Riso, Mentiras e Vídeo

Exibição:
02/09/1997 – 17/03/1998 (RTP 1)

Número de programas:
26

Autoria:
Bruno Cerveira

Guião e textos:
Paulo Narciso

Apresentação:
João Melo

Repórter:
Ana Galvão

Banda residente:
A Fúria do Açúcar

Júri:
Simara
Nuno Melo
Rita Salema

Direção de produção:
Alexandre Barradas

Realização de exteriores:
António Figueirinhas

Realização:
Santa Martha

Produção:
D&D Audiovisuais

Riso, Mentiras e Vídeo é um concurso que coloca em foco a estirpe mais universal e popular do humor: as anedotas.

Em cada sessão, três concorrentes tentam provar que dominam a arte de as bem contar, tentando arrancar sorrisos e gargalhadas ao júri fixo do programa em cada uma das quatro rondas de anedotas.

O júri, que pontua as prestações de zero a nove, é composto pela cantora Simara e pelos atores Nuno Melo e Rita Salema.

Simara
Nuno Melo
Rita Salema

Também os amigos são convidados a participar: a cada concorrente, é pedido que escolha, dentro da ‘claque’ que trouxe consigo, uma pessoa para contar uma anedota, cuja prestação é igualmente avaliada pelo júri. Os pontos atribuídos a esse amigo (ou familiar) são adicionados à pontuação já obtida pelo concorrente.

Os concorrentes são ainda desafiados a escolher, de uma seleção de seis vídeos com personalidades conhecidas do grande público, aquela que acham que poderá ter mais talento para contar anedotas. Mostra-se, seguidamente, a prestação da figura escolhida, que é igualmente pontuada pelo júri, revertendo a pontuação atribuída para o concorrente que a escolheu.

Intercalando com as provas de anedotas à desgarrada são propostas provas que remetem para a componente ‘Mentiras’ do programa: numa delas, é mostrada uma reportagem com contornos curiosos ou implausíveis. Cabe ao concorrente adivinhar, antes do desfecho da história, se se trata de um curioso caso da vida real ou apenas de uma bem-disposta mentira inventada pela produção.

Noutra prova, Ana Galvão apresenta-se como jornalista de um noticiário fictício, composto apenas por acontecimentos inusitados, também eles um misto de fantasia e realidade. O concorrente ganha cinco pontos por cada mentira ou verdade que consiga corretamente identificar.

Coloca-se também um desafio musical: para um mesmo tema, três cantores oferecem a sua interpretação. Apenas um deles tem, de facto, uma versão gravada do tema. Cada participante terá de descobrir quem é, ganhando cinco pontos se o identificar corretamente.

No final da sessão, o vencedor terá a oportunidade de, justificadamente, se aclamar o rei da comédia popular.

Pode dizer-se que Riso, Mentiras e Vídeo surge inserido numa corrente de programas semelhantes que, desde 1995 e até ao início da nova década, adornavam as emissões de televisão: as anedotas estavam na moda nos serões televisivos, tanto na forma de concurso como em séries ou programas de variedades (basta recordar o estrondoso sucesso que era Os Malucos do Riso nesta época).

A própria RTP já não era estreante neste tipo de programas. Em 1995, exibiu-se Só Riso, apresentado por José Pedro Gomes, também este um concurso aberto ao público em que se exigia proeza no saber contar anedotas. As semelhanças entre ambos os programas foram identificadas mesmo antes da estreia de Riso, Mentiras e Vídeo, referindo a TV Mais, de antemão, que “alguns espectadores poderiam pensar que se trata de um plágio”. Em resposta, a TV Guia preocupou-se em frisar que este novo programa trazia “muito, muito mais” que o seu antecessor, e que as semelhanças seriam “pura coincidência”.

A adição de provas não diretamente relacionadas com a declamação de anedotas era vista pelo autor, Bruno Cerveira, como o grande diferenciador do programa face a outros do mesmo género, tornando-o, nas suas palavras, “uma mistura agradável de ‘n’ fatores”.

Este concurso marcou a estreia de duas personalidades no mundo da televisão, uma delas já conhecida do público português, e a outra uma absoluta estreante: João Melo, o apresentador, era vocalista do grupo A Fúria do Açúcar. Por sua vez, Ana Galvão dava aqui, com 23 anos, os seus primeiros passos no pequeno ecrã, vinda diretamente do mundo radiofónico.

João Melo
Ana Galvão

Foi através da banda que o apresentador foi escolhido. João Melo clarificava, em entrevistas, que o primeiro convite tinha sido feito aos A Fúria do Açúcar para figurarem como banda residente no programa (convite este que aceitaram), ainda sem estar escolhido um apresentador. Rapidamente, descobriu-se em João Melo um certo carisma e talento cómicos, que levaram a que a produção do programa o convidasse para fazer um casting – Riso, Mentiras e Vídeo tinha encontrado o seu apresentador.

A imprensa adivinhava que, para João Melo, surgiria aqui a possibilidade de uma grande carreira televisiva. O autor do programa descrevia-o como um “comunicador nato” e propunha-lhe o desafio de, neste programa, não só conduzir a emissão, mas também participar ativamente nela. João Melo cantava músicas de sua autoria, dançava, contava também anedotas e contribuía para a boa disposição que se fazia sentir com cada uma das suas intervenções.

Com efeito, o vocalista de os A Fúria do Açúcar apresentaria, dois anos depois, um programa em tudo semelhante a Riso, Mentiras e Vídeo, produzido pela mesma produtora (D&D), mas desta vez exibido na TVI. Intitulado Ri-te, Ri-te, pouco mudava no formato – apenas a sua companheira de apresentação era diferente, sendo, neste programa, a apresentadora e modelo Cristina Möhler.

Em outubro de 1997, deu-se um episódio curioso que envolveu este programa: na sua coluna de fait-divers na revista TV Mais, o cronista social Carlos Castro alegou que Nuno Melo teria sido “despedido” do programa a meio de uma sessão de gravação pelo produtor Alexandre Barradas. No número seguinte, a revista viu-se forçada a publicar um desmentido.

Mas o assunto não ficaria por aqui: semanas depois, numa célebre emissão do programa Filhos da Nação, da SIC, apresentado por Júlia Pinheiro e dedicado aos limites do cronismo social, Nuno Melo foi confrontado com a acusação, desmentindo-a de viva voz. Menos sorte teve Carlos Castro, que se sentiu ameaçado pelos comentários tecidos sobre a sua pessoa no referido programa e pela estratégia de abordagem da equipa de reportagem, que o ‘caçou’ na rua como se de paparazzis se tratassem – ao ponto de apresentar uma queixa na ERC e um processo em tribunal contra a produção…

A cantora Sónia Costa foi uma das participantes na prova de música.

Das 26 sessões previstas para o programa, apenas foram exibidas 16. Desconhece-se o motivo desta paragem abrupta, mas especulamos que poderá ter sido um cancelamento por culpa das fracas audiências que, semana após semana, o programa registava.

Riso, Mentiras e Vídeo despediu-se dos ecrãs em março de 1998 e, desde então, nunca foi reposto em nenhum canal de televisão ou plataforma na Internet.

Riso, Mentiras e Vídeo