 1976, com a classificação de “não aconselhável a menores de 13 anos”. O Comissariado para o Cinema e para a Rádio, ligado à Igreja Católica, não classificou o filme, nos seus boletins informativos, como ‘pornográfico’ mas somente como ‘filme para adultos’.

A polémica estalou devido a uma alteração de última hora na grelha da RTP. A película inicialmente programada para a rubrica Noite de Cinema de 21/09/1983, uma quarta-feira, era Longe da Multidão (Far from the Madding Crowd), de 1967.

Programação da TV Guia

No entanto, com apenas 24 horas de antecedência, foi anunciada a exibição de Pato com Laranja. Alegadamente, devido à elevada qualidade de Longe da Multidão, os serviços de cinema da RTP decidiram, à última hora, reservar esta obra para uma época mais nobre – provavelmente inserida na programação de outubro ou novembro –, optando por substituí-la pelo filme italiano.

A alteração foi refletida nos jornais do próprio dia, com algum destaque, sem que nada fizesse prever a onda de choque que a sua transmissão viria a causar na sociedade portuguesa de então.

Destaque no Diário de Lisboa (21/09/1983)

O filme, uma comédia de costumes tipicamente italiana, apresentava diálogos muito livres e cenas que, para os padrões da televisão pública de 1983, foram consideradas excessivamente ousadas, acabando por desencadear, segundo a imprensa, “uma chuva de telefonemas de protesto”, recebidos na RTP durante a projeção da película.

Perante esta reação de alguns setores do público, Luís Andrade, que acabara de assumir a direção de programas, foi chamado de urgência e intimado a explicar, de viva voz, no final do filme, o que se tinha passado: tratava-se de uma substituição de última hora, pelo que o filme não tinha sido previamente visionado. Anunciou, também, que o conselho de gerência tinha ordenado um inquérito para averiguação de responsabilidades.

Refira-se que, apesar de ter assumido o cargo recentemente, Luís Andrade não era ainda responsável efetivo pela programação da RTP (apenas o seria a partir de 17 de outubro). Coube-lhe, assim, dar o rosto por uma decisão que tecnicamente ainda não era sua.

Correio da Manhã (23/09/1983)

Reunido de emergência, na manhã do dia seguinte, o conselho de gerência da RTP emitiu o seguinte comunicado:

Na noite de 21 de Setembro, após o Telejornal das 20 horas, a Radiotelevisão Portuguesa emitiu um filme com o título Pato com Laranja, legendado, em substituição do filme Longe da Multidão, que fora anunciado anteriormente e que estava inserido na programação. Os serviços que procederam a esta substituição são inteiramente responsáveis pela emissão de uma película que o conselho de gerência considera imprópria para exibição nos canais da Radiotelevisão Portuguesa, o que não respeita minimamente as regras estabelecidas quanto à classificação de espetáculos. O conselho de gerência, em face do que, pelo menos, é resultado de uma imperdoável incúria, vai proceder a um rigoroso inquérito e à aplicação das mais severas medidas disciplinares.

Contactado pelo jornal A Capital, o Dr. João Palma-Ferreira, presidente do conselho de gerência da RTP, confirmou que Pato com Laranja não tinha sido previamente visionado nem classificado etariamente. Considerando este filme “pornográfico”, Palma-Ferreira anunciou que levaria o caso até às últimas consequências. Para o administrador, tratava-se de “uma manobra interna para pôr em xeque, diretamente, a administração desta empresa”.

O mesmo jornal tentou contactar o responsável pelos serviços de cinema da RTP, Seixas Santos, que se encontrava em Inglaterra, para onde partira dois dias antes da projeção de Pato com Laranja, estando o seu regresso previsto oficialmente para 29/09. Na sua ausência, foram ouvidos vários funcionários da RTP, que pudessem estar direta ou indiretamente ligados ao que acontecera.

A Capital (22/09/1983)

Dias após a polémica exibição, veio o semanário Expresso revelar que na estação se tinham recebido apenas 18 telefonemas de protesto contra o filme, enquanto que contra a intervenção de Luís Andrade haviam sido recebidos… 48.

O crítico de cinema Jorge Leitão Ramos, na sua coluna no jornal Se7e, considerou que o caso ficaria “nos anais do ridículo da RTP”, pela forma leviana e desproporcional como foi gerido.

Ao fim e ao cabo, tudo não passou de uma tempestade num copo de água. Menos de uma semana depois, à margem da apresentação do novo mapa-tipo da RTP, Palma-Ferreira desdramatizou a questão, chegando a pedir desculpas aos jornalistas pelo facto de não ter podido servir pato com laranja em vez de bacalhau com natas…

Dr. João Palma-Ferreira (1982)

Prevalecera o bom senso e a decisão de não responsabilizar pessoas, mas sim estruturas. Com efeito, José Niza, administrador para a programação, afirmou ao Se7e que “há males que vêm por bem” e que o caso do Pato com Laranja permitira pôr a nu as deficiências de funcionamento de que padecia o departamento da RTP encarregado de selecionar e programar os filmes a exibir.

A propósito, Longe da Multidão, o filme inicialmente programado, seria exibido cerca de um mês depois, no dia 19/10/1983, na rubrica Cinema Lumiar.

Quem porventura lucrou com a situação foi a distribuidora de Pato com Laranja, que, na semana seguinte, decidiu repor a fita num dos seus cinemas.

À distância de várias décadas, o episódio reveste-se de um tom risível, tal como o descreveu Vasco Hogan Teves no livro RTP – 50 Anos de História:

Luís Andrade começou o seu novo desempenho com um “indigesto” prato de “Pato com Laranja”. Lamentável, neste caso, quase tudo, menos o filme em si, cuja evocada pornografia, vista agora, à distância, e depois de tudo o que, entretanto, tem passado pelo pequeno ecrã (muito mais e completo quanto a preliminares e terminantes) só pode dar enorme vontade de rir. Há sapos (não patos) que se têm de engolir vivos. Luís Andrade engoliu um dos grandes, mas, depois, enquanto exerceu funções, cumpriu o melhor possível, dentro dos condicionalismos vários que uma longa carreira de profissional de Televisão ajudaria a ultrapassar, não fora o implacável jogo dos interesses, complexo e muito ativo em 1983.

Contudo, o mais surpreendente é como o burburinho em torno deste caso alimentou uma das mais fantasiosas falácias respeitantes à televisão portuguesa. Enraizou-se a tese de que o filme teria sido interrompido a meio, deixando o primeiro canal com um ecrã negro durante longos minutos.

É, porém, absolutamente falso que tal tenha acontecido. Os registos oficiais da emissão da RTP 1 revelam que o filme foi exibido em quatro partes, com a duração total de uma hora e 41 minutos (excluindo os intervalos), o que corresponde à duração exata do filme.

Mas, se dúvidas houvesse, uma gravação doméstica efetuada nesse dia mostra claramente a palavra ‘FIM’, confirmando, sem margem para contestação, que a exibição ocorreu na íntegra.

Por outro lado, reza a lenda que, após a exibição (alegadamente incompleta) do filme, o presidente do conselho de gerência da RTP, Dr. Palma-Ferreira, teria lido um comunicado da direção a pedir desculpas aos telespectadores. Contudo – e, uma vez mais, como o comprovam a imprensa e as estatísticas de emissão –, foi Luís Andrade quem fez a referida comunicação, que durou apenas 30 segundos. O comunicado do conselho só seria enviado à imprensa no dia seguinte.

Este episódio mostra como a memória coletiva, por vezes, prefere o encanto da lenda ao rigor histórico, e como nem tudo o que se conta resiste ao confronto com os factos.

Em 1988, o filme foi lançado em VHS pela editora Filmitalus. Em 2009, saiu uma edição em DVD pela Estévez Seven, em formato Pan and Scan.

Edição em DVD

Pato com Laranja